Quando bateram na porta àquela noite, Peter correu para a abertura. Um prato de comida foi jogado com destreza dentro do quarto escuro. Ele agarrou como se fosse sua própria vida. No prato, apenas uma carne viscosa e escura. Se tivessem lhe perguntado, ele nunca quereria comer aquilo, mas a necessidade o forçava a engolir aquela refeição. O próximo prato de comida só chegaria no dia seguinte.
Peter tomou um pedaço daquela carne e mordiscou. Sentia um gosto estranho que não era exatamente de carne bovina, suína ou aves. Estava um pouco queimada, tinha um gosto de carvão. O gosto ruim inundou seu sistema digestivo. Uma sensação estranha percorreu seu corpo. Sensação de que não devia estar comendo aquela carne. Mesmo assim, só podia continuar, só podia terminar aquela refeição terrível.
Esvaziou o prato e devolveu pela fenda na porta. Um envelope voltou como resposta. Peter se encolheu num canto. Nunca tinha voltado um envelope. Demorou a pegar. Seria uma chave? Um bilhete? Tocou o papel, um tanto úmido. O conteúdo era volumoso. Abriu e puxou o objeto lá de dentro. Um pedaço de carne, como o que havia comido. Pode sentir pelo cheiro e pela textura que era a mesma carne. Este pedaço era comprido e duro, com um aro metálico em volta. Puxou o aro. Pensou ter lido palavras escritas nele. Por fim, pode ler com clareza: Lucy Adams. Esposa de Peter.
Seria possível que, em tamanho desespero, teria devorado pedaços de sua esposa? Seria possível que o homem que o mantinha preso tinha cometido tamanha atrocidade, servindo-o com esta carne amarga? Peter teve vontade de chorar, teve vontade de vomitar, mas seu corpo o obrigava a poupar água e alimento. A devastação do seu corpo o impedia de expressar a repulsa que sentia de si mesmo. Lucy era a sua razão de existir, o motivo pelo qual estava juntando forças para sair daquele buraco. Se o amor não era tudo o que era tudo então?
Ainda queria lutar. Ainda queria sobreviver. Mesmo assim, sabia que Lucy não era mais o motivo de querer lutar. Ela agora era apenas uma forma de sobrevivência. O alimento, que era forçado a comer. O que era mais importante do que o amor de sua vida? O que era mais digno de sua luta do que o amor incondicional que sentia por ela? Peter arrastou-se pelas paredes do quarto e se moveu até a pia. Sobre ela, um espelho pendia. Uma arma de seus sequestradores para lembrá-lo de sua miséria. Admirou mais uma vez a aliança que segurava em sua mão esquerda. Lucy Adams.
Olhou para frente e pensou outra vez. Por que estou lutando? Por quem estou lutando? Viu a resposta reluzir à sua frente. Uma miragem. Um reflexo. Lutava por si mesmo. O quarto escuro em que estava era a representação maciça de sua tristeza. Tudo o que passara do lado de Lucy, todas as partes dela que engoliu. Já estava deglutindo pedaços de sua esposa muito antes de entrar naquele quarto. A tristeza que o envolvia era um ponto final. Um último pedaço que tinha que engolir. Seu verdadeiro amor estava refletido na sua frente. Ele mesmo. Por um momento, Peter se amou e se viu livre do quarto escuro.
Amar a si mesmo é a resposta para qualquer momento de tristeza.


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