domingo, 31 de janeiro de 2016

Cruel

A vida é irônica, não é, queridinho? Até parece que ontem eu era a garotinha frágil e sensível e você o ogro tosco e cruel. A cada dia de passa, eu me vejo mais longe daquela menininha e vejo você mais perto de ser aquele ogro para sempre. É uma questão de evolução, você consegue entender? Eu vou continuar evoluindo e você vai ficar estacionado neste seu estado de amargura que sempre foi seu.

Já houve dias em que eu não quis sair da cama. Dias em que eu só queria me matar e esganar a garota burra e idiota que havia dentro de mim. Acontece que eu fiz um acordo com ela. Um acordo para nenhuma de nós de machucar. Vai chegar um dia em que você vai olhar na tela do seu celular, através da tela rachada do seu smartphone e eu vou estar em uma vida dez vezes melhor do que a sua. Eu serei uma estrela sabe? Você vai me ver nos filmes e nas capas de revista, mas você ficará na sua mesma casa, pensando num jeito de sobreviver caso sua mãe decida que você está grandinho para ficar morando com ela.

Eu só quis ajudar você. Ajudar todo mundo. Eu não sou essa pessoa grossa que você acha que eu sou. Eu nunca fui. Você me disse tantas coisas horríveis e eu guardei cada uma delas. Cada ofensa a minha aparência, cada insinuação a minha sexualidade, cada vez que você disse que eu iria morrer sozinha. Acontece que eu não estou sozinha e nunca estarei. Mas você pode ficar sozinho de verdade, não enxerga isso? Eu não quero insistir para que você mude de vida e também não quero que sejamos amigos, mas eu não consigo ver alguém que está fadado a uma existência tão medíocre e ficar parada como se não fosse nada.

Aprendi muitas coisas depois que você sumiu da minha vida. Aprendi que eu não era uma garota tão frágil. Aprendi que eu não preciso chorar sempre que alguém me diz algo que eu não gosto. Aprendi que eu só preciso seguir os meus sonhos para que eles se realizem. Não é fácil, admito. Acho que é para dar um passo de cada vez. Tipo... fila do SUS. Você não pode empurrar a velhinha que está na sua frente. E você empurrou muita gente, pessoa. Às vezes, me pergunto se você sente remorso ou algo do tipo.

Eu sinto culpa todo dia. Culpa de ter ignorado sua carência por tanto tempo. Culpa por ter ficado calada aceitando todas as suas opiniões. Talvez você saiba que ninguém ouve o que você diz. As pessoas te olham como se você não fosse nada além de cruel e mentiroso e patético e um sozinho nesta vida. Vai me dizer que não se incomoda com esses olhares? É a última vez que lhe ofereço minha ajuda.

Mas se você decidir que é isso o que você quer ser, tudo bem, eu entendo. É difícil demais mudar quem você. Exige muita força de vontade. Eu só queria que você soubesse que eu vou seguir minha vida. Eu vou ser uma estrela de cinema, vou viver em uma grande cidade americana e você vai continuar aqui, sentindo remorso da vida que você poderia ter tido. Você é cruel, mas acho que todos somos em algum momento da nossa vida, certo?
 

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