sábado, 23 de janeiro de 2016

Se fosse um filme

Corta para uma cena da nossa despedida. Você entra no carro e me lança um último olhar. Talvez ele diga alguma coisa. Eu não digo nada. Você também permanece muda. Eu viro de costas, triste demais para perceber que o carro já partiu. Abraço minha irmã. Abraço meu irmão. Todos eles veem minha expressão. Será que notaram o que acabou de acontecer? Corro para o banheiro e choro. Choro porque sei que nunca nos veremos novamente. Eu me apaixonei pela garota que acordava a semana inteira de mau-humor, que compartilhava dos meus medos e me entendia quando eu dizia que preferia ver um filme. Agora percebo que minha vida chegou bem perto de se tornar um filme.

Se isso fosse um filme, você estaria aqui agora. Eu chegaria em casa e você estaria circulando as redondezas, esperando que eu aparecesse “por acaso”. Eu te encontraria e correria desesperadamente para os seus braços. Você nem precisaria dizer que sentiu minha falta, eu senti a sua também. Ficaríamos juntos e as pessoas na rua olhariam com alguma bondade no coração. Não se vê mais isso hoje em dia. Diria uma velhinha qualquer. Eu ia olhar nos seus olhos e encontrar aquele mesmo sorriso que se escondeu de mim de das minhas lentes por tanto tempo. Eu te diria porque fiquei triste aquele dia e você diria que estava com medo. Eu responderia que também estive.

Se fosse um filme, minha irmã ligaria para meu telefone e diria que você está desesperada precisando de minha ajuda e, em um lampejo de um segundo, eu correria o mundo inteiro até te encontrar perto de sofrer um acidente ou cometer alguma tolice. Eu te salvaria num súbito de coragem e você me seria grata. As pessoas na rua comentariam a minha valentia, mas ficariam notando que aquela foi apenas por um mínimo momento. Quando meus olhos mirassem os seus, veriam que eu não fui corajoso saltando na frente de um carro, mas fui um completo covarde, com medo de viver sem você.

De todas as formas, se fosse um filme, você e eu nos encontraríamos e a trilha sonora iria mudar. Talvez Taylor Swift cantasse nosso amor em uma música country (ela ainda faz dessas?) ou talvez você escolhesse algo mais rock’n’roll para tocar durante nosso primeiro beijo. O certo é que ao menos um casal apaixonado se beijaria no cinema, e esse casal seria eu e você. Acordaríamos de nosso sonho e eu ainda teria tido tempo para te dizer tudo o que eu percebi só depois. Como eu pude pensar que você seria apenas uma figurante na minha vida?

Corta para uma cena minha chorando. Corta para uma cena sua chorando. Corta para nós dois separados por não sei quantos quilômetros de distância. A câmera foca meu rosto molhado. Depois a sua câmera captura um quadro geral do seu quarto. Você está sentada num canto. A música diminui um pouco, o meu grito toma conta do quadro. Corta para uma cena de você quebrando móveis no seu quarto. A tela mostra-se agora dividida. Eu apoio as mãos em uma parede, ocupo o lado esquerdo da tela. Com um efeito de edição, parece que estamos em quartos vizinhos. Você está apoiada com as mãos na parede. Por um momento, parece que nossas mãos vão se tocar. Os créditos sobem e o público descobre que eu e você não nos veremos nunca mais. Não era um filme afinal. Você não vai me encontrar na rua e eu não vou ver você nunca mais. Ao que parece, você realmente me disse adeus.


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