sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Renascer

 

                 Passei a vida inteira ouvindo frases motivacionais que diziam que só se tem uma vida, que nascemos apenas uma vez e morremos logo em seguida. Por 57 anos, acreditei que temos um início, o princípio único e que, então, vinha o fim de tudo: da vida, da matéria, do espírito, da consciência.
            Olho para os ponteiros neste instante e meu coração aperta, pois sei que o fim está se aproximando. Nesta varanda vazia, ele me encara. Não com a hostilidade com a que já havia me acostumado, mas com um olhar infantil e sou transportada 27 anos no passado, no dia de seu nascimento. Naquele dia eu era uma mulher, afirmavam meus 30 anos. Mas em meu coração eu era uma menina surpresa com a complexa simplicidade em meus braços: meu filho. Cabia a mim a tarefa de dar-lhe amor, apoio, segurança e lições sobre a vida, diziam meus parentes na maternidade. Lições sobre a vida? O que poderia eu, uma simples mulher de 30 anos, ensinar sobre a vida à outra pessoa? Mal sabiam aquelas pessoas que eu não passaria aprendizado algum a meu filho. Este seria um caminho que nós percorreríamos juntos e hoje, nos meus 57 anos, continuo aprendendo com ele os maiores ensinamentos da minha vida.
            ‒ Vou buscar o champanhe. – Ele declara e se levanta, me deixando sozinha na varanda, mas isso não me incomoda. Sei que ele irá voltar. Pela primeira vez, sei que é comigo que ele quer estar.
            Por mais da metade desses últimos anos, dei minha missão como perdida. Não fui feita para ser mãe, não foi isso o que planejei. Recebi a tarefa de educar uma criança sem o mínimo preparo, bem no momento em que minha vida profissional estava prestes a decolar. Para completar, sua resistência em entender o meu lado nunca ajudaram em nada. Não o culpo. Ele via seus amiguinhos com suas mães atenciosas, como se tivessem nascido para tal função e desejava que eu fosse assim. Em algum lugar dentro de mim, eu também desejava que eu fosse assim. Por que sempre tão fria? Por que sempre tão grossa? A adolescência foi, com certeza, a pior fase. Dias, semanas sem me dirigir um olhar. Não fazia questão de disfarçar a raiva, a mágoa que o consumiam. Parecia ter decidido que não precisava de mim e que barraria qualquer tentativa de aproximação minha. Não sei qual seria a reação apropriada para uma mãe, mas a minha foi ignorar, mesmo que por dentro isso me matasse.
            ‒ Faltam cinco minutos. – Ele volta com a garrafa e duas taças, me encontra com a expressão pensativa e sorri, descontraindo o ambiente silencioso. – Até que enfim, né? Ano novo, vida nova.
            ‒ Acho que gostei desse ano, apesar de tudo. – Eu digo, mais para mim do que para ele.
            ‒ Acredito que esse novo ano possa ser um recomeço, sabe? Podemos começar com o pé direito, fazer tudo certo dessa vez. – Ele sorri e pega a minha mão.
            Ouvi-lo dizer tudo isso de uma vez quase me deixa tonta. Recomeçar? Depois de anos de falhas, decepções um com o outro... Ele estaria disposto a perdoar? Eu estaria? Analiso seu rosto: ele é bonito. Tem os meus olhos e agora, com 27 anos, é quase um homem formado. E eu, com 57, me sinto verdadeiramente uma mulher formada.
            Já há alguns anos, a rebeldia finalmente mostrou-se não levar a lugar algum. Sua adolescência clichê de um menino revoltado, que volta tarde para casa, grita, faz tudo o que não deve fazer, ainda apresentava suas marcas no início de sua vida adulta. Mas, neste momento, não a vejo em seus olhos.
            ‒ Acha mesmo que depois de tanto tempo é possível recomeçar? – Uma lágrima cai do meu olho.
            ‒ Estamos sozinhos no meu apartamento passando a noite de Ano Novo juntos, mãe. Eu não quero mais ser aquele garoto. Ele morreu. – Ele parecia mais velho do que eu falando daquele jeito. – Você ainda quer ser aquela mãe?
            Não! Céus, não! Quero ser a mãe que há 2 anos estava na festa de formatura da faculdade do filho e, mesmo não estando em paz com ele, estava verdadeiramente orgulhosa. É essa mãe que quero ser. Minhas lágrimas responderam por mim. Há 2 meses, quando ele me fez o convite de passar a noite de Ano Novo aqui, eu entendi. Ele me queria de volta. Queria que sua festa de formatura não fosse um evento isolado na nossa história conturbada. Eu também queria isso.
            Nesse momento, ele me abraça e eu entendo: não nascemos e morremos apenas uma vez. Renascemos todas as vezes que morremos, morremos todas as vezes que nascemos e nascemos todas as vezes que decidimos mudar. Não há um fim e um começo. Todo dia podemos recomeçar e mudar nosso final. Os fogos começar e o relógio marca 00:00. Muito mais que um ano nascendo: nascem um filho e uma mãe.
 

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