quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Primavera

Autor convidado: Daniel Mois
Rosa era alegria, sedução, compaixão. Rosa era aquela menina que faria todo o quarteirão parar para poder admirar. Rosa sempre ouviria gritos de infinitos cravos pela rua, um mais podre que o outro, tentando sempre fazê-la murchar. Porém Rosa já viria a saber que com apenas um olhar, todos aqueles cravos antes poderosos viriam a se quebrar, mostrando mais fraqueza do que poderiam aparentar. Rosa era livre, como qualquer flor deveria ser, até Lótus aparecer.
No Oriente, Lótus significa pureza espiritual. E Lótus era puro. Puro demais para um jovem de 22 anos (E, à essa altura, isso era um elogio!). Porém puro o suficiente para encantar Rosa, que não perdeu tempo e foi logo se apresentar. E não que pela primeira vez, ao ver seu olhar, um rapaz, mesmo inocente, não veio a gaguejar? Pelo contrário: soube falar, ouvir, elogiar, e, principalmente, chamá-la para sair. Mas não para um restaurante, ou até algum cinema qualquer. Simplesmente sair. Sair do meio daquele exército de cravos apavorados.
Então eles saíram. Correram de mãos dadas pelo meio da rua até chegar no carro de Lótus. E ele começou a dirigir, sem ter ideia de para onde ir, até avistar um palácio branco, cercado por um jardim que se assemelhara ao paraíso.E lá eles ficaram, observando todas aquelas flores serem cuidadosamente protegidas pela sombra que viria do pôr do sol. Agora, já num escuro incrivelmente belo, Lótus só conseguia enxergar Rosa e seu forte batom vermelho. Ela pegou sua mão, levou ao seu corpo, e o beijou. E depois, o sol se pôs. Junto de Lótus e sua pureza.
Pura, Rosa nunca chegou a ser, e isso não viria a ser segredo nem para seu pai, Cosmo. Um senhor já assombrado em seu passado, em um veneno que ele desesperadamente tentara passar adiante por sua geração. Cada beijo que Rosa recebia era retribuído com um tapa por seu pai, que não se conformava em ver sua (já não tão) queria filha seguir os mesmo caminhos de sua falecida mãe.
 Vera Trummer era a mais bela, porém mais venenosa flor da Bahia. Seu perfeito aroma se juntara com a simetria de suas curvas e fizera Cosmo ser enfeitiçado, passando 13 anos se sentindo encantado por tamanha beleza e bondade. Isso até Rosa nascer. Ouvir os berros daquela criança deixaram Vera enfurecida, e seu veneno viria a ser lançado, destruindo todos ao seu redor. E o veneno foi compartilhado com o vizinho ao lado, tão ingênuo quanto qualquer um em seu caminho. Mas o veneno era duradouro, aparentemente sem sintomas, porém quando fazia efeito, era fatal. E esse efeito era demonstrado no olhar de Cosmo enquanto via sua esposa arruinando sua reputação e seu amor. E mesmo após os 5 (que pareciam infinitos) disparos no imperdoável casal, sua presença ainda era sentida, ainda era tóxica à seu coração, que murchava lentamente, numa dor eternamente incurável, que só deixaria de assombrá-lo quando fosse sua vez de ser levado ao inferno. E ver Rosa chegando tarde mais uma vez, sem sequer tentar dar alguma explicação, apenas agilizou o que parecia ser inevitável. Naquele dia, depois de muito tempo, ele não a fez sentir o doce gosto de seu próprio sangue. Naquele dia, o amor de Lótus a livrou de sua maior fraqueza. Naquele dia, Cosmo murchou, e Rosa pode sorrir.
Após a morte de seu pai, a vida de Rosa tornou-se cada vez mais florida, afinal, agora nada impedia ela e Lótus de se encontrarem naquele jardim. E eles fizeram isso todo (nem tão) santo dia, por 30 dias.
No 31º dia, Lótus não apareceu. E Rosa se desesperou. Ousou imaginar que haveria estragado o rapaz, deixando-o tão impuro quanto qualquer outro cravo de Salvador. Até que ela olhou para o jardim,e começou a chorar. Viu que a maioria das flores vieram a morrer, afinal, a tão amada primavera estava vindo a acabar. Porém, de trás daquela mansão, um homem viria a aparecer. E, conforme ele vinha se aproximando, as lágrimas de tristeza em seu rosto se transformavam em alegria. E então ela correu. Correu sem parar. Correu para pular nos braços da única pessoa do mundo que era capaz de enxergar uma verdadeira beleza por trás daquele corpo sedutor. E o beijou. Porém, o pulo acabou derrubando uma caixa do bolso de Lótus. Uma caixa que viria a se abrir e revelar uma rosa, a única viva naquele jardim, ao lado de uma aliança. Naquele dia, a Rosa reviveu. Naquele dia, a primavera nunca acabaria.

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