-Por que eu escrevo?
Escrevo para exprimir a realidade ao meu redor com expressões subjetivas. Não pretendo ofender ninguém com essas palavras fúteis que eu irei usar para tecer meu texto. Posso ser um hipócrita, falso moralista e invejoso, mas eu não podia deixar de descrever esse acontecimento tão inusitado e amargo.
O Churrasco
Eu estava sozinho em casa, sem nada de interessante para fazer. É assim que meus amigos descreveriam meu dia-a-dia. E eles, preocupados com minha "vida social", resolveram me chamar para um "churrasco" (me desculpem pelas aspas, mas eu necessitava usá-las).
Obviamente, eu recusei de imediato. Como um adolescente tão comportado, ético e moralista poderia ir para um lugar onde a promiscuidade é a imperatriz? No entanto, com a insistência exagerada e meu coração frouxo, eu acabei cedendo.
Chegando ao local, um rapaz bêbado, que parecia ter seus 18 anos, nos abordou:
"Fala aí galera, cês querem entrar na festa? É só passar 20 conto pra nós comprar a vodka."
Ah! Que vontade que eu tive de dizer não... Porém, eu queria satisfazer o desejo dos meus colegas. Eu tinha prometido que ficaria até o final, e assim o fiz.
Vinte reais jogados fora em um mísero churrasco. Aliás, um fato curioso esse. Pelo o que eu saiba, churrascos costumam envolver carne. E esse churrasco nem comida tinha. Chamemos-o de "churrasco líquido".
Com isso, eu e meus amigos entramos no salão, que ironicamente se chamava "salão infantil". A minha primeira vista foi a de álcool derramado no chão, misturado com papéis toalha amarrotados. Logo após, resolvi sentar e observar as pessoas que estavam na minha frente. Eu então, tentei demonstrar um ar de superioridade, mesmo sabendo que não sou diferente.
A música que tocava nesse momento dizia algo relacionado a "sentar gostoso". E o mais impressionante era que todos os meninos e meninas dançavam freneticamente. Sem se importarem com o simbolismo que era passado. Infelizmente, eu acabei entendendo o porquê de tudo isso se chamar churrasco.
Eu pensava que não havia carnes, entretanto estava enganado. Todos em pé dançando representavam meros pedaços de carne. Os olhares provocantes e os movimentos sensuais eram só fachada. A verdadeira intenção consistia em obter a prazerosa carne, em manter satisfeita a libido.
E enquanto meus devaneios tomavam conta de mim, me enchia de orgulho por pensar ter tamanha criatividade. Não demorou muito para eu voltar à realidade. Um ser fez o favor de jogar um copo cheio de guaraná em cima do meu celular e da minha calça.
Nunca fui de me estressar, portanto calmamente eu levantei e me dirigi até o banheiro, que por sua vez estava ocupado. Depois de dez minutos de espera, um garoto (de no máximo 16 anos) saiu com uma feição estranha de alívio.
Antes mesmo de entrar no banheiro senti um cheiro forte e doce. Havia desconfiado, e tive certeza no momento em que olhei para o vaso sanitário. Aquele menino tinha fumado maconha. E para piorar minha situação, o chão estava coberto de papel higiênico sujo. Ainda assim, eu precisava tirar o guaraná de mim. Peguei o máximo de papel que pude e fui limpar minha calça fora daquele nojo.
Pensando que meus problemas haviam acabado, fui em direção ao banco do jardim (me parecia o lugar mais calmo). E de repente, um garoto desferiu um soco no rosto do seu colega. Eles brigavam porque queriam "pegar" (eu odeio esse verbo, mas não achei outro melhor) a mesma garota. É bem provável que nenhum dos dois tenha consumado o fato.
Enfim, eu fiquei o resto da festa sentado no meu cantinho aconchegante, já pensando em como eu escreveria esse texto, anotando minhas ideias no bloco de notas do meu celular. Até que um outro rapaz decidiu falar comigo:
"Mano, cê tem que socializar mais. Não adianta esconde a cara atrás do celular não."
O pior era que metade do que ele falou fazia sentido. Eu sempre tive dificuldade em conversar com pessoas novas, consequentemente, eu tentava me esconder como se ninguém pudesse me notar. Mas esse "socializar" me soou bastante falso.
Por um instante, eu deixei de lado meu texto e tentei entender o que era "socializar". Eu realmente quis participar, fazer amigos, ser normal, deixar de ser "lerdão", não me importar com o mundo ao meu redor, viver simplesmente por viver. No entanto, não consegui.
Ao chegar em casa, por descargo de consciência, fui pesquisar no dicionário o que era "socializar". E aqui foi o que eu achei: "adaptar-se à convivência normal com outras pessoas".
Confesso que me decepcionei. Eu não quero socializar. Eu não quero ser moldado por algo ou alguém. Eu não quero ser mais um. Eu não quero fazer parte do rebanho.
Portanto, da próxima vez que me chamarem para um churrasco ou uma festa, eu terei a audácia de dizer "não". Mesmo que isso me afaste daqueles que se importam comigo, eu não posso compactuar com tanta asneira junta em um lugar só.

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