sábado, 30 de janeiro de 2016

As balas de caramelo

Quando eu era pequena, ia para a casa da minha avó todo fim de semana. Todos os primos iam. Até os de consideração.
Nós corríamos, jogávamos bola, assistíamos filmes na televisão, alguns soltavam pipa, outros andavam de skate, bicicleta ou patins.
No lanche da tarde, tinha bolo de cenoura com cobertura de chocolate, que minha mãe fazia, suco de laranja natural e pão fresquinho. Ah, e o café dos adultos.
Quando estava perto de ir embora, meu pai ia até a esquina e comprava balas de caramelo, daquelas duras e que grudam nos dentes. Era mágico, como aquilo era o "fim" da história que se repetia todos os sábados.
Porém, no segundo ano, nos mudamos para um apartamento do outro lado da cidade e, ir à casa da minha avó, se tornou cada vez mais difícil. Íamos duas vezes por mês, e olhe lá!
A história era sempre a mesma. As pessoas eram as mesmas, as piadas eram as mesmas, as brincadeiras eram as mesmas, o filme era o mesmo, o bolo era o mesmo e, até as balas de caramelo, eram as mesmas.
Porém, eu não era.
Nós corríamos, jogávamos bola, assistíamos filmes na televisão, alguns soltavam pipa, outros andavam de skate, bicicleta ou patins, e eu lia.
Eu fazia tudo aquilo. Mas, depois de um tempo, eu não gostava mais tanto. Era sempre a mesma coisa. Mas, com os livros, não.
Tudo foi perdendo a magia, que antes eu enxergava, sem saber que havia algo realmente mágico dentro daquelas folhas, que diziam ser "perda de tempo".
Com o tempo, as crianças cresceram e se tornaram adolescentes, assim como eu. Algumas já eram adultas, até! Algumas largaram a escola, outras começaram a namorar ou gravar falas de filmes. Algumas simplesmente sumiram. Ou eu deixei de procurá-las. Ah, e eu? Continuei com meus livros e minhas músicas, chatas, que "ninguém sabe o que estão cantando", e estudando, quando preciso.
Com o tempo, tive que passar a negar as balas de caramelo. Elas grudavam no aparelho.
"Ai, deixa de ser chata e vem brincar!"
Seis anos se passaram, e as brincadeiras continuavam as mesmas. Assim como as pessoas, a programação da Globo, as reclamações e a paisagem.
Com o tempo, eu passei a ir cada vez menos. Não negava o convite. Mas o estudo chamava mais que os livros na prateleira.
Com o tempo, eu passei a esquecer das balas de caramelo. Até que, dia desses, vi as tais balas em uma banca de jornal. Então, resolvi colocar a magia que eu via, em um papel, pra continuar sendo mágico.
 

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