terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A terceira sombra da casa

 





‒ Crianças, comportem-se.  Eu e seu pai vamos visitar vovó Marlee. Não vamos demorar. ‒ Disse a mãe para Diana e Olga, suas filhas.
‒ Poxa vida, mãe! Não posso ir com vocês? ‒ Perguntou Diana frustrada por ter que ficar em casa sozinha. Não era por medo, simplesmente achava que sua irmã mais nova atrapalhava tudo o que tentava fazer.
A mãe virou-se para a mais velha e continuou. ‒ Diana, Já discutimos isso, sua avó está doente. Não quero ter que cuidar dele e de vocês também. Quando ela melhorar, iremos todos almoçar lá. Lembra-se do cominado? – Disse arqueando uma de suas sobrancelhas, enquanto assistia sua filha revirar os olhos. ‒ Cuide da sua irmã até eu voltar. Quero que dê atenção a ela, não a deixe sozinha.
A menina bufou e, por fim, concordou. Deu as costas e colocou os fones de ouvido, novamente. Olga estava particularmente animada por estar sozinha em casa. Sendo a primeira vez, não conseguia parar de pensar que era uma garota crescida e já começava a pensar em tudo o que poderia fazer. Quando sua mãe bateu a porta, o clique da porta foi como uma música sutil e maravilhosa. Uma sinfonia de liberdade. A pequena, de apenas nove anos, correu para seu quarto e espalhou todas as suas bonecas pelo chão. Sua mãe nunca a deixaria cometer tamanha falta de organização. Foi quando uma luz iluminou seus pensamentos e ela resolveu chamar Diana para brincar com ela.
‒ Olga! – Disse manhosa. – Vai começar Game of thrones, não pode ser mais tarde? ‒ Decepcionada por ter sido rejeitada, correu até seu quarto. Olga queria muito que sua irmã gostasse dela, sentia que esse sentimento não era recíproco.
A mais velha sentou diante da televisão e ligou na HBO, para acompanhar sua série favorita. Seu telefone tocou. Não por muito tempo. A bateria, toda consumida ouvindo músicas, terminou, e ela não pode atender. Jogou seu celular no sofá e aproveitou o silêncio para assistir sua série com toda a paz do mundo.
* * *
Tão logo o capítulo se encerrou, a televisão foi desligada. Mas ainda restavam vozes. Vozes muito familiares, que se escondiam nos corredores da casa. Diana caminhou devagar tentando não fazer barulho. Tudo o que queria era identificar o que sua irmã caçula tanto falava. A tábua corrida sob seus pés insistia em ranger de leve, mas sua calma evitava a formação de um barulho maior.
‒ Senhorita Marocas, aceita mais uma xícara de chá? Está delicioso de fato! ‒ Era a voz de Olga, com certeza.
‒ Aceito, mais uma xícara. Obrigada! ‒ Esta segunda voz, estranhamente familiar, não pertencia a caçula. Não tinha como pertencer. Diana olhou-se no espelho do corredor e se viu refletida. Como suspeitava, ela estava ali mesmo, como poderia estar em dois lugares? Como poderia ser dela a segunda voz no quarto de Olga? Abriu a porta. Olga olhava fixamente para a irmã mais velha, diante da porta.
‒ O que foi, Diana? ‒ A mais velha demorou a dar a resposta.
‒ Eu pensei... Você está sozinha? Digo, brincando sozinha? ‒ Olga riu com leveza e largou a boneca no chão.
‒ Claro que não. Estou brincando com Rita, minha amiga. Ela se parece muito com você, mas ela gosta de brincar comigo. ‒ Diana olhou por todos os lados e não encontrou a Rita de que sua irmã falava. Olhou para os lados e tudo o que conseguia enxergar era uma enorme bagunça e sua imagem refletida no espelho. Pensou ver seu reflexo sorrindo, mas logo constatou que tinha se enganado. O fato é: elas estavam sozinhas em casa.
 ‒ Hmmm. – Receosa espantou seus pensamentos. Talvez a série tivesse deixado-a um tanto paranoica. Era isso mesmo. A série. ­‒ Qualquer coisa vou estar no computador. Só me procure se for alguma coisa séria.
* * *
Muito embora estivesse no computador, sua mente ainda vagava para o quarto de sua irmã. Sua promessa de dar atenção a caçula estava sendo completamente quebrada. Ainda conseguia ouvir Olga brincando no quarto. Uma parte de si não conseguia se desligar do que a irmã havia dito. Rita. Uma amiga imaginária da qual nunca tinha ouvido falar. Seria possível que sua irmã estivesse inventando tudo aquilo?
Diana sentiu fome. Resolveu ir na cozinha procurar alguma coisa para comer. A geladeira não estava muito cheia. Sua mãe ainda não tinha feito compras, havia apenas alguns restos de refeições guardados em potes de plástico. Atrás do famoso pode de sorvete que na verdade tem feijão, uma suculenta barra de chocolate semidevorada aguardava para ser consumida. Diana tomou o doce e colocou sobre a bancada. Alcançou uma garrafa de água e serviu-se de um copo. Olga gritou.
O susto a fez soltar o copo de vidro que, ao encontrar o chão, estilhaçou-se em cacos. Diana se irritou com a atitude da caçula. Provavelmente estava gritando para chamar a sua atenção. Abaixou-se para limpar o chão e sentiu sua perna arder. Um pequeno corte. Um filete de sangue escorria pela perna. Continuou limpando o chão e jogou os cacos que conseguiu catar no lixo.
Em passos firmes, dirigiu-se ao quarto da irmã. Queria saber o motivo do grito que lhe custara um copo de vidro. Passou pelo espelho. Ignorou-o. Entrou no quarto e viu Olga encolhida no canto.
‒ Não. Não chegue perto de mim! ‒ Gritou a pequena. ‒ Eu não quero fazer isso. Não vou fazer o que está me mandando.
‒ Eu só ia te mandar calar a boca. Seu grito me fez quebrar um copo na cozinha. Por causa disso eu me cortei. Vê se para de gritar à toa. ‒ Ralhou Diana.
‒ D-Di...Diana?
‒ Quem mais seria? Estamos sozinhas, pirralha!
‒ Não estamos não...
A as luzes da casa apagaram-se, Diana sentiu sua irmã abraçando -a. Algo dizia que era para retribuir o abraço. Diana nunca sentiu medo de escuro, até hoje.
‒ Olga, me escute. Preciso que me conte exatamente o que quis dizer com isso. ‒ Disse chacoalhando-a pelos ombros.
‒ Não. Eu não posso, Di! Ela não nos perdoaria.
‒ Ela quem, Olga?! ‒ Continuou um tanto desesperada. Não ouvindo resposta, continuou a insistir. ‒ Diga logo. Ela quem? ‒ E então um sentimento de vazio , como se a felicidade fosse esvaída sem pressa tomou posse de Diana. E logo viu-se temendo a resposta. Até porque algo a dizia que ela já sabia a resposta. 
‒ Você.
‒ E o que eu disse para você fazer? ‒ Diana tentou manter um pouco de razão. Descobrir quem era esta Outra Diana era a chave para entender o medo de sua irmã.
‒ Você queria brincar comigo. ‒ As palavras saiam devagar, quase que sem vida, da boca da pequena Olga. ‒ Jogar um jogo. A vencedora pode ficar com os biscoitos. A perdedora tem que se cortar.
‒ Presta atenção, essa outra garota, não era eu. Você não pode brincar com ela.
‒ Eu sei. Não era exatamente você. Era a Rita. Ela disse que se eu não brincar com ela, ela vai te matar.
E então ouviram um barulho seguido de uma música que Diana pôde reconhecer como Inverno de Vivaldi. Praticava essa musica no balé todo dia ímpar. 
‒ Di-Di...Diana! ‒ Disse a mais nova soluçando. ‒ Ela nos ouviu! Ela virá atrás de nós! Quero ir embora. Por favor. Me tire daqui.
‒ Calma ‒ Diana tentou usar o mínimo de racionalidade que ainda restava. Rapidamente, buscou os olhos de Olga. ‒ Querida. Nós vamos sair dessa. ‒ A mais velha precisava encontrar um plano de ação rápido. Logo, tomou uma iniciativa bastante impulsiva.
‒ Rita! Ritaaaa! Rita! Estamos aqui! Não precisa se esconder! Queremos conversar. ‒ Gritou Diana a plenos pulmões. Esperava que essa tal de Rita tivesse um pingo de humanidade. Olga, porém, continuava a puxar a barra da blusa de sua irmã em um gesto de puro medo.
‒ Diana!
‒ Pera aí, Olga! ‒ E continuava a gritar. A escuridão da casa e da rua não ajudavam muito. Não a elas. Apenas fortaleciam o temor que já existia dentro de cada uma delas.
‒ Diana!
‒ Pera aí, Olga!
‒ Diana!
‒ Por favor, Olga!!!!! ‒ E antes que pudesse virar e gritar poucas e boas para a irmã, Diana finalmente viu quem a chamava.
‒ Me chamou, Diana? ‒ E lá estava ela. Olga. Parada com sua boneca encardida. Não demorou muito tempo para que Diana se perguntasse: se ela não estava ali o tempo todo, então quem estava no lugar de Olga? Assombrada pela iminência da resposta corre até sua irmã.
‒ Olga, me diz que estava esse tempo todo comigo! ‒ Implorava. ‒ Diz!
‒ Eu estava tentando te encontrar. As luzes se apagaram quando eu estava brincando. Procurei você na casa inteira, Di! Onde você estava? ‒ E, a cada palavra, uma feição cada vez mais horrorizada tomava conta do rosto de Diana. 
‒ Olga. Não fique assustada. Mas precisamos sair de casa. Agora!
Ouvindo o barulho de trinco, e em seguida um cheiro de gás, começaram a correr até a porta. Tentaram abri-la a qualquer custo. Diana correu até a cozinha para apagar o gás, correu tão rápido que quase não sentiu quando um caco de vidro rasgou a planta do seu pé. Droga de copo quebrado.  A menina desliga o gás e ouve um ruído estridente vir da sala. O telefone estava funcionando. É claro que estava. Como não havia pensado nisso antes? O telefone era alimentado por uma bateria. Não dependia da eletricidade.
‒ Alô! ‒ E então o silêncio. ‒ Alô! Quem está falando?
‒ Diana... ‒ Disse a voz trêmula no telefone.
‒ Você me conhece? Quem é você?
‒ Diana...
‒ Por favor, diga quem é!!! Eu preciso de ajuda. Minha irmã e eu... Nós precisamos. Por favor, nos ajude.
E então a ligação fora cortada. Tentou ligar para sua mãe, mas só estava dando ocupado. Sentou-se no chão do hall e começou a chorar. Desejava que seus pais chegassem. Que falassem que foi uma pegadinha de muito mau gosto.  Limpando suas lágrimas, tomou um susto ao ouvir um chiado da televisão. Como era possível que isso estivesse acontecendo?  Levantou-se calmamente e andou até a sala. Lá estava Olga sentada em frente à televisão. Como se estivesse conversando com alguém.
‒ Olga? ‒Perguntou a irmã. E a menina nem respondera.
‒ Olga? Com quem está falando? ‒ E de novo nenhum barulho além de suas vozes e o chiado fora ouvido.
‒ Olga! Você está me assustando. ‒ E então a televisão desligou ao mesmo tempo em que Olga apressadamente se levantou. 
‒ Olga! Para onde está indo? ‒ Dizia Diana. E a mais nova continuava a andar. Como se estivesse em um transe hipnótico. Não falava. Não gesticulava e Diana achava que tampouco respirava. 
‒ Por favor, Olga!
Tentou fazer contato físico, mas algo a puxou bruscamente para trás. Diana caiu na quina da mesa. Uma dor horrível tomou conta de si. Viu sangue espalhado por todo o canto. Mas Diana tinha que salvar sua irmã. Ela tinha certeza que a pequena corria risco de vida.
‒ Diana.... Tolinha. Acha que pode salvá-la?
Tentou levantar-se para alcançar Olga, mas falhou miseravelmente. Não sentia suas pernas. Isso não poderia estar acontecendo.
‒ Assista na primeira fila o que farei com sua irmã. E então deixarei você viver com a dor até morrer de velhice. ‒ E dando uma risadinha a voz calou-se.
Diana tentou mover-se, mas a cada tentativa suas costas doíam mais e mais. Fez a única coisa que restava. Rezou. Rezou para Deus. E embora sua família não fosse praticante de religião, acreditavam em alguma coisa. E Diana jurou que se as duas saíssem dessa, ela iria as missas com sua avó. Acreditou tanto em suas palavras que por um momento esqueceu onde estavam. E então, logo quando estava abrindo seus olhos, viu Olga parada em frente à escada. Atrás dela, uma figura sombria. Mas Olga aparentava cada vez mais a normalidade. 
‒ Diana! ‒ E correndo até a irmã mais velha, fora empurrada do meio da escada. Era o fim. Diana dispôs-se a chorar.  A dor que sentia nas costas era incomparável com a dor da perda, sabia que nunca demonstrou exatamente que gostava de sua irmã. E desejou ter sido diferente. Antes de apagar ouviu o carro de seus pais na garagem.
* * *
Seis meses depois, estava tudo bem. Diana, apesar de sua condição de paraplégica, estava muito bem. Sua irmã por pouco não havia morrido. Sofreu uma grave concussão, hemorragia cerebral, algumas costelas quebradas e vivia na iminência de uma perda gradual da visão. Por um milagre, que Diana satisfatoriamente atribuiu a Deus, ela estava viva. Já haviam se recuperado quase que inteiramente. Sua mãe recusava-se a deixa-las sozinhas novamente e sua nova casa era bem aconchegante. 
‒ Diana, vai no quarto de sua irmã e a traga para jantar! Diana foi empurrando sua cadeira até chegar no quarto. Mas parou a ouvir vozes. Um pressentimento ruim tomou conta instantaneamente.
‒ Mais chá, Diana? ‒ E então confusa entrou no quarto e perguntou.
‒ Olga! Com quem estava falando?
‒ Com você, oras. Quem mais poderia estar comigo?
E então Diana virou -se a tempo de ver Rita empurrando a porta. A porta fechou-se.
‒ Mais chá, Diana?

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