quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Corsa prata

Um carro vem em minha direção. Por algum segundo, penso em gritar ao motorista. Pedir que tenha atenção e que desvie do veículo que vem em disparada. Meus lábios, selados, não me permitem uma palavra sequer. Em outros dias eu teria medo da morte, teria gritado e fechado os olhos. O que há de errado agora? Os últimos dias têm sido bem intensos. A perspectiva de não te encontrar no dia seguinte me corrói os pensamentos. Eu quero gritar para que o carro desvie. Por que não consigo dizer nada?

Sua voz vem suave na minha cabeça. Como no dia em que você correu pela rua e eu corri atrás de você. A gente ria como nunca e me faltava muito ar nos pulmões. Pensei que morreria aquele dia, mas vivi. Naquele momento, diante da perspectiva da morte, senti-me intensamente infeliz, estava vivendo um momento mágico do seu lado. Não estava nem um pouco pronto para morrer. Queria acordar mais uma manhã e te olhar nos olhos, ver mais uma vez você sorrindo com a boca aberta, ver mais uma vez o seu olhar de ódio para a minha câmera. Tirar mais uma foto tua sem olhar pra mim.

Penso em gritar ao motorista. Será que não vê o corsa prata que vem bem na nossa direção? Talvez o bom homem tenha uma família e filhos que irão perdê-lo na colisão. Ele fala no celular. Distraído, não percebe que vai bater. Não digo nada. Talvez seja melhor assim. No fim das contas, você não vai aparecer no dia seguinte. Você irá acordar e se esquecer de quem eu fui e quando ouvir meu nome novamente, perguntará “quem?”. Talvez seja melhor assim.

Talvez minha morte saia no jornal. Se você souber que estou morto, talvez assim se lembre de mim. Pense nos beijos que não demos, nas palavras que não dissemos e nas vezes em que poderíamos ter ficado juntos. Seria a morte então a solução? A solução para você se lembrar de mim tanto quanto eu me lembro de você? O corsa buzina, mas o motorista está ocupado demais no celular. Lembro-me imediatamente das propagandas de televisão. Uma família destruída por um acidente de carro. Eu já estava destruído muito antes disso.

Quero ter os olhos abertos, quero ver a morte chegar, junto com a certeza de que você ainda vai se lembrar de mim. Os faróis se acendem e piscam, mas minha visão continua sem arder. Estou pronto para o impacto. Qualquer dor que venha ainda é muito mais sutil e bisonha do que a dor que sinto, a cada dia, da sua falta. O motorista finalmente percebe que o carro irá colidir. Ele joga o celular para o banco do carona. Vejo o desespero chegar aos seus olhos. Mantenho a minha calma de jogador de pôquer. Com paciência, espero a próxima carta se revelar. O motorista segue frenético.


Numa manobra impossível, o carro desvia para o sentido oposto. Os pneus cantam no asfalto. O motorista respira aliviado. “Essa foi por pouco hein, parceiro?” “Com certeza.” Respondo. Sinto-me desapontado pela minha sorte. Percebo, por fim, que não desejava tanto assim morrer. O pensamento me destrói por dentro. Eu estava disposto a morrer afinal, que tipo de sujeito eu era? Estava ali, aceitando a morte como uma amiga enquanto você respiraria por uma vida. No fim das contas, seria melhor que você se esquecesse de mim. E eu de você. 


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