Um carro vem em minha
direção. Por algum segundo, penso em gritar ao motorista. Pedir que tenha
atenção e que desvie do veículo que vem em disparada. Meus lábios, selados, não
me permitem uma palavra sequer. Em outros dias eu teria medo da morte, teria
gritado e fechado os olhos. O que há de errado agora? Os últimos dias têm sido
bem intensos. A perspectiva de não te encontrar no dia seguinte me corrói os
pensamentos. Eu quero gritar para que o carro desvie. Por que não consigo dizer
nada?
Sua voz vem suave na
minha cabeça. Como no dia em que você correu pela rua e eu corri atrás de você.
A gente ria como nunca e me faltava muito ar nos pulmões. Pensei que morreria
aquele dia, mas vivi. Naquele momento, diante da perspectiva da morte, senti-me
intensamente infeliz, estava vivendo um momento mágico do seu lado. Não estava
nem um pouco pronto para morrer. Queria acordar mais uma manhã e te olhar nos
olhos, ver mais uma vez você sorrindo com a boca aberta, ver mais uma vez o seu
olhar de ódio para a minha câmera. Tirar mais uma foto tua sem olhar pra mim.
Penso em gritar ao
motorista. Será que não vê o corsa prata que vem bem na nossa direção? Talvez o
bom homem tenha uma família e filhos que irão perdê-lo na colisão. Ele fala no
celular. Distraído, não percebe que vai bater. Não digo nada. Talvez seja
melhor assim. No fim das contas, você não vai aparecer no dia seguinte. Você
irá acordar e se esquecer de quem eu fui e quando ouvir meu nome novamente,
perguntará “quem?”. Talvez seja
melhor assim.
Talvez minha morte saia
no jornal. Se você souber que estou morto, talvez assim se lembre de mim. Pense
nos beijos que não demos, nas palavras que não dissemos e nas vezes em que
poderíamos ter ficado juntos. Seria a morte então a solução? A solução para
você se lembrar de mim tanto quanto eu me lembro de você? O corsa buzina, mas o
motorista está ocupado demais no celular. Lembro-me imediatamente das
propagandas de televisão. Uma família destruída por um acidente de carro. Eu já
estava destruído muito antes disso.
Quero ter os olhos
abertos, quero ver a morte chegar, junto com a certeza de que você ainda vai se
lembrar de mim. Os faróis se acendem e piscam, mas minha visão continua sem
arder. Estou pronto para o impacto. Qualquer dor que venha ainda é muito mais
sutil e bisonha do que a dor que sinto, a cada dia, da sua falta. O motorista
finalmente percebe que o carro irá colidir. Ele joga o celular para o banco do
carona. Vejo o desespero chegar aos seus olhos. Mantenho a minha calma de
jogador de pôquer. Com paciência, espero a próxima carta se revelar. O
motorista segue frenético.
Numa manobra
impossível, o carro desvia para o sentido oposto. Os pneus cantam no asfalto. O
motorista respira aliviado. “Essa foi por pouco hein, parceiro?” “Com certeza.”
Respondo. Sinto-me desapontado pela minha sorte. Percebo, por fim, que não
desejava tanto assim morrer. O pensamento me destrói por dentro. Eu estava
disposto a morrer afinal, que tipo de sujeito eu era? Estava ali, aceitando a
morte como uma amiga enquanto você respiraria por uma vida. No fim das contas,
seria melhor que você se esquecesse de mim. E eu de você.

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