sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Vermelho treze

Posiciono a arma na minha têmpora direita. O dedo indicador treme no gatilho, incerto do futuro que se aproxima a cada instante. Olho mais uma vez para as fotos sobre a mesa de madeira. Imagens incontestáveis de uma traição certa. A roleta está pronta para ser girada. A banca espera por apostas. Vermelho treze. Talvez o destino trêmulo seja mais agradável do que o passado que agora vislumbro em fotos.

Vejo mais uma vez aqueles momentos que já estão tão gravados na minha mente. O filme passa mais uma vez em um looping eterno. Aqueles beijos desenfreados, repetidos em zoom e alta definição. A luz do dia favorecia o ângulo, um retrato perfeito de uma traição tão imunda.

Se a primeira foto ilustrava um beijo, a segunda, em zoom 4x, retratava um largo sorriso vindo dos lábios daquela loira com olhos marcados com um lápis preto. Aquele sorriso era mesmo encantador. Lembrei-me de todas as brigas que não tivemos, de todos os livros que não queimei e de todas as vezes que não chorei só porque aquele sorriso cura tudo. A terceira foto, uma dúvida lancinante. Uma imagem distante, só para levantar as dúvidas. Não era mesmo eu naquela foto? Eu tinha certeza disso?

Como ela pode ser feliz assim longe de mim? Dizem que eu sou só amorzinho, só corações vermelhos... Se eu sou tanto amor, como dizem, por que ela foi procurar por mais amor? Achei que eu fosse suficiente até perceber que eu não era. Nem para mim mesmo. Sozinho, eu não sou suficiente, mas com ela, eu estava completo. Com ela, eu era tudo o que eu sempre sonhei, todo o amor e toda a alegria. Sem ela, eu não bastava.

Vermelho treze, minha sorte está lançada. Que comece a girar a roleta infernal. Que o clique soe como um aviso de que não tem retorno. O abismo em que me encontro é fundo, escuro como o seu delineador. Não há claridade na morte, não há aquele sorriso aberto e sublime. Não há mais letras rimadas que ela possa me dizer e que desculpem a sua traição.

Volto meus olhos para as imagens. Incontestáveis. Eu não basto. Meu amorzinho não basta. Olho para seu sorriso. Impecável. Eu não perdoo. Olho para o cano da arma na minha têmpora. Eu não tenho mais medo. Tive medo de viver sem ela. Não tenho mais medo da sorte.

Vermelho treze. A roleta gira. Por um tempo, a tensão no ar. A bolinha saltita por entre números, alternados, pares e ímpares, pretos e vermelho. Os saltos ficam menos espaçados e a velocidade diminui. A roda gira, mas a bolinha para.

"Vermelho, treze" a banca anuncia. Minha sorte. Estou morto afinal.
 

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