VI
Taifon
Eles chegarão logo. Faz algumas horas que avistei algumas naves do novo Império Galáctico pousando em comunidades próximas durante o meu turno de vigília. Não avisei a ninguém, eu precisava agir o mais rápido possível. Utapau não é nem de longe um dos melhores lugares pra se esconder atualmente, já que apenas uma pequena parte do planeta é habitável, mas era necessário se livrar dos clones, considerados culpados pela morte de Ikibu. Eles se separaram e seguiram cada um o seu caminho. A confissão de Ferket não poderia ter vindo em melhor hora. Os ensinamentos jedi nos traíram. A ordem jedi nos traiu. Eu passei a minha vida até agora treinando e acumulando conhecimento pra sustentar uma paz que jamais existiu e agora tenho que morrer? É esse o nosso destino? Eu não vou aceitar. Eu sou um assassino e não me arrependo disso. Foi um sacrifício necessário pra conquistar a liberdade.
E agora eu estava diante da única pessoa com quem aceitaria dividir esse destino.
‒ Eu não acredito que você fez isso. ‒ disse ela com os olhos prestes a saltar do rosto.
‒ Eu fiz, Kaleem. Eu a matei. ‒ disse sem remorso ‒ Sem ela nossas possibilidades são maiores. Mas isso não é o importante agora.
‒ Como assim não é o importante agora, Taifon? Está ouvindo o que você está dizendo? ‒ disse ela sem saber como reagir ‒ O que pode ser mais importante que isso?
‒ Venha comigo. Vamos roubar uma nave qualquer dessa comunidade e fugir. Eu, você e mais ninguém.
‒ E fazer o quê? Deixar Jolee pra trás? Não acredito que está me pedindo pra fazer isso.
‒ Sim. Mais cedo algumas naves pousaram em comunidades próximas. Logo estarão aqui. Sabendo que Jolee e os clones ainda estão nesse planeta, eles não virão atrás de nós por enquanto. Isso nos ganha algum tempo. Um tempo precioso. Um tempo que estamos perdendo desde que isso tudo começou e que continuamos perdendo nesse exato momento, Kaleem.
‒ Não foi assim que fomos ensinados a viver. ‒ disse ela ‒ Somos altruístas, não manipuladores ou assassinos. ‒ continuou apreensiva.
‒ Tem toda a razão, não foi dessa maneira que fomos ensinados a viver. Fugindo e vivendo sob o constante medo da morte todos os dias. Os ensinamentos e dogmas jedi fizeram isso conosco. Nos colocaram nessa. ‒ disse com confiança e olhando em seus olhos ‒ Causaram todas essas mortes. Todo o sofrimento. Jogaram a galáxia nas trevas e estão nos levando a uma morte sem propósito. Assim como o seu pai.
‒ Esse não é você. Não é o mesmo cara por quem eu sou apaixonada. Não pode ser, não pode ser mesmo. Pra onde foram os momentos em que você fazia eu me sentir a pessoa mais segura de toda a galáxia? Pra onde foram os momentos em que você conquistava a confiança de todos e nos ajudava a sair de alguma dificuldade? Todos eles confiavam em você, Taifon. Eu também confiava. Olha o que está fazendo com a sua vida. Você é um jedi...
‒ Eu não sou mais um jedi, Kaleem. Você sabe disso. Olhando em meus olhos, sinta. A verdadeira natureza da Força. O poder que ela me oferece é muito maior do que você imagina. É o poder pra nos manter seguros. O lado sombrio é poderoso em mim. Venha comigo.
Ela não respondeu. Não tive coragem de olhar em seu rosto pra saber se estava chorando ou apenas em choque por causa de tudo o que eu acabei de dizer. A resposta já era clara. A partir daqui eu estarei por mim. Estou deixando pra trás não apenas a vida e o que aprendi enquanto jedi, mas a garota que eu amo. A garota com quem sonhei todos as noites da minha vida e por quem alimentei o mais poderoso e influente sentimento proibido. Agora já estava feito. Preciso seguir as minhas próprias convicções. Não sei se estou pronto pra deixa-la, mas também não estava pronto pra matar uma aliada ou me entregar ao lado sombrio. Se eu não conseguir roubar uma, irei negociar o sabre de luz da Ikibu em troca de uma nave, a mais simples possível. No máximo até o amanhecer eu já terei partido deste planeta...
‒ Eu ouvi a conversa de vocês dois... ‒ disse Jolee de maneira séria.
‒ Oh, ouviu é? ‒ eu disse despreocupado.
‒ Você não parece preocupado com isso. Mas eu ouvi tudo. Toda a história. Todo o plano de me deixar aqui. Tudo. ‒ disse ele ainda sério enquanto segurava com força seu sabre de luz.
‒ Hahahahaha. Essa postura... você veio atrás de vingança? Me matar não o tornará melhor que eu. ‒ disse ainda despreocupado.
‒ No momento eu não quero me sentir melhor que você ou que ninguém, eu só quero sentir o meu sabre atravessando o seu corpo...
‒ Sei.
Pulamos um na direção do outro e, faltando menos de dois segundos pra nos encostarmos, ambos acionamos nossos sabres e começamos a disputa. Jolee sabia que em termos de habilidade com sabre de luz ele jamais poderia me derrotar. Estava completamente na defensiva. Ainda assim, eu tenho que admitir que essa é uma atitude um tanto quanto corajosa vindo dele. "Parece que alguém finalmente resolveu sair de cima do muro" disse a ele em tom provocativo. Não me respondeu. Estava concentrado em desviar dos meus golpes. Deu um salto pra trás, mas antes que caísse no chão eu, com um simples gesto, joguei algumas peças enferrujadas próximas em sua direção. Ele teve que se concentrar nelas e não percebeu enquanto eu avançava em sua direção. O que Ikibu diria dele agora? Era tarde demais pra ele... Ou não. Kaleem apareceu e usou seu sabre contra mim, me fazendo recuar e acertar o corpo dele em um ponto não letal. Ele não morreria, mas estava agora caído no chão inconsciente. Eu e ela começamos um duelo de sabres em um ritmo menos violento.
‒ Agora você entende? ‒ disse a ela abrindo um sorriso no rosto.
‒ O quê? Que você é um assassino? Sim, Taifon, eu entendo. ‒ disse ela séria.
O ritmo do duelo estava se intensificando, apesar de eu não ter a intenção de machuca-la.
‒ Não me faça pedir de novo. Venha comigo, Kaleem. Eu lhe farei a mulher mais feliz de todas. Vamos nos esconder em algum planeta, assumir outras identidades. Esquecer toda essa história de guerras clônicas, jedis, siths ou o que for.
‒ Sabe que não posso fazer isso. Na verdade, não quero. Ser uma jedi e perceber a Força da maneira que eu percebo é tudo o que eu tenho, você não entende? Eu fui criada dessa maneira. Tudo o que eu sei, sinto e desejo está diretamente ligado aos caminhos mais honestos e luminosos da Força, Taifon. Isso é algo que nem você pode tirar de mim.
‒ Tudo o que você sente? E quanto ao seu amor por mim?
‒ Isso também, é claro. Mesmo que compartilhar um sentimento assim seja proibido pra uma jedi, eu nunca me importei. Eu nunca me importei porque sinto que o amor com o qual o meu pai me criou e o que sinto por você tem a mesma origem. E eu não temo ou suspeito dela. ‒ disse ela com confiança ‒ Mas agora, Taifon, eu sinto escuridão e medo em você. Medo de me perder. Mas não entende que o caminho que escolheu pra que isso não aconteça é o mesmo que está nos separando. É o mesmo que te transformou em um assassino e em alguém tão sombrio quanto aqueles que construíram esse Império. O lado sombrio é poderoso em você. Você não é mais o Taifon que eu e os outros conhecíamos. E eu sei que nunca mais vai ser.
‒ Uh. Não posso discordar.
A essa altura, o duelo havia parado. Ergui meu sabre mais uma vez e fui em sua direção. Ataquei sem hesitar. Ataquei como estava atacando Jolee ou como atacava os clones e mercenários que nos perseguiam. Mas não. Não era assim. Não era essa a liberdade que eu queria alcançar me desvinculando dos dogmas jedi e do lado luminoso da Força. Não mesmo. E ainda assim, parecia tão certo que posso dizer que meu corpo estava se movimentando sozinho, procurando um erro nos movimentos dela pra acabar de vez com tudo aquilo. Mas eu não podia. Ela era a Kaleem. A garota que eu prometi a mim mesmo que protegeria acima de tudo. Dei um grande salto pra trás, de modo que fiquei quando na beira da plataforma, visando parar todo aquele impulso que havia me dominado. Ela não estava hesitando também, veio correndo em minha direção e não demorou muito até nossos sabres estarem se confrontando mais uma vez. Eu realmente precisava fazer aquilo? Era a única saída? Parecia que sim. E então, sem denunciar minha próxima ação, desliguei o sabre e permiti que ela me acertasse em cheio com o dela.
A lâmina me atravessou por completo. Eu senti calor. Não o calor da luz de seu sabre, mas o calor da morte. O conforto da morte que estava chegando até mim. Eu sei que a maioria diz que a morte é fria e cheia de sofrimento, mas aqui estou eu, sendo morto pela garota que eu amo pra não deixar os meus impulsos e pensamentos a matarem primeiro. É um sacrifício que nenhum jedi precisou fazer na vida e saber disso me preenche tanto quanto o calor da morte. O tempo parece ter parado. Olho em seus olhos, está chorando. Chorando muito. Parece que já estava chorando há algum tempo, eu que não percebi. Sempre estive tão preso em mim que provavelmente não percebi muitas coisas nela. A força da perfuração faz com que meu corpo seja lançado pra fora da plataforma.
Estou caindo lentamente. Sinto a vida se esvaziar como um escravo bebendo um copo d'água em Tatooine e de certo modo até torço pra que isso tudo acabe logo. É um pouco irônico, não? Nesses tempos pós Ordem 66 são poucos os que terão a honra de morrer perto das pessoas que amam. Eu sinto muito, Kaleem, eu precisava me libertar. O lado sombrio é muito mais poderoso e envolvente do que qualquer um de vocês poderia imaginar.
E antes que eu pudesse perceber ou que meu corpo tocasse a superfície, tudo tornou-se trevas.
Eu sou agora, enfim, livre.

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