Tem um homem na minha casa.
Eu sinto sua presença. Pulsante, viva e sombria. Desconhecida.
Saio devagar do quarto. Atravesso o corredor descalça, silenciosamente, passo a passo. Eu o sinto. Parece estar em todos os lugares.
O silêncio mortal me assusta mais do que qualquer coisa. Minha respiração sai irregular, entrecortada. Olhos castanhos arregalados. Passos incertos e cautelosos. O que estou fazendo?
Me arrasto pela parede, sem emitir um som. A superfície é fria sob meu toque. Tomo cuidado com os quadros e molduras de fotografias. No escuro, os olhos me encaram assassinos.
Perto da entrada para a sala de estar, congelo. Ele está aqui, eu sei que está. Meu sangue pulsa em sua presença. Seguro firme o estilete na mão direita. Paro para observar a lâmina. Estou tremendo. Não sei o que estou fazendo.
Respiro fundo e avanço para dentro do ambiente. Levantando o braço com o objeto cortante, olho ao redor procurando meu invasor. A luz de fora me permite enxergar em meio a escuridão, mas não muito. Tudo se tornou escuro e inquieto.
Nada. Não há ninguém aqui.
Ainda o sinto. Sinto sua presença. Não sei de onde, talvez de dentro.
Estou sufocada pelo silêncio. Ele é ainda pior que o escuro. Por que não aparece de uma vez?
Por que me tortura? Como me invadiu?
Como? Como ele pode? Como ele conseguiu? Não pode ser real! Se eu não o sinto me tocar, se eu não o vejo como pode me causar tanto mal? Como é possível que doa tanto?
Tão forte e tão presente como se estivesse aqui me atacando. Agora eu entendo. Uma memória. A memória... Rasgando violentamente meus pensamentos, destruindo meu autocontrole.
Vou ao chão e a lâmina escorrega para longe. Estou totalmente indefesa contra mim mesma. Minha respiração finalmente falha por completo. Tento pedir ajuda, tento gritar. Mas não há ninguém para me socorrer. Sozinha no escuro abraço meus joelhos contra meu peito numa tentativa insignificante de trazer algum conforto.
A voz do homem que um dia invadiu minha casa sussurra novamente na minha mente. Tapo meus ouvidos, mas de nada adianta. Suas ameaças já estão ressoando dentro de mim como se escorregassem pelos meus dedos.
Todas as lembranças voltam à noite. Não há uma noite sequer que possa me deitar em paz sem que eu seja perturbada por esse fantasma. Qualquer sombra ou escuridão me amedrontam.
A paranóia me corrompe cada vez mais. Só a mais remota possibilidade de ser agredida novamente me deixa sem ação. Meu conforto foi invadido e violentado.
Nunca me imaginei me tornando uma escrava do medo. Mas ainda não é tarde demais. Não pode. Eu vou vencer esta sombra que se alastra pelos cantos escuros da minha casa. Vou descobrir uma forma. Mas neste momento, a única coisa que eu conheço é a paranóia que bate a minha porta ao anoitecer.



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