Desde o primeiro ano que entrou no colégio, Haroldo Marinho não conseguiu criar vínculos por conta da discrepância socioeconômica. Ele era o abastado da turma e era intitulado de 'riquinho'. Contudo, devido a algumas complicações judiciais, a próspera empresa de seu pai se viu na falência no mesmo ano e, por esta razão, o título se manteve simbolicamente desprezível na escola que teve que entrar, onde se chamava 'pobrezinho'. O dinheiro ficou curto e toda a família Marinho sentiu sua falta.
"Antes de a empresa falir, nós morávamos no mais luxuoso condomínio fechado da megalópole, comíamos muito bem e eu e minha irmã caçula podíamos quando bem quiséssemos ir ao zoológico, já que os animais eram o nosso fascínio e o dinheiro não faltava. Na verdade, em todos os Natais até então meus pais sempre me presenteavam com um bicho de estimação: um javali, um cobra, um porquinho-da-índia, um labrador, dois coelhos e até um cavalo. Mas é evidente que ninguém cuidava dessa bicharada toda e alguns acabaram morrendo por fome, outros por atropelamento, muitos por tédio. Foi por isto que meus pais decidiram desde então não comprar mais animais no Natal. Então foi naquele mês de dezembro que recebi um tabuleiro de xadrez alemão com peças feitas à mão, porém, eu não sabia jogar xadrez então se tornou uma boa forma de colecionar aranhas, tornando-se minhas melhores amigas em 2006, até que uma de nossas empregadas acidentalmente jogar toda a colônia no lixo.
Foi em dezembro de 2007 que ocorreu um episódio peculiar. Eu já estava deitado na minha cama triste já cedendo meus braços à Morfeu, quando ouvi um repentino estrondo soar pela casa, rompendo meu sono pela curiosidade ardente. E pelo visto, só eu havia acordado por conta do barulho. Suspeitava ser o Papai Noel. Logo, não queria que soubesse que estava acordado, e na ponta dos pés andei ansioso pelo corredor. Na sala, o copo de leite já estava vazio e apenas restavam as migalhas dos biscoitos. Foi quando ouvi o ranger da porta da geladeira e latas e potes se abrirem. Na porta da cozinha, espiei o ladrão de geladeiras: um grande tigre de bengala vasculhava o interior do eletrodoméstico com grande fome! Quando terminou o assalto, olhou estritamente nos meus olhos, como se o lanchinho de madrugada não tivesse acabado. Eu disse..."
‒ Está com fome?
O tigre rugiu um "sim". Rapidamente fui ao armazém pegar o saco de farinha de tapioca pronta para preparar uma tapioca de carne seca e queijo para o felino faminto.
Enquanto Haroldo cozinhava o prato, o tigre foi passear pela casa, deixando acidentalmente cair algumas estatuetas e quadros. Ao chegar ao quarto do garoto, cuja porta ainda estava semi-aberta, o tigre ficou um tempo admirando as estantes de livros sobre animais e os quadrinhos infantis. Ficou intrigado em especial com um dos livretos. Na procura pelo tigre, Haroldo percebe que ele carregava um almanaque de tirinhas do Calvin e Harold e, dos nomes dos personagens, Haroldo passou a chamar ironicamente o tigre de Calvin, e disse:
‒ São três da manhã, então daqui a algumas horas meus pais devem acordar e eles não podem de jeito nenhum ver você.
Silenciosamente Haroldo guiou Calvin para seu quarto em segurança sem que ninguém acordasse e acomodou o tigre debaixo de sua cama para que ninguém o visse. Mas Calvin não pôde aguentar o calor de 40 graus que fazia e teve que dormir na geladeira, o que não seria muito difícil, já que ele já a esvaziou por completo. Durante estes cinco dias em casa, Haroldo se divertiu como nunca antes. Eles jogaram xadrez, pingue-pongue, e até mesmo Counter Strike de madrugada. De dia, Calvin ficava dormindo na geladeira comendo pão de queijo, pipoca, biscoito globo e muito açaí com banana – comidas que ele sempre quis comer no zoológico, mas os tratadores nunca o deixavam comer senão picolé de sangue, o que já enjoou o tigre há alguns anos.
"Foi então que na noite de Natal eu decidi tirar meu amigo da geladeira. E qual melhor momento senão a ceia de Natal, certo? Além do mais, a família inteira se reunia na mesa de jantar."
‒ Papai, mamãe, vovô, vovó, titio, titia, irmãzinha, eu gostaria de apresentar a vocês meu amigo.
"Animados com a notícia, a família perguntou coletivamente sobre o colega novo."
‒ O nome dele é Calvin e ele é um tigre!
"E enquanto proferia estas palavras, eu segurava o tigre de pelúcia gelado e chacoalhava-o com as minhas mãos, correndo ao redor da mesa gargalhando e pulando. Depois de um tempo pasmos com o membro novo, meus pais arrumaram uma cadeira para Calvin se sentar conosco. É por conta da minha lucidez, dos Natais que ainda me lembro, este deve ter sido o mais marcante para mim. No dia seguinte, a família Marinho foi para o zoológico e eu acabei visitando vários dos meus antigos amigos, em especial, o tigre de bengala."

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