Como deixar uma pequena jovem feliz? Bichinhos de pelúcia é a resposta! Bom, pelo menos é assim com a pequena Luna que já possui uma coleção de dar inveja a qualquer um. Elmo, além de seu primeiro bichinho, foi também seu primeiro amigo. Primeiro e único, na verdade. Ela não interage muito com pessoas. Não por não gostar delas, mas por, simplesmente, não vê-las. Também não é muito fã de falar. Apenas com seu pai, Thiago. Ela é a sua princesinha.
"Oi, Princesa." - diz Thiago, batendo na porta semiaberta do quarto de paredes rosas com figuras de animais nas paredes. Sem resposta. Luna está sentada em sua cama, abraçada com Elmo. Thiago se aproxima e se agacha próximo a cama. "Está na hora de comer, Luna." - Ainda sem resposta. "Você precisa comer, meu bem. Vamos, traga o Elmo junto." - Ele segura a mão da menina de olhos claros, que se deixa levar até a cozinha.
"Filhota! Com fome?" - Amanda, a mãe da menina, convida-a para sentar à mesa. Sem questionar a menina se senta, como faz todos os dias. Mas não seria um dia normal. Seria um dia de exames. Luna foi diagnosticada com um tipo de imunodeficiência celular que quase comprometia sua interação social, não que ela se importasse. É uma doença hereditária, que se manifestou nela com muito mais intensidade que em seu pai. De tempos em tempos, deve-se fazer uma bateria de exames para acompanhar a progressão da doença. E este dia chegou.
"Hoje é dia de nós irmos ao médico, Luna." - Thiago solta, um pouco receoso por não saber qual seria a reação da menina. "Não. Luna não quer ir." - responde de uma forma serena, como se a decisão fosse dela. Também se referia a si mesma na terceira pessoa. Outro sintoma. "Não é questão de querer, Luna. Nós precisamos ir."
A reação é instantânea. Ela solta a colher do cereal se se levanta do banco da moderna cozinha americana e anda, ainda de uma forma calma e pacífica, até a sala de estar. Os pais se encaram sem saber o que fazer. Thiago segue a garota até a sala de estar. Ela está sentada no sofá, exatamente como estava em sua cama. Amanda sabe que é hora de pegar o carro. Em breve sairão.
É dada a partida na minivan prata. Amanda a deixa de frente ao portão da garagem, pronta para sair. Estava ficando preocupada com a demora. Quase dez minutos haviam de passado e nada dos dois aparecerem. Mas enquanto pensava nisso, a porta de entrada se abriu. "Diga a sua mãe o que faremos quando acabarmos, Luna. Ela vai adorar!" "Vamos na sorveteria, mamãe." - Essas palavras e um olhar são o suficiente para tranquilizar a mãe.
O hospital ficava longe. Cerca de três horas de carro, se o trânsito ajudar. A minivan é espaçosa e confortável com seus sete lugares. Há espaço de sobra para uma menina brincar com seu bichinho de pelúcia. Estrada adentro, parecia haver algo de errado. Estava quieto demais. Não havia reação da menina ou do ambiente. Apenas o som do vento e dos carros que ultrapassavam e eram ultrapassados na imensa rodovia. Luna estava dormindo no banco de trás.
A chegada ao hospital é tranquila. Estacionam o carro e fazem check-in na recepção. Na sala de espera, Luna observa fixamente para uma mulher, que usava óculos escuros. Ela estava acompanhada por um labrador de pelos dourados. Thiago nota a reação da menina. Quando está prestes a dizer algo, o médico os chama para começar os exames. Máquinas, psicólogos e muitas, muitas agulhas. Horas da mesmice se passam. Muitos perguntam se tudo está bem com a menina. Poucos ganham algum tipo de resposta, que em sua maioria eram apenas acenos com a cabeça.
Luna termina sua bateria de exames antes de seu pai e vê a jovem novamente, dessa vez indo embora do hospital. Ela parece hipnotizada, mas o transe é desfeito quando seu pai aparece. "Pronta pra tomar sorvete, amorzinho?" - o pai diz enquanto a pega no colo. Um sorriso se abre no rosto da menina. Ela acena positivamente. "Então vamos pra casa."
A volta foi o mesmo esquema da ida. Estrada calma, Luna dormindo. Amanda a observa. "Thiago, ela parece meio pálida para mim." "Hum… É melhor acordá-la e checar se está tudo bem." - A mãe segue a sugestão e cutuca a menina. Nenhuma reação. Ela tenta novamente. Luna continua sem esboçar reação. "Thiago, ela está gelada e não responde!" - Amanda começa a entrar em desespero. Thiago para no acostamento e tenta acordar a menina. Nada. Uma viatura policial passa pela rodovia, observa o carro no acostamento e para para ver o que há. "Ela não está acordando, policial! Você tem que nos ajudar! Ela não está acordando!"
Pela janela, o policial observa a menina enquanto a mãe aflita conta o que aconteceu. Quando ele está prestes a ver o que pode ser feito, Luna reage. Uma tossida. Ela está pálida e com dificuldades de respirar. Não há nada que o policial possa fazer, além de chamar uma ambulância. A menina deve ser levada de volta ao hospital, e assim acontece. Seu sistema imunológico ficou extremamente sobrecarregado com os exames. Semanas internada, respirando com a ajuda de aparelhos. Seus pais estavam preocupados. Sabiam que poderiam perder a filha. Luna começa a apresentar melhoras no começo de dezembro. Seus pais praticamente moravam no hospital. Os aparelhos que a ajudavam a respirar já não eram precisos. Os médicos acham que a melhora foi significativa e a alta é concedida no dia 23 de dezembro.
Apenas Amanda a leva para casa. No trajeto de carro, ocorre um desvio. "Onde vamos, mamãe?" - pergunta Luna, sem entender o porquê de não ir direto para casa. "seu pai te prometeu um sorvete, não foi? Nos encontraremos lá!" - e com um sorriso, Luna abraça Elmo. Já sentia saudades dele, já que ficaram todo o tempo da internação afastados. Chegando na sorveteria, uma surpresa...
Como deixa uma pequena jovem, que adora animais de pelúcia, muito feliz? Um animal de verdade é a resposta! Luna vê seu pai correndo em sua direção, segurando uma coleira que atada a um filhote. Um cãozinho. Em véspera da véspera de Natal. Não havia momento mais propício.


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