O galo de manhã acordou-me aos gritos. Aquele era "o dia". Nenhum atraso no relógio ou virose banal seriam empecilhos aceitáveis. Só me restava uma opção: ir à festa do Barbosa.
Martins Barbosa era homem orgulhoso. Coragem não lhe faltava, até porque comandar milícias sempre foi uma tarefa árdua e perigosa. Portanto, não iria ser eu o mal educado para fazer tamanha desfeita com um convite pessoal do meu vizinho.
Minha reputação no bairro, acredito que desde 1850, nunca foi algo para ser levado em consideração. Na última comemoração de ano novo, eu havia me estressado com aquela gentinha da rua 77. Os delinquentes estavam vomitando todo meu jardim. Sorte deles que meu queridíssimo amigo Barbosa era quem cediava a tal farra. E, além do mais, eu precisava deixar de lado as mágoas. Afinal, os baderneiros estariam na festa.
Minha carruagem estava quebrada, no entanto, o lote 158 não ficava muito longe de casa. Andando devagar, por conta do suor, eu chegaria a tempo e quando menos esperasse, eu estaria em casa na minha confortável e única amiga cama. Então, em pouco menos de 15 minutos eu cheguei ao local.
Martins Barbosa estava em pé na porta de entrada. Ele tinha um olhar fixo, o qual me repreendia por ter vindo a pé. A imagem era tudo para os chiques. Entrando no lote, cochichos começaram a correr pelos lábios molhados. Não me preocupei, pois me achava insignificante demais para ser assunto de gente badalada. Logo procurei um lugar para me acomodar, apesar do que eu senti que não deveria tirar o chapéu nem o paletó, já que o formoso Barbosa continuava na sua elegância extrema.
Acabei sentando no fundo da sala. Assim pude fitar os outros curtindo o momento. Não é possível mensurar o tamanho do prazer que eu sentia em julgar aquelas pobres almas condenadas a uma vida de luxúria e excessos. Seres humanos medíocres aptos apenas a viver condicionados em ideologias errôneas e...
‒ Te incomodas em vir tomar um ar fresco?, disse Barbosa interrompendo meus pensamentos.
Não pensei duas vezes. Levantei-me e desamarrotei minhas roupas. Segui meu grande amigo até o fundo do terreno. Tive o cuidado de andar cautelosamente para não esbarrar em nenhuma daquelas criaturas ébrias. E após inúmeras passadas sufocantes no meio da multidão, conseguimos chegar no quintal.
Nos apoiamos sobre a mureta da varanda. Fiquei deveras transtornado pelo extravio do tal "ar fresco", já que o forte aroma do Cognac era o único bálsamo que estava sendo exalado. Alguns segundos se passaram e nada do Barbosa abrir a boca. Ele guardava uma mão em seu bolso, e a outra – suada e tremida – estrangulava o pobre pinho do encosto. Aqueles instantes de silêncio estavam me corroendo. Até que, em um piscar de olhos, o miliciano sacou sua Colt e a apontou para mim. Minhas pernas começaram a tremer. Eu não entendia o porquê da minha morte. E quando finalmente tinha me conformado, Martins Barbosa girou seu pulso e entregou-me a arma dizendo em voz alta:
‒ Passaste no teste! Parabéns, número 14!
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