quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O Aviãozinho

“Senhor, estamos há uma altitude de dois mil pés, agora.” Disse o imediato com muita serenidade para o piloto da aeronave. Sob uma temperatura de trinta graus Celsius, ou oitenta e seis Fahrenheits, as condições de voo eram perfeitas. Sem muitas turbulências, a tripulação trafegava por uma floresta tropical de brócolis, com alguma quantidade de espinafre camuflado por debaixo de algumas árvores.
“Faça contato com o porto de Pedrinho Magalhães. O pouso da aeronave está programado para às 12.00. Certifique-se de que teremos uma aterrizagem tranquila.” Comandou o piloto com sua paciência magistral. A aeronave carregava um estoque precioso de arroz feijão e bife, este último, com textura macia e partido cuidadosamente em pedaços minúsculos.
O avião agora encontrava uma declinação muito íngreme que demandava um movimento brusco. O piloto virou o nariz do aeroplano para cima, e o som do vento cortante se fazia muito alto na cabine de pilotagem. A declinação tinha textura duvidosa e se assemelhava a um tecido comumente usado para revestir a pele de alguns animais mamíferos e racionais. O interior, talvez constituído de quantidades significativas de cálcio, causava um efeito de resistência forte. Se o movimento não fosse realizado com perfeição, a queda poderia causar muitos feridos.
Realizando então um movimento perfeito, o piloto, orgulhoso, se permitiu uma olhadela pelo vidro da aeronave. Lá embaixo, numerosas florestas de vegetais, casas de omelete, prédios de melancia e pequenos cidadãos de milho que levavam suas vidas da forma mais honesta que um milho pode levar.
“Devemos estar chegando logo, copiloto. Faça contato com os superiores. Precisamos da permissão para descarregarmos a aeronave.” Disse o piloto, com seus óculos escuros e seu uniforme impecável. Sempre tinha medo das aterrizagens. Muitos de seus amigos tinham sofrido terríveis acidentes no Aeroporto Pedrinho Magalhães. Tomou de seu bolso uma foto e mirou uma vez sua esposa e filha, que chuchuzinhos elas eram. Enfim, a confiança de que precisava. Não iria morrer hoje. Tinha uma família para voltar.
O rádio então soa gentilmente:
“Pedrinho, olha o aviãozinho! Abra esse bocão.” Dizia a mãe pelo rádio. Felizmente, Pedrinho abriu o bocão sem problemas desta vez.
“O pouso foi autorizado, chefe. Pedrinho deve estar com um bom humor hoje.” Disse o copiloto, aliviado de que voltaria para casa.
Após entrarem no sempre úmido aeroporto Pedrinho Magalhães, a aeronave descarregou a carga alimentícia e saiu em um instante. Voltando para o depósito, para buscar a próxima leva de carregamento, ouviu-se dizer no rádio, era a Mãe:
“Só mais uma colherada Pedrinho.”

Mas ele foi irredutível, missão cancelada. A aeronave pôde repousar em paz. “Cambio, desligo.”


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