quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

As fortunas da rainha sob o sol


‒ Amiga!!!

‒ Cleo! Quanto tempo, não? Parece que a última vez que te vi foi antes de Cristo.

‒ Querida, ainda estamos antes de Cristo, apesar de eu não saber o que isso significa.

‒ Claro. Mas me diz, minha soberana do deserto favorita, quais são as novidades?

‒ Ah! Nem te conto.... Nah! Conto sim. Eu ganhei na roda da fortuna!!!

‒ Oh! Aquela dos romanos que dá prêmios de até  1 milhão de denarii em barras de ouro que valem mais que moedas?

‒ Essa mesmo amiga!

‒ Uau!!! Nossa, tudo que você pode fazer com isso. Já era rainha antes, agora é magnata, mas... pera... só romanos podem participar.

‒ Aham! E quem você acha que é meu novo namorado?

‒ Não creio! Você anda enrolando seus tapetes para o Marco Antônio? Tô passada nas areias do deserto, amiga. Mas e o César?

‒ Julinho? Esse já até morreu. Fiquei sabendo que aconteceu alguma brutalidade lá pelo senado. E mesmo sem ele, até o Ptolomeu III, ou IV, odeio esses números... mas enfim, mesmo ele sendo um amor de pessoa e quase como um irmão, morar numa quitinete no topo do Morro do Janículo não é digno de uma rainha do Egito.

‒ Tem toda razão, menina, você vale mais. Mas será que o Marquinhos é bom o suficiente pra te levar pro altar?

‒ Tolinha, meus dias de casamento já passaram. Agora eu quero só viver minha vida, construir umas esfinges com o dinheiro que ganhei, até porque, temos que comemorar esse ano novo com estilo. Ah! E me aproveitar do "bônus de prazer romano".

‒ Bônus? E no que consiste esse bônus? Viagem pra Paris.

‒ Claro que não. Já viu aquela grega, a Helena? Pegou o Páris e veja no que deu, uma desgraça. Tô afim de cavalo de pau na minha casa não. Com romanos é orgia todo final de semana, uma para cada deus, e vou te contar, o panteão deles é imenso... assim como... hum.

‒ Ai, luxúria. Ainda bem que não inventaram o pecado no Egito até agora. E vou te contar, pelo que fiquei sabendo, chamam os gregos de bárbaros, mas parece que esses romanos é que fazem um estrago nas tapeçarias.

‒ Hum. Você ainda não viu nada.

‒ Hihihi, um dia eu vejo, amiga. Ainda assim, e o resto dos denarii, não vai fazer esfinge todo fim de ano, né?

‒ Claro que não. O resto das riquezas eu vou gastar pra arranjar uma naja egípcia.

‒ Pra que tanto dinheiro? Vai no mercadinho que você acha um monte, amiga. Eu mesma saí no tapa com uma ontem.

‒ Não, querida, essa não, quero a peçonhenta.... quero dizer, a venenosa.... não, a que tem escamas e não tem pernas, você sabe. É que como nosso mestre das criações, divino Ptah, ainda não inventou o silicone, temos de apelar para outros métodos, entende? Ouvi dizer que uma picada em cada e eles crescem como o Nilo na época de cheia.

‒ E não é perigoso.

‒ Perigoso foi lidar com dez pragas e ainda ver o mar abrir no meio. Isso aqui é investimento.

‒ Então não esquece de me emprestar essa cobra mais tarde, amiga, vai ter uma festa com uns caras que vivem dizendo que só sabem que nada sabem, quero ver se ensino umas coisinhas para eles.

‒ Vai na fé, minha diva. Que grande Ísis ilumine seus caminhos do poder.

‒ Ela vai, pode deixar. Só não sei como o Oráculo não me alertou desse seu sucesso todo, acho que esse lance de profecia é tudo mentira, deveria ir ver aqueles astrólogos, com doze casas não dá pra falhar.

‒ Que nada, miga. Menina de Delfos ou velho que gastou a vida inteira olhando pro céu poderiam prever a chegada de meu brilho majestoso. Está falando com Cleópatra, a Rainha do Papiro Verde, esqueceu?

‒ Nunca esqueceria, rainha. Pena que agora eu tenho de ir. O trânsito de trirremes vai ficar intenso mais tarde e eu ainda quero deixar minhas oferendas pra Sobek e pular as ondinhas antes que algum pirata trácio apareça. Sabe como é, cada ano fica mais perigoso cruzar o mediterrâneo.

‒ É complicado mesmo, mas vamos marcar um dia desses. Eu estava pensando em viajar para a Pérsia, vem comigo.

‒ Adoraria. Deixemos essa viajem de promessa para 29 a.C.?

‒ Claro, querida. Mas agora vai, antes que a Avenida Baixo Egito encha e você fique presa com aquelas serpentes da areia.

‒ Hahaha! Com certeza. Tchau tchau, foi um prazer revê-la, Cleo, tudo de bom. E não esquece de me passar um contato pra comprar esse tratamento com cobras aí, hein?

‒ Pode deixar, miga, por você tudo. Tchau e fique com Rá.

Esses são os últimos registros da grande Rainha do Egito, Cleópatra, antes que cometesse o que hoje é tomado como suicídio quando deixou-se picar por uma naja venenosa em aproximadamente 30 a.C.
 

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