Eram 23h25, do dia 24 de Dezembro, e Gabriel estava sozinho, em um 607, indo pra casa, depois de brigar e terminar com a única garota que ele realmente amou. O ônibus estava vazio, até que uma garota, de cabelos azuis, entrou. Ela estava com fones de ouvido e também não parecia muito feliz.
Gabriel estava sentado no final do corredor (naquela poltrona do meio), ele observou a garota até que ela parasse ao lado de um dos bancos. Mas ela não sentou. Ao invés disso, olhou para Gabriel, depois para uma das janelas do fundão e depois para ele, novamente. Ele desviou o olhar e ela baixou a cabeça, enquanto andava para o asseto desejado.
Marina não estava nada feliz em ter que ir pra casa da avó, depois de um dia inteiro de trabalho. Engraçado como as pessoas gostam de comprar artigos de decoração na véspera do Natal... Ela encostou a cabeça no vidro e ficou olhando a cidade passar pela janela. Ela sempre gostara de fazer isso. Ela estava com o fone, mas música nenhuma tocava. Então ela apertou o botão do fone e a voz do Jake Bugg virou parte de sua trilha sonora daquele Natal. Enquanto cantarolava baixinho, ficou mexendo no pingente de elefante que ela havia ganhado da irmã mais velha, anos antes.
‒ Marina, ‒ a irmã dissera. ‒ você tem que comer os bolinhos da vida. Mesmo que eles sejam uma imitação barata e sem recheio daqueles da Bauducco. Mesmo que eles estejam amassados. Tudo bem?
Ela havia concordado com a cabeça, ao pegar o cordão. Mas, sinceramente, não havia entendido nada. Mas, agora... Bem, agora nada havia mudado.
Gabriel reparou quando ela pegou o pingente. Era um elefante indiano com pedrinhas na cabeça e na tromba. O fez lembrar de quando ele assistiu Dumbo pela primeira vez. Foi com ela. A namorada. Quer dizer, ex.
Ele olhou pra Marina ao mesmo tempo que ela se virou para ele. Os dois desviaram o olhar e, de repente, o ônibus fez uma curva fechada, que os dois poderiam jurar não existir antes. Ele tombou um pouco pro lado dela. Mas se ajeitou rapidamente e checou o relógio, sem saber o por quê. Ninguém o esperava em lugar nenhum.
23h50.
Já? Já. Foi assim que a vida passou, até que ela encontrasse um rumo, novamente. Marina só tinha 17 quando a irmã morreu. Depois do acidente, ela havia virado uma estátua. Um robô, que só se movia quando necessário.
Lá fora, nas casas e apartamentos do Grajaú, crianças rasgavam papéis de presente, namorados trocavam perfumes e, por vinte minutos ou mais, tudo parecia estar bem. Mas, então, o telefone de alguém toca no meio da ceia, e todos olham, reprovando. Outro revira os olhos e bufa, enquanto uma mãe repreende um filho por falar de boca cheia. A família perfeita ficou só na foto.

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