quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Fuligem cintilante

 
Chile, San José, 23 de Dezembro.
 Pelo menos eu acho que é.


Por onde começar?

Não sei pra falar a verdade, aconteceram muitas coisas desde a última vez.

Bem, provavelmente algum espírito natalino bateu em mim e agora eu estou escrevendo isso.


Tenho saudades de Leopoldina.


Saudades dos meus amigos.
Saudades da minha família.
Saudades dos meus vizinhos.
Saudades do Marcos.

Tenho muitas saudades.

As vezes penso em voltar pra lá, curtir um pouco e passar um tempo com o pessoal. Dar umas gargalhadas e beber no Xoppin's Bar - nós amávamos aquele lugar - até o sol raiar por entre os montes que cercavam a pequena cidade.

Infelizmente o trabalho ta difícil.

Sabe como é né, a carvoaria não para nem por um minuto. A cúpula precisa dos seus serviços entregues na hora certinha sempre e os caras fazem pressão pra trabalhar direitinho, não que eu faça corpo mole, mas bem que eles podiam aliviar um pouco pra gente.

Mas nada que eu não faça pra acabar com isso de uma vez e logo rever os meus.

Eles sempre cuidaram de mim, alguns mais diretamente que outros, mas de uma forma ou de outra eles são o que eu quero proteger e ajudar.

Acho que é por isso que estou escrevendo isso afinal de contas;

Conforto.

Lembro quando eu era criança, devia ter uns sete anos. Havia pedido a todas as divindades conhecidas por uma bicicletinha, uma magrela pra chamar de minha.

Então meu tio Luan entrou na sala onde a família reunida sempre comemorava um natal regado a todo o tipo de iguarias e comidas tradicionais extremamente apetitosas, vestido de Papai Noel e com um óculos escuro, talvez, apenas talvez, achando que enganava alguém.

Como ouvir o barulho ensurdecedor de uma bala sendo deflagrada por uma pistola daquelas de faroeste a alguns metros de você, foi o sentimento que me abateu. Desacreditado e completamente decepcionado com todas as histórias já contadas por um núcleo familiar mentiroso, uma mídia golpista e todas as outras influências natalinas corruptas, eu me senti traído.

Mas o pior ainda estava a vir.

De dentro do seu saco de presentes costurado e remendado, o farsante que urrava sons que antes fariam perfeito sentido na cabeça de qualquer criança, retirou um pedaço de cabo de vassoura com uma cabeça de cavalo feita de plástico acoplada na ponta.

Olhou de um lado pro outro procurando algo - alguém na verdade- enquanto eu rezava pra que a figura criminosa entrega-se aquela abominação infantil pra algum primo de terceiro grau que conheceria melhor no futuro.

Mas ele veio até mim.

E como um legítimo grego, entregou seu cavalo.

Seu presente.

E junto do pacote vieram 3 anos seguidos de rebeldia natalina e compactuações contra a horrenda data.

Eu sei que você lembra disso.

Bons tempos né?

Mais ou menos.

Qual é?
Você sabe que escrever bobagens e lembranças sempre me deixou mais animado.

Confesso que tenho andado cabisbaixo esses dias.

A água e a comida aqui em baixo estão começando a ficar escassos e o cheiro de óleo que antes era insuportável agora é somo a relva da madrugada.

- Acho que minhas narinas nunca mais serão as mesmas. -

Hugo disse umas frases fenomenais esses dias, não lembro bem então vou adaptar pra você conforme minhas lembranças. Era algo do tipo: "- Sabem amigos, o carvão é feito da mesma coisa que o diamante. Eles têm a mesma essência. Sempre que eu tirava um carvãozinho, do menor que fosse, sempre lembrava disso. Tinha um diamante em mãos. E pra mim esse diamante era a comida no prato da minha família todo dia, poder ajudar eles sempre. Por isso que eu gostava de trabalhar aqui. "

Acho que isso se reflete em mim também sabe, meu "diamante".

Posso fazer uma coleção deles, meu império.

Meus diamantes seriam minha família, mesmo às vezes não gostando deles ou odiando alguns - essa foi pra você tio Luan - eles ainda são minha família e eu sei que se erraram o fizeram com boas intenções.

Meus diamantes seriam meus amigos, que sempre me apoiaram e me ajudaram quando a cerveja e a pinga já tinham subido a cabeça, me fazendo dançar esquizofrenicamente e balbuciar como babuínos em bando.

Vocês são show.

Meus diamantes são o pessoal da mina, que mesmo depois do acidente que nos confinou nesse inferno, continuaram unidos e se mantiveram fortes uns pelos outros. Verdadeiros companheiros e amigos que vou levar pro resto da vida que eu tiver.

Meu último diamante, pra finalmente parar de soar clichê, é o amor da minha vida.
Sei que nos afastamos um pouco, da última vez que liguei briguei feio com ele. Provavelmente esse vai ser o último e maior erro da minha vida.
Mas não quero que ele se culpe de nada, acima de tudo ele sempre foi meu melhor amigo.

Por favor, não o deixe chorar.
Ele merece mais do que isso.

Essa é parte em que eu faço um pedido né?
Pois é.

Sei que não fui um bom menino esse ano, mas acho que já ganhei todo o carvão que eu merecia. Só queria pedir pra que o senhor, se estiver mesmo aí, pra que cuide dos meus diamantes.
Eles são preciosos de mais pra ficarem largados por aí.
Raros de mais pra não serem apreciados.
Belos de mais pra serem guardados.
Especiais de mais pra serem só meus.

Enfim, boa viagem de trenó, dá um tapinha no Rudolf e vê se não se perde.

Com conforto, Alexandre.
 

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