sábado, 26 de dezembro de 2015

Meu irmão mais velho é um animal perdido

 
Ele chegou em minha casa em uma manhã nublada, com olhar assustado e jeito de animal perdido. Como uma nova família, o acolhemos e demos de comer. E como todo animal assustado, ele chorava à noite pela família que deixou para trás. E eu me deitava perto dele e cuidava de suas feridas – aquelas dentro do peito e que sangravam sem serem vistas.

Quando o início da guerra foi anunciado, após a invasão da Polônia, as crianças de minha vizinhança saíram comemorando pelas ruas, gritando aos quatro ventos que "A Guerra começou!". Quando aquele animal polaco chegou, parecia que havia errado o caminho para casa; e eu percebi que não havia motivos para festejar. O homem que o acompanhava, pelo o contrário, dizia que ele era muito sortudo! Que suas características nórdicas representavam muito bem nossa "raça ariana", por isso foi resgatado e enviado para que ficasse aos cuidados de minha "família alemã exemplar". Papai e mamãe pareciam contentes, não haviam tido animais como ele, apenas eu, uma menina. Mas onde estavam os pais dele? Por que não haviam tido as mesmas chances de serem "salvos"?

Em dois meses, o animal assustado começou a tomar a forma de um irmão mais velho. Nesse fim de ano, ele prometeu que passaria a cuidar de mim, e não o contrário. Questionei o porquê – o meu povo não havia sido nada empático com o dele. Ele disse que precisava me proteger e cuidar para que eu continuasse a ser desse mesmo jeito "doce e bondoso". Confessou que tudo o que desejava para o ano novo era que todos fossem tão bons quanto eu fui para ele; que a guerra chegasse ao fim e as perseguições contra outros povos acabassem.

No entanto, esse desejo parece difícil demais de se tornar realidade e tudo parece caminhar para um futuro ainda mais cruel. 

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