Vinte e cinco de Dezembro... Este dia já significou alguma coisa pra muita gente. O mês do Natal, já foi a época mais pacífica do ano. Trazia o que havia de melhor nas pessoas à tona, era capaz até de paralisar guerras. Mesmo para um dito feriado cristão, ele tinha ótimos princípios, e digo "dito" porque sua origem não é a mais pura como dizem e há muito de cultura pagã nele, isso eu sei muito bem. Aquele tal espírito de natal, era algo belíssimo décadas atrás. Eu era algo em que se valia à pena acreditar. Mesmo que por apenas um curto período de tempo no ano, isso ajudava a trazer esperança de ver dias melhores para algumas pessoas. Mas estes dias do tal espírito de natal... Os meus dias estão contados.
O que sobrou de mim? Eu, a personificação de tudo que esta data representava! Devo dizer que não sobrou muito. Os longos cabelos e barba branca, as bochechas coradas e a túnica e gorro originalmente verdes que decoravam o bom e "encorpado" velhinho mal podem ser reconhecidos agora. O que restou é apenas um idoso obeso sem teto, pálido e adoentado vestindo trapos rasgados, cujos a coloração já havia sumido a muito tempo, permitindo a visibilidade apenas da sujeira. Vindo da glória para a miséria.
Demorou algum tempo para que eu constituísse uma forma física. Assim foi também com outros avatares vindos de crenças e tradições da humanidade. Se há algo de misterioso no mundo, é a nossa existência. Quando nos damos conta, surgimos do nada e inesperadamente passamos a carregar sentimentos de diversas origens e locais, sejam fé, medo, esperança, solidariedade, apreensão ou qualquer coisa mais. Nenhum de nós sabe como nós ganhamos vida de forma prática. Alguns acreditam que é devido à religiosidade envolvida, seja pagã ou não, outros acreditam que o simples fato de alguém acreditar em alguma ideia que possua uma identidade visual é o suficiente para que sejamos criados, acho que nossa existência tem a ver com o poder das palavras que as pessoas compartilham e sendo verdadeiras ou falsas, elas são capazes de fazer muito. Eu não costumo pensar muito nisso, nunca chegamos a lugar algum, mas eu sei que talvez eu tenha sido a crença mais beneficiada, e quem sabe a mais importante entre todas elas. Mesmo que por tempo limitado.
Nossa função era, e para alguns ainda é, simplesmente passar adiante o sentimento com o qual fomos originados. Sendo que para nos personificarmos e interagirmos diretamente com as pessoas e objetos ao nosso redor era possível ou mais eficiente quando estávamos próximos do local ou da época a que representávamos. E eu me considerava extremamente honrado em passar adiante sentimentos de solidariedade e compaixão, mas acho que eu era só mais um que caia na conversa do natal. E muito provavelmente a maior vítima de tudo isso, afinal eu sou feito dessa mentira, e eu costumava a acreditar no que eu era feito.
O que me deu origem já não representa mais o Natal, pelo menos não o que eu achava que era o Natal. Ele está, sem que muitos percebam, se tornando um dia mais corrompido que qualquer outro. Não importam mais os significados, todos só querem saber dos presentes e do lucro que podem conseguir vendendo eles. É um feriado que se trata somente disso. Mesmo a religiosidade já foi deixada de lado. Eu mesmo... Minha própria imagem já perde a identidade se moldando conforme as empresas preferem. Chegará o momento em que minha imagem será definitivamente substituída pelo camundongo Mickey Mouse dirigindo um caminhão da Coca-Cola.
No ano anterior, eu ainda tinha esperanças de que essa data voltasse ao que foi um dia. Lembro-me de ter visto um casal conversando em uma praça na véspera de Natal. Fiquei os observando por alguns momentos até que depois que a moça que aparentemente desenhava ou escrevia num pequeno caderno enquanto conversava com o namorado decidiu guardar suas coisas e sair com ele para qualquer outro lugar. Logo depois que se distanciaram, notei que ela havia deixado sua caneta para trás. E prontamente fui recolhê-la e devolvê-la na melhor das intenções, mas quando consegui chamar a atenção dos dois, não foi de forma positiva. Ambos deixaram-se levar pela minha atual aparência e me confundiram com um assaltante, o que causou algum rebuliço na praça, reunindo uma pequena multidão contra mim. Por pouco escapo evitando um linchamento.
Este ano já me encontro quase que totalmente desesperançoso. Decidi vagar pelas cidades buscando algum indício de um retorno milagroso dos tempos dourados desta data. Caminhei por bairros e entrei em condomínios, mas não tive qualquer tipo de problema. Imagino que o que me mantém vivo no momento é fraco demais para deixar minha materialização perceptível para as pessoas, ou então ninguém mais nem finge se incomodar com um mendigo entrando em sua vizinhança. Decidi não arriscar entrando em casas e apartamentos, mas olhei pelas janelas e em todas que observei apenas encontrei famílias em cantos separados. Uns em quartos separados do resto. Vários com os olhos compenetrados em telas de celulares, computadores e televisões. Nada encontrei que valesse a pena resistir para representar.
Não sei mais o que dizer. Acho que é isso, é o fim. Ao menos para mim. Ficam aqui os últimos pensamentos e a despedida de um velho espírito já esquecido. E também o desejo de um feliz Natal, ou o que quer que isso tenha se tornado.


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