quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Feliz para sempre

 
Estou cansado.
Já me recomendaram médicos e remédios mas estou farto deles.

Eles não adiantam. Eu sei o que adianta.

Antigamente eu era como qualquer outro. Apenas me deitava e dormia.

De um tempo pra cá as coisas mudaram.

Primeiro veio a estranha insônia, atrasando meu sono em uma, duas, três horas no máximo. Depois comecei a acordar no meio da noite. Várias vezes.

Li um pouco sobre, parecia ser normal, parecia acontecer com todo mundo.

Aí eles vieram.

É difícil dizer exatamente quando. Eles eram curtos e eu só me lembrava de sensações. Nunca imagens.
Olhava pro teto, estranhava e voltava a dormir.

Mas nunca é só isso.

Ficaram mais recorrentes, crescendo em número durante uma mesma noite gradualmente.
Apenas acordadas básicas, nada de mais. Felizmente dormir depois deles era fácil.


Então o terror realmente começou.

Foi como se eu tivesse atravessado uma linha. Pulado de um precipício.
O que antes era brisa fresca, se transformou em ventania e então eu cai de cabeça. E todo o vento me ensurdecia.

Nunca vou esquecer o primeiro deles.

Ela estava linda, como estava. Ela estava sorrindo e só isso bastava.
Então ele chegou e eu senti que ele era o motivo do sorriso dela.
Se eu fiquei triste? A princípio sim. Quem não ficaria?
Mas ela estava bem como não fica há tanto tempo, era majestoso.
Mas então ela começou a se afastar. Todos começaram a se afastar.

E nada que eu fazia surtia algum efeito.

Me agachei e tampei os ouvidos, depois gritei o máximo que pude na esperança que alguém me ouvisse.

Mas ninguém ouvia.
Ninguém podia ouvir.
Não havia ninguém pra ouvir.

Acordei aos pulos; soluçando e chorando. Vomitei algumas vezes.
Me agachei e repeti o processo do sonho mas sem gritar, sem fazer mais barulhos desnecessários. Era minha dor e ninguém precisava saber.

Decidi então que essa dor deveria ser guardada dentro de mim.
Fundo.
Muito fundo.
Mais fundo do que eu posso aguentar.
No lugar da dor, somente sorrisos deveriam surgir.

Foi então que eu sorri. Abri o maior sorriso que meus lábios suportariam.
Todos me elogiavam. Diziam que eu fazia bem em sorrir.
Diziam que gostavam de ver a minha felicidade.
Felicidade? É este mesmo o nome?

Mas minhas noites de sono só faziam piorar. Acordei com dores de cabeça.
Todo dia, de lei, uma dor de cabeça para coroar uma tarde de solidão.
Todo dia, o torpor e o enjoo.
O vazio que ela deixou fazia minha alma ecoar. O som da voz linda dela reverberava no meu peito e trazia parar fora tudo o que eu tinha comido no dia anterior. Tudo o que eu lutei ferozmente para engolir.

Vômitos.
Dores incontroláveis na minha cabeça.
As noites que eu nunca mais dormi.
Minha alegoria principal.
A doença que eu havia me tornado era a verdade que eu passei a ter.

Tentei dormir. E nos meus sonhos, sempre breves, ela me dizia oi e tudo voltava a ser como antes.
Mas nada voltaria a ser igual.

Quando meus olhos se abriam, eu reparava a data de nossa última conversa. Anos atrás.
Teria se passado um ano então? Com tantas noites mal dormidas, eu não poderia dizer.

Eis que então eu atravesso a rua e vejo ela sorrindo.
Checo duas vezes e percebo que sorri para mim.

"Quanto tempo!" ela diz, com alegria.
 Estaria ela tão feliz em não me ver por tanto tempo?

"Senti sua falta." Respondo.
Todo o autocontrole que lutei tanto para conquistar se foi em um segundo.
Eu não consegui manter a mudez.

E logo tudo parecia estar muito bem.
Por um breve segundo, não havia dor na minha cabeça ou vozes no meu ouvido.
Meu estômago vivia em mais perfeita paz.

Nos despedimos e eu voltei para casa.
Por um momento eu me sentia bem.
Bem como a muito não me via.
"Quanto tempo!" Ela havia me dito sorrindo.
Ela sorria por estar longe de mim.

Tive este estalo pouco antes de ir dormir. Eu ia descobrir se os pesadelos haviam sumido. Ia descobrir se ela me curou.
Mas antes, eu precisava desesperadamente retribuir.
Eu tinha em mãos algo que a fazia feliz.

E, certo da felicidade dela, eu voei pela janela.
Pois, se minha ausência é o que faz bem.
Que ela seja feliz para sempre.
 

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