As pessoas acreditam que as estrelas só surgem nos céus. Contra tudo o que se acreditava, a pequena Bridgit tinha estrelas nos olhos. Aos treze anos, quando sentia o inverno chegar, se apressava em perguntar para o pai quando as pessoas viriam ver os pinheiros. Sua família cuidava de uma floresta deles e, quando se aproximava o Natal, vinham pessoas de todos os cantos dos Estados Unidos comprar suas árvores maravilhosas.
Brigdit gostava de ajudar o pai a vender árvores. Ela corria pela floresta e dava nomes aos pinheiros e então, para cada cliente que chegava, ela analisava muito bem como era a família e sugeria um pinheiro para adoção. "Timothy é um belo espécime. Ele gosta do cheiro de biscoitos de baunilha e prefere ser enfeitado com bolas douradas. Vermelho lembra o fogo que queimou sua irmã Donna." Os clientes riam, mas a maioria aceitava suas recomendações. Todos gostavam de ver as estrelinhas cintilando nos olhos de Brigdit.
Seus pais não temiam por ela passear na floresta. Ninguém costumava furtar pinheiros de natal. A violência não conhecia aquele lugar e a menina pequena também não conhecia a violência. De verdade, era muito agradável que tivesse árvores como amigas, pois com elas falava mais do que com qualquer um. O pinheiro mais alto, e mais velho, se chamava Nicholau. Este era de estimação. Bem verdade que ele não resistia a alguns verões, mas Brigdit sempre guardava um ou dois galhos para replantar no inverno seguinte. E quando morria, a sua madeira virava uma cadeira ou uma cama ou qualquer coisa de madeira que ficava no quarto dela.
Quando o Natal chegava, suas estrelinhas oculares brilhavam mais do que qualquer outra coisa. Ela passava o dia inteiro nas florestas revendo os nomes dos pinheiros. Cada vez que olhava para cada um deles, pensava em que tipo de família poderia levá-lo para casa e então tomava uma nota mental. Se algum cliente chegava, seu pai tocava uma buzina muito forte e Brigdit saía correndo disparada na direção do som. Assim, quando o Homem de Gravata Cinza chegou, ela estava esbaforida e demorou para começar a falar.
"Brigdit, este senhor quer comprar um pinheiro para a família dele. Quem você sugere?" Perguntou seu pai que sempre ostentava o mesmo olhar para a filha. Um misto de preocupação e orgulho da pequenina.
"O senhor tem filhos?" Perguntou a menininha.
"Não. Vivo sozinho na minha casa." O homem tinha uma voz grave e seca. Suas cordas vocais tocavam quase uma percussão, e seu semblante era de um homem sério que só queria a "Porcaria de uma árvore de Natal". Brigdit teve um pouco de medo dele, mas, conforme recuperou sua respiração, começou a pensar em um nome para oferecer ao homem solitário.
Olaf seria uma boa opção para alguém sozinho, mas este homem é muito emburrado, iria assustar o pobre pinheirinho. Samantha é mais séria, talvez combine melhor com este homem, mas ainda está pequenina, papai não vai me deixar ofertá-la. Talvez... Talvez eu possa oferecer Arnold. Já tem alguma idade, não iria sobreviver o verão. Talvez os dois possam se fazer uma companhia agradável por um tempo.
"Venha, vou lhe mostrar Arnold. É um dos pinheiros mais antigos da floresta e está em ótimo estado." Disse Bridgit com o seu brilho no olhar. Ela teve certeza de que o homem compraria o espécime.
Caminharam pela floresta e chegaram até o velho pinheiro. Arnold parecia feliz em ser apresentado para alguém. Os outros pinheiros fizeram fofoca, Brigdit lançou-lhes um olhar para que fizessem silêncio. O silêncio se fez sozinho. O Homem de Gravata Cinza olhou por toda a extensão da árvore. De cima a baixo, de um lado a outro. Olhou para o pai, olhou para a filha. E finalmente disse:
"Qual diferença este Arnold tem para as outras árvores?"
O pai de Brigdit estremeceu, pensou que este seria um daqueles clientes exigentes. Estava a ponto de pedir para a sua filha ir para casa, mas a pequena se adiantou e respondeu ao homem.
"São todos os homens uns como os outros?" O Homem acenou que não. "São todos os cães uns como os outros?" Novamente, não. "Por que deveriam os pinheiros de Natal?"
O Homem não moveu um músculo. Abriu a carteira e pagou para o pai. Arnold fora devidamente cortado com a serra e arrastado até a caminhonete, para ser levado para a casa do Homem de Gravata Cinza. Bridgit ainda estranhava alguma coisa no olhar do homem. Silenciosamente, rezou pelo pinheiro que partia para um lar que devia ser maldoso. Mas não se importou. Confiava na sua decisão.
À noite, pouco antes de ir para sua casa, perambulava pela floresta, contabilizando os nomes de árvores que tinham sido vendidas. Cinco nomes a menos na sua lista mental. Seus olhos brilharam quando ela avistou de longe algo que não costumava ver. À princípio, pensou em ir até seu pai e chamá-lo, mas logo descobriu o que era. Uma ponte. De pontes ela não tinha medo. Seguiu cautelosamente, e, por fim, passou por cima. A madeira rangia de uma forma familiar. Parecia o rangido de sua cama, de quando Nicholau lhe dava boa noite, mas soava mais como um pedido de socorro.
Bridgit passou as mãos pelo corrimão rudimentar. A aspereza da madeira ela conhecia bem, o velho Arnold. Socorro. Rangeu ele novamente. Do outro lado da ponte, o Homem de Gravata Cinza sorria maldosamente. Eu sabia que ele era do mau. Pensou Bridgit, mas seguiu como a menina educada que era.
"O que deseja, senhor?" Perguntou com a sua delicadeza de sempre.
"Tenho um amigo que muito lhe quer conhecer, menina. Venha." Ele disse. Bridgit era educada demais para recusar, e foi com o homem.
Ele guiou ela por um lugar que não conhecia. Depois da ponte, era um mundo novo. A ponte que rangia Socorro era um portal para outro lugar que ela não conhecia. Mas o Engravatado conhecia, então ela o seguiu, para não se perder. Sua mãe sempre dizia "Obedeça os adultos, Bridgit!" Ela era uma boa menina. Iria obedecer.
Então, um sujeito apareceu. Podia se dizer que era homem, mas com a barriga e altura que tinha, mais parecia um Barril. Assim, quando olhou, só viu um Barril que falava. E o Barril não titubeou em falar.
"Ora, ora, se não é a pequena de quem falou. Krampus, você tinha razão em escolher a garota."
"Cale a sua boca e coloque a menina no trenó. Temos muito o que fazer." Disse o Homem de Gravata Cinza, que, pelo visto, se chamava Krampus.
Bridgit era educada então iria subir no trenó sozinha. Quando viu que era puxado por renas, perguntou se tinham nome, mas era óbvio que não tinham. Ela se aproximou e passou a mão sobre cada uma. A primeira cumprimentou com um grande sorriso de rena. "Nobel" iria se chamar. A segunda recebeu o carinho de uma forma engraçada, como se sentisse cócegas. "Soap." A terceira, Bridgit percebeu, era uma alma feminina. "Cristina." A quarta fez a menina rir até não poder mais. Com seu nariz vermelho e deformado, era muito engraçada. "E você, Rudolph." Nomeadas, Bridgit subiu no trenó.
"Já que você é boa com nomes, vai me guiar esta noite." Disse Krampus com sua risada perversa.
"O que faremos, senhor?" Ela perguntou. O Barril começou a dirigir o trenó. E ele subiu, voando.
"Vamos castigar as crianças ruins deste ano. Puni-las antes que Noel venha com seu amor perdoar suas maldades. O mundo precisa conhecer a punição." Krampus gritou.
"Espero que eu não tenha que punir nenhuma delas." Seus olhos brilharam outra vez.
"Ninguém vai me tirar o prazer da punição. Você irá me ajudar a localizá-las. A primeira se chama Daniel, mora em Springfield. Ajude a encontrar a casa dele."
Brigdit avistou toda a cidade logo abaixo de si. Seu olhar passou por todas as casas. Imediatamente ela viu a casa que pertencia a Daniel. Era amarela e tinha muita cara de Daniel, mas bastava olhar para a casa, que poderia se dizer que era um bom menino. Daniel devia ter esquecido de fazer algum dever de casa ou talvez tenha brigado com alguma Regina ou Joana, não era um menino ruim. Então Bridgit mentiu pela primeira vez. Disse que não tinha um Daniel lá embaixo. "Você está mentindo." Ela disse.
Krampus olhou para baixo por muito tempo. Barril dava voltas com o trenó ao entorno de Springfield, até que o homem percebeu o óbvio. Aquela é a casa de Daniel. Ele apontou para a casa amarela, e Bridgit tremeu de medo. O trenó pousou lentamente e Krampus desceu. Não houve nada que ela pudesse fazer. Junto às renas, a garota chorava e ouvia os gritos de punição. Daniel gritava muito alto. Krampus só ria.
Rudolph olhou nos olhos brilhantes da menina. Seu nariz vermelho brilhava também. Então uma luz se iluminou nos pensamentos de Bridgit. O casco do trenó era feito de Arnold também. Não percebera antes porque a sua boca ficou junto com a ponte, mas todo o resto estava ali, com uma tinta preta para disfarçar as rugosidades da madeira. De uma a uma, ela sussurrou o plano nos ouvidos das renas. Cristina chorou. Soap soluçou. Nobel concordou.
Quando Krampus voltou, o trenó subiu novamente. Já estavam no ar quando ela bateu com o nó dos dedos no casco de Arnold. As renas mergulharam e subiram em um mínimo segundo. Barril voou pelos ares e caiu engolindo todo o corpo de Krampus. Bridgit riscou um fósforo e lançou no trenó. Rudolph se soltou e se posicionou ao lado do veículo. A menina beijou Arnold e lançou um sorriso para as outras renas. Subiu em Rudolph e voltou para casa. De longe, o trenó queimava nos ares. A punição de Krampus.
Os olhos de Bridgit brilhavam como nunca e quando ela desceu em sua rena, chegou na sua floresta. Tudo soava como sempre, mas ela logo sentiu que não estava. Seus olhos ainda brilhavam, ela ainda chamava os pinheiros pelo nome, mas se sentia diferente. A floresta não parecia mais segura, os homens não pareceram mais inocentes, tudo estava mudado. Ela entrou no seu quarto com medo de que seus pais também fossem como Krampus, medo de que o mundo fosse cheio de monstros, medo de que eles morassem debaixo da sua cama. Então as estrelas de seus olhos se mudaram para o céu e ela viu o mundo como ele realmente era.


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