Era véspera de natal. Era o feriado que Jack mais gostava, aquele espírito de companheirismo, de compaixão... Ah! Era maravilhoso, adorava sentar e abrir os presentes, adorava o sorriso no rosto de todos. Sempre escutava os passos, sinos do bom velhinho. O som do guizo das renas. Sempre deixava um biscoito para Noel, e em todas as noites natalinas esperava vê-lo. Mas nunca conseguia, até que um dia cogitou sua existência. Este ano estava convicto de que ele nunca existiu.
Seus pais sempre desapareciam quando se tratava de procurar ele, e então magicamente os presentes apareciam? Não era coincidência. Papai Noel nunca existiu e nunca existirá, foi só um conto idiota para enganar crianças tolas como ele. Além do mais, viu seus pais colocando os presentes na árvore, não era mais que uma bela decepção. O guizo nem tocava mais.
Levantou-se depressa e foi ao banheiro escovar seu dente. Voltou ao quarto e se deitou, esperando a manhã chegar. Quando acordou, não estava de manhã, estranhou, levantou-se e foi tomar um leite. Encarou o relógio, resmungando ainda sobre o horário e voltou a seu quarto agora mais frio que o normal, muito mais, imaginou se não deixara a janela aberta, mas estava bem fechada, viu seu reflexo ficando mais embaçado em sua janela, passou os dedos e percebeu o vapor, tudo a sua volta começou a ficar diferente, começaram a se desfazer materialmente sendo sugado por um portal desconhecido nos vértices do quarto, para Jack aquilo era insano, como descrever algo que nem parece real? Jack esfregou seus olhos caindo para trás quando a janela começara a se desfazer. Se arrastando no chão, Jack chega a porta de seu quarto, e consegue sair.
Começou a correr pela casa que aos seus olhos parecia estar maior, muito maior, continua correndo até que o tapete em baixo de seus pés, é sugado para o tal "buraco negro", fazendo com que Jack caísse pensando em todos os palavrões conhecidos pelos homens mais irritados. Um pouco tonto ele consegue se levantar, gritando pelo nome de sua mãe e de sua irmã, chegando a conclusão de que estara completamente sozinho.
Tudo então começou a ficar em câmera lenta, todos os objetos começaram a se reorganizar em sua sala, tornando o lugar mais medieval , tudo começou a mudar de uma maneira tão rápida que Jack foi atingido pelas suas pantufas. Sua casa então se torna o lugar mais elegante que ela havia visto, na verdade lembrara-o de um lugar especial que marcou suas férias do verão passado, Alemanha para ser mais exato, o castelo de Neuschwanstein.
‒Mãe? ‒ Ele olhou para a novíssima casa, procurando por sinais de sua família. ‒ Talita? ‒ Diz correndo, gritando por sua mãe e irmã.
Jack correu por onde podia gritando a plenos pulmões, e não reparou o homem que aparentava ser um quarentão, usava uma armadura suja, muito suja e tinha uma barba esquisita aos olhos de Jack , como se fragmentos de diamante em pó fosse sua loção pós barba, além disso possuía um relógio de bolso de ouro, ao menos parecia, parado em sua frente.
‒ AHHHHHHHHHHHHH! ‒
Sem palavras, Jack não poderia dizer nada, sua cabeça ainda rodava, sua reação de perguntar autoritariamente "Quem é você?" foi oposta, ele caiu no chão, chamando a atenção do homem.
‒ Olá, meu bom homem. Chamo-me Sir. Davis. Mas pode me chamar de Sir.
Ao contrário do que se imagina Jack sentiu a vontade de rir, ele pensava em qual tipo de chá alucinógeno, o homem tomou! Aliás, que droga o próprio Jack tomara, só poderia ser um sonho, é o que ele pensava.
‒ Do que está rindo? Estamos atrasados. Precisamos pegar o trem agora.
‒ Trem? Do que está falando? O que diabos, está acontecendo?
‒ Bom...‒ O homem então tira de sua armadura um documento. – Aqui diz que você solicitou o serviço do Natal Ltda.
‒ O que?Não solicitei serviço algum!
‒ Mas aqui consta que o senhor ás 23:45, flagrou seus pais na árvore de natal, e desde então sua crença no Senhor Noel fora desabilitada.
Ele estava muito assustado, como inferno, ele poderia saber disso? Será que ele era algum fantasma? Cogitou-o.
‒ E bom, caso não saiba isso aciona o serviço de emergência.
‒ Mas isso é bobeira.
‒ Bobeira é ficar aqui argumentando com um homem, enquanto o trem vai embora!
‒ Trem? Que trem? Veja bem, a cidade está coberta por neve, o trem mais próximo é na outra cidade.
E então se ouviu um apito. Um apito bem forte e um clarão. Jack não conseguira acreditar. Ele quase quis acreditar, mas a cena fora bem clara. Seus pais estavam pondo os presentes na árvore, tornou a ficar triste.
‒ Vamos? –Estendeu a mão, o homem em sua armadura para Jack.
‒ Por quê? Por que tenho que ir?
Embora ele soubesse exatamente o motivo, queria mais.
‒ Bem, O bom velhinho sempre torna nossos sonhos em realidade, e se você realmente não acreditasse nisso, eu não estaria aqui. Isso diz muita coisa sobre você, caro Jack.
E então sorriu. Jack sabia, queria acreditar, e essa força é maior que qualquer verdade não dita.
‒ Vamos. ‒ Disse passando na frente de Sir. Davis.
Quando saíram depararam-se com uma verdadeira obra de arte, um trem enorme, bonito, azul. Seus pensamentos foram interrompidos repentinamente por um grito.
‒ EMBARCAR! – E então, Jack seguiu Sir. Davis, observando o grande letreiro que indicava o nome do trem: "Expresso Polar". Pensou que talvez sua irmã adorasse aquele trem. Andou até o homem que havia gritado.
Sir Davis entrou na grande lata. Sorriu com o pensamento, uma lata entrando em outra lata. Quando pôs os pés para entrar fora impedido.
‒ Bilhete, por favor! –Quase chorou, não tinha nenhum bilhete.
‒ Mas, não tenho bilhete.
‒ Olhe em seu bolso, rapaz. –Disse o homem sorrindo, dando-o uma piscadela. Seu ceticismo fora para o ralo. E lá estava um bilhete, dourado, glorioso em todas as suas formas. Ficou tão surpreso que quando entregou para o homem, ainda não acreditava.
‒ Boa viagem!
E então embarcou naquele trem. Mal sabia que embarcaria em uma aventura.
‒ Bem, o passeio é bem simples na verdade, iremos a um lugar bem especial, mas sugiro prestar atenção no caminho, passaremos por momentos da sua vida. E é sempre bom saber quem você é antes de chegar em Noel.
‒ Como?
E então o homem sumira. Tomou um susto, e estaria mais preocupado em saber onde ele fora, se não ouvisse um choro, um chiado de criança, um bebê nascendo.
‒ Força amor, você consegue!
Era a voz de seu pai. Foi à janela e se deparou com sua mãe, tendo-o. A imagem o emocionou, não imaginava o sufoco que ela passara. O parto era chocante e ele tinha nojo, mas algo nele não conseguia parar de ver. Estava simplesmente deslumbrado.
‒ Amor, ele está dando seus primeiros passos!
Sorriu consigo. Obviamente não recordava desses momentos, era tão pequenino.
‒ Querido, você ganhará uma irmãzinha!
‒ Você vai ganhar a taça de torneio de futebol, Jack! Só precisa treinar mais, confiança, filho!
E todos os momentos passaram depressa, mas o suficiente para que ficasse encantado e muito emocionado. Até que o trem desacelerou e parou em cenas que havia esquecido.
‒ Sua avó foi morar no céu!
Choro. Luto. Tristeza. Decepção. Raiva. Tudo em uma só imagem. Queria ter esquecido completamente, queria esquecer o momento, não sua querida avó.
E então parou. Na última cena que presenciou. A cena da árvore. Mas algo estava diferente. Ele parou para observar melhor. Seus pais estavam cochichando e indo para a árvore, mas o grande choque, a grande surpresa é que os presentes já estavam lá. Era uma noite impossível, tantas coisas aconteceram e até agora não havia acreditado em nenhuma delas. Seus pais mexiam nos presentes, exatamente como havia visto. Então era isso, seus pais estavam apenas mexendo nos presentes. Que idiota.
‒ CHEGAMOS!
Uma voz então o assustou. Era Sir Davis, novamente.
‒ Como foi a viagem?
‒ Seria melhor se não tivesse sumido, Sir.
‒ Mas eu nunca sumi, se prestasse atenção veria que eu estive sempre presente.
Então ouviu uma gritaria, um alvoroço. Apenas olhou apreensivo para o quarentão, que deu de ombros.
Seguiu-o novamente. Ao sair do trem se deparou com uma multidão, mas não uma qualquer, uma multidão de crianças e de duendes. Sim! Duendes! Isso era maravilhoso aos olhos de Jack. Sentira-se realizado.
‒ Tome. É um presente. ‒ Perguntou Sir Davis, entregando-lhe um guizo. –E não perca.
‒ Mas para onde você... – E então o homem havia sumido novamente. – Vai? – Jack havia se perguntado o que raios, Sir Davis tinha de importante que não poderia esperar. Quando menos esperou, fora empurrado pela multidão, levando o objeto dourado ao chão. Quanto mais tentava buscar, menos conseguia, o objeto rolava para todos os cantos, rezava para não ser pisoteado. Depois de muitas voltas, quase conseguiu pega-la se novamente uma bota não a chutasse para longe, engatinhou rapidamente para perto, e a pegou.
Segurou perto de seu ouvido, e tentou. Da última vez, seu guizo não tocou. Então tentando mais uma vez, não conseguiu escutar. Parou respirou e repetiu a si mesmo "Eu creio" tantas vezes necessárias para que ele finalmente pudesse de fato acreditar.
E então tentou novamente.
Plim Plim. O guizo tocou, ficou tão feliz. O segurou perto de seu coração para então ser surpreendido por uma voz.
‒ O que foi que você disse?
Jack o encara boquiaberto, definitivamente isto era um sonho. Era ele. Ali parado. O olhando. Gaguejou antes de responder. Isso era um sonho. Era inexplicável. Só sabia quem estava sentindo. Era incrível.
‒ Que... eu creio.
E então olhou ao redor, todos prestavam atenção silenciosos em sua conversa e lá atrás estava Sir Davis com um belo sorriso e uma piscadela.
‒ Eu creio.
E então entregou o guizo a ele.
‒ Acredito que isso seja do senhor.
Avaliando-o segurou mais perto e agradeceu.
‒ Obrigada. –Disse enaltecido pela lealdade do menino. O convidou para seu trenó. Arrancando aplausos. E muitas salvas. Rapidamente, convidou Jack com gestos para sentar ao seu lado. E sem delongas, foi direto ao assunto. Havia escolhido alguém. E Jack era esse alguém.
‒ E então, o que quer de natal?
‒ Eu?
‒ Você!
Pensou. Pensou. Pensou e então sabia exatamente o que queria. Cochichou no ouvido dele.
‒ É! Nenhum problema.
E então levantou o guizo e gritou para a multidão:
‒ O primeiro presente de natal.
E todos deliraram. Era perfeito! O natal mais perfeito de todos. Com todas suas imperfeições, fora o melhor. Estava tão proveitoso de tudo que abraçara o velhinho. Estava festivo, crente.
E quando menos esperou tudo se desfez, a paisagem voltou a girar, os objetos começaram a sumir. O bom velhinho sumira como areia. Tudo a sua volta começou a ficar diferente, começaram a se desfazer materialmente sendo sugado por um portal desconhecido, acontecia novamente.
E então, como se nada tivesse acontecido estava em seu quarto, amanhecia e ouvia um alvoroço. Claro, os presentes.
‒ Jack, Jack! Venha ‒ Chamava sua irmã. Animados desceram as escadas correndo, abrindo todos os presentes.
‒ Vai com calma, Jack! – Alertou a mãe.
E com cuidado abriu seu pacote, e lá estava ele. O guizo.
‒ Deixe me ver filho. –Pediu seus pais. –Que pena, não está tocando. Está quebrado.
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