domingo, 29 de novembro de 2015

Quinze Anos

Seu primeiro dia! Respire fundo, garota! Respire fundo quando estiver passando pelas portas. Vamos lá, não pode ser a pior coisa do mundo. Conhecer gente nova, lugares novos. Vai dar tudo certo! Quando eu passar por aquelas portas, bem, aí eu vou encontrar ele. Ele vai olhar pra mim com uma cara de surpresa. “Você é nova, não é?” Er... Duh! “Sou nova sim. É o meu primeiro dia!” “Seja bem vinda, então!” “Ah, obrigada!”

Com um sorriso bobo, eu vou pra aula. Vou encontrar uma sala com pessoas que se conhecem, as cadeiras vão estar postas em duplas. Vou ter que me sentar com alguém. Olho bem nos olhos de cada um que passa. Vou passar alguns anos com essas pessoas, é bom gravar bem os seus rostos. Então vai chegar uma Abigail ou, sei lá, uma menina qualquer [ruiva?] e vai sentar do meu lado. Ah, vamos ficar amigas, lógico. Falaremos de bobagens e dos meninos, eu vou me lembrar disso por um bom tempo.

“Você de novo?” Ele vai dizer. “Parece que é uma escola pequena.” Eu vou dizer. Ele não vai acreditar. “É isso ou você está me seguindo.” “Eu não estou seguindo ninguém.” Pura verdade. “Que pena, porque eu estou. Se encontrar uma novata perdida que perdeu esse prendedor de cabelo, avisa para ela que Daniel está procurando por ela.” Levarei as mãos ao cabelo. “Meu prendedor!” Ele vai segurar meu cabelo e colocar o prendedor com cuidado. Vai ficar horrível. Eu vou rir da cara dele. “Parece que você vai ter que me ensinar a colocar um prendedor no cabelo.” Eu vou só rir. “O que acha de me ensinar na sexta a noite?”

E na sexta vamos sair juntos. Meu cabelo vai estar solto e não vai ter aula de prendedor. É claro que ele também não está interessado em aprender, mas como eu estarei nervosa, vou ficar pensando no prendedor de cabelo para ficar mais calma. “Você está linda!” Eu vou rir de novo. Será que eu só sei rir? Ele vai me levar de carro. Vamos nos divertir a noite inteira. Eu vou observar cada detalhe para contar pros meus filhos. Preciso memorizar cada piada, cada detalhe, o que ele vai comer, o que eu vou comer, a hora em que ele vai me deixar em casa... Meus filhos vão precisar saber de tudo.

Um mês depois ele vai dizer que me ama. Estaremos caminhando de noite. Minhas mãos não estariam suadas porque eu já terei me acostumado a segurar a mão dele. “Eu te amo, sabia?” Pronto, eu vou acreditar. “Eu também te amo.” Eu não vou rir dessa vez. Pelo menos não de gargalhar. Ele vai se aproximar e me beijar pela centésima septuagésima terceira vez. Não que eu estivesse contando, mas eu estarei. Eu vou entrar na minha casa e vou correr para a janela. Ainda vai dar tempo de ver ele andando pela calçada.


Um dia, ele vai surgir no colégio, como sempre fazia. Ele vai me olhar de baixo pra cima. “Precisamos conversar.” Eu vou ficar nervosa. Rir? Nem pensar. “Eu ainda gosto de você, mas não do jeito que você quer que eu goste.” Ele vai dizer. A primeira lágrima vai rolar. “Por favor, não. A gente pode tentar...” Eu vou começar. Ele vai beijar as minhas mãos. Não tem volta. Ou, pelo menos, não terá. A segunda lágrima rolará. Ele vai levantar e caminhar devagar, olhando um pouquinho para trás. A terceira a quarta e a ducentésima vão rolar juntas. Mas eu vou voltar a sorrir. Isso não é muita coisa. É só o que acontece quando você tem quinze anos.


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