Beijei uma motocicleta amarela quando era criança. Eu a amava. Não era culpa minha, era só algo que eu costumava fazer sem medo de ser feliz. Felicidade é uma palavra que eu sempre estive procurando nos dicionários. É tão estranho como fazem tudo parecer tão racional. Felicidade [s.f.] 1. Estado da pessoa feliz, satisfeita, alegre, contente: a felicidade do vencedor. 2. Satisfação; sensação real de satisfação plena; estado de contentamento. 3. Estado de quem tem boa sorte: para sua felicidade, o chefe ainda não chegou. 4. Êxito; circunstância ou situação em que há sucesso: felicidade na realização do projeto. [s.f.pl] 1. Votos que demonstram congratulações, cumprimentos: muitas felicidades pela chegada do bebê. [Etm. do latim: felicitas.atis]
Devo concluir então que para ser feliz é preciso vencer alguma coisa ou não ter trabalho ou realizar alguma coisa ou ter um bebê. Nesta lista de coisas, minha motocicleta certamente não se encaixava em nenhuma destas categorias. Costumávamos partir para longe, bem longe das pessoas que me machucavam. Por onde passávamos, eu imaginava sentir uma alegria, que agora, reconheço é mentira. Em todos os livros que eu leio, ser feliz significa vencer, mas eu e minha motoquinha sempre perdíamos as corridas mais emocionantes. Mesmo assim, um sorriso se abria no meu rosto toda vez que eu beijava o seu manche.
Mas o que dicionário nenhum dizia, e que não se via em qualquer lugar escrito, era que esta felicidade um dia acabaria. Eu andava sem a menor preocupação quando então um caminhão me derrubou. Caminhão. Eu digo, metaforicamente. Digo: a moto era a metáfora. O caminhão era real. E quando ele passou, minha felicidade foi embora no seu camburão. E no chão, estatelados, os restos da minha moto despedaçada. Pobre de mim. Sem vitória, sem trabalho, sem realização e sem bebê. Sem felicidade para contar história.
Pobre de mim, sem vida. Porque, assim que minha motoquinha querida se espatifou e seus pedaços deslizaram pelos últimos metros, centímetros e milímetros de chão, minha vida também se quebrou. Ao menos, aquela que escolhi para mim, mesmo que aparentasse ser apenas um sonho. Aquela que acreditava merecer, por mais que eu nunca tenha tido um filho, trabalhado, ganhado um prêmio ou conquistado algo importante.
Então, percebi que as definições dicionarizadas para Felicidade me acompanhariam para sempre a partir daquele dia. Sem lutar contra esse fato, apenas segui andando como um robô obediente. Não as aceitei, mas também não discordei. Só acatei. Entre os passos em direção Eudaimonia, encontrei outros ex-donos e ex-donas de motoquinhas. Nem sempre eram amarelas, mas azuis ou marrons com listras ocres. Ora ora, que curioso: o caminhão havia feito outras vítimas além de mim. Mais curioso ainda foi, muitos anos depois, me ver enviando um caminhão para a vida de novos donos de motoquinhas e achar tudo tão natural. Era uma dor necessária, eles entenderão.
Afinal, seriedade e exatidão ao extremo são imprescindíveis. Proibida a entrada de conotações, apenas denotações. Proibida a entrada de sensibilidade, apenas metas. Proibida a entrada de pessoas, apenas robôs.
Bem-vindos à vida adulta.



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