quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Eu voo

Você já pensou em desistir? Em como seria fácil simplesmente deixar de existir? Em como seria fácil subir em um prédio alto e pular lá de cima? Em se libertar? Em ser o piloto do seu último voo?

Eu já. Já pensei em voar. É melhor que fugir, eu acho. Ficar intocável, pois nada, nem ninguém, seria tão rápido quanto você. Mas, então, você pensa nos outros. Sim, nos outros. Você pensa em como seria doloroso pros seus pais e amigos. Bem, isso se esles se importassem. Mas você se importa o suficiente com eles para pensar no quê eles poderiam sentir.

Então, mais uma vez, você empurra a raiva, a indignação, a dor, tudo o que você estava sentindo, para dentro e fecha como se você fosse a própria Caixa de Pandora. Mesmo sabendo que você era na verdade uma panela de pressão. Você deita na cama e olha para o teto, balançando a cabeça para se livrar daqueles pensamentos. Você chora, mas abafa o choro, pra ninguém escutar. Eu choro. Você fecha os olhos e finge dormir até os primeiros raios de sol aparecerem (ou o despertador tocar). Você se levanta e faz tudo o que tem que fazer. Você vai para a escola/trabalho e sorri para tudo e todos. Você chega em casa exausto. E já está na hora de dormir de novo.

Você olha para o céu, pela janela ao lado da cama. Você até se inclina por ela e imagina como deve ser a queda. Você resolve escrever uma carta de despedida só para sentir o gostinho. Você chora, pensando nós entes queridos. E depois chora, pois a liberdade está próxima.  Você senta no parapeito, com as pernas para fora. Cinco andares, mais a garagem e o térreo. Mais ou menos vinte e um metros. O vento sopra forte em seu cabelo e você escuta aquela vizinha velhinha, que passa o dia inteiro na varanda, chamar socorro, desesperada. Mas você a ignora. Você fecha os olhos e se balança. Só um pouquinho. O vento passa a bater mais forte e você sente um frio na barriga. Você escuta o grito apavorado da vizinha e decide abrir os olhos para mandá-la calar a boca. Você se dá conta se que estava olhando para baixo. O chão se aproxima cada vez mais e você volta a fechar os olhos para aproveitar a sensação.

Você senta na cama, exaltado. O despertador cortando a madrugada, ruidosamente. Você se levanta. Faz tudo o que tem que fazer. Vai pra escola/trabalho. Volta para casa exausto. Deita na cama e imagina, novamente, como seria. A queda. A liberdade. Você olha para o céu, pela janela ao lado da cama. Você chora. A panela de pressão explode, novamente.

Você já pensou em desistir? Em como seria fácil simplesmente deixar de existir?

Eu já. Desisti.

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