sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Testemunho da Assassina


 



Vocês não fazem ideia do que é ser irmã da Angélica. Meus pais poderiam escolher qualquer uma das duas para estudar no Rio de Janeiro. Eu era a mais nova sim, mas sempre fui a mais esforçada. Mesmo em uma escola de interior, eu sempre fui mais dedicada que ela nos estudos. Eu acordava mais cedo, cuidava dos animais da casa e ainda fazia meus deveres, antes de ir para a aula e quando chegava lá, eu era a primeira a responder qualquer pergunta. Minha irmã por sinal, uma completa avessa à esse mundo. O pior disso tudo é que ninguém via isso. Angélica sempre tinha as respostas mais fáceis para os problemas. Não é à toa que nem o próprio emprego ela conseguiu, foi uma indicação. Eu era a única que sabia que ela entrava de penetra nas festas, a única que sabia dos deveres que ela não fazia. Por que eu era a única? Porque eu cobria os buracos dela.

Quando ela veio para o Rio, ela tentou manter contato. Sempre chegavam telegramas para a mamãe e para o papai. E eu fui esquecida. Com o tempo, eu não recebi nem mais um "oi". Angélica provou que eu só tinha uma função: proteger ela das besteiras que ela fazia. E assim continuou. Quando ela não se lembrou do aniversário do papai, quando ela disse que não voltaria para o natal, eu tive que ficar do lado deles, consolando e dizendo que não era culpa dela, que a vida na cidade grande fazia isso com as pessoas. Percebe como ela era? E minha vida foi proteger ela por muito tempo. Até que eu conheci o Josisval. Eu estava apaixonada por ele, e quando eu finalmente consegui falar com ele pela primeira vez, sabe o que ele disse? "Eu sempre fui apaixonado pela sua irmã."

Dói muito ouvir uma coisa dessas. Meu primeiro namorado estava comigo como um prêmio de consolação. Na verdade, eu era apenas alguém para tampar os buracos da Angélica. Meu protagonismo era uma farsa. Minha vida não era propriedade minha. Eu continuei vivendo com essa verdade. Cresci em meio a estas mentiras e continuaria me alimentando delas. Continuei do lado do Josi esperando por alguma utilidade dele. Quando meu primo ofereceu o trabalho no Rio de Janeiro, eu sabia que era a minha oportunidade. Procurei pela minha irmã para tomar o meu lugar. Eu iria finalmente ser a protagonista de alguma coisa.

Eu estive no apartamento dela, mas não tinha ninguém. Olhei pelos lados e vi que ela devia ter ido trabalhar. Alguém bateu na porta e entrou na casa. Arrombaram a porta. Eu tive que me esconder. Rastejei para debaixo da cama dela. Quem entrou na casa fez uma visita muito porca. Olhou de muito mau jeito. Vasculhou umas gavetas e foi embora. Eu estava pensando seriamente em ir embora, mas alguma coisa mandou que eu ficasse naquela casa. E eu fiquei. Esperei até Angélica chegar e quando ela abriu a porta, adivinha? Ela não me reconheceu. "Quem é você?" ela perguntou.  "Eu sou a tua morte, vim conversar contigo." Eu respondi.

Foi com um cinto. Eu segurei o cinto na garganta dela. Puxei com muita, muita força. Ela começou a cair. Puxei ainda mais forte. Já estava quase roxa quando caiu no chão. Não foi culpa minha. Eram anos de ódio acumulado. Eu fiquei em pânico. Corri para a cozinha e peguei uma faca bem afiada. Claro que não coloquei minha mão nela, peguei com um pano. Rasguei a garganta dela e deixei a faca na mão dela. Eu sabia que ela já estava morta quando eu a cortei, mas eu queria que ela morresse com alguma dignidade. Eu sempre tive que justificar a vida dela. Precisei justificar a morte dela. Só queria que todos pensassem que foi uma escolha dela. Eu seria a filha perfeita e a esposa ideal. Com o tempo todos esqueceriam da Angélica. Eu me esqueci.

Tatiana, irmã

 

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