As folhas das copas das árvores farfalhavam ao vento, adagas de prata sob o luar, mesmo luar que banhava todo o parque da cidade, lhe conferia um brilho místico de magia, mistério, paixão. Sozinho caminhava Lúcio pelas trilhas de pedra cercadas de jardins, um tanto solitário, outro tanto pensativo. Mas seu momento solitário duraria pouco, porque logo ao longe avistou dois antigos conhecidos, velhos amigos. Então, com sua voz meio rouca, pois seus pulmões eram fracos à friagem noturna, cumprimentou os conhecidos.
- Dona Vanusa, seu Dante, boa noite! - Ele se aproximava a passos rápidos, porém elegantes.
- Talvez não tão boa assim. Não é, Dante Vitorino? - Era clara a irritação na voz da madame, será que havia de novo brigado com seu marido?
- É, amor, péssima noite para nós, mas creio que nosso caro amigo talvez não esteja interessado em nossos problemas, certo? - O desdém evidente do homem para com sua mulher destruía o clima romântico do ambiente.
- Ora! Se eu puder ajudar, claro que estou interessado! – Lúcio já estava em frente ao conhecido casal, imponente à sua frente, no centro do parque municipal, teria de ajudá-los, eles sempre o ajudaram em seus momentos difíceis.
- Ah! Que bom! Pois a você, ao menos, esse ignorante escuta. A mim, só ignora. Acredita que passou a tarde inteira ouvindo sobre o que os outros liam por aqui, mas nem parou para perguntar como eu estava?! - Disse dona Vanusa estupefata.
- Que culpa tenho eu se essas revistas em quadrinhos dos jovens que vêm aqui são muito mais interessantes que qualquer coisa que saia de sua boca?
- Ah! E o que é que você aprendeu com esses tão interessantes destruidores de jovens?
-Descobri, por exemplo, que é incrível o número de super-vilões com doutorado, bem diferente dos livros sobre psicopatas da nossa época.
- Descoberta inútil! Assim como você, seu energúmeno! Até na cama não sabe mais como satisfazer uma mulher de verdade como eu. - Ela solta uma risada histérica com sua deixa contra a virilidade do marido que logo iria responder à altura.
- Basta! - Não foi um grito, mas nem a voz rouca impediu o impulso de Lúcio que já tornava-se impaciente com os maldizeres do casal e não permitiria que o escárnio continuasse. Deveria agir logo. - Vocês vivem há tanto tempo juntos, como podem agir assim de repente? Vejam como a noite os espera para se amarem, a Lua os cobre de magia, os querubins de pedra apontam todas as suas flechas para vocês, querendo ou não, esse é o centro do jardim, aqui é onde casais se encontram e se enamoram, não se afastam.
- Que belo, meu caro, porém, eu posso estar entre anjos, mas não sou um deles. Seus discursos são meras ilusões, pois esse lugar um dia abençoado, hoje é a casa apenas do pecado. Os casais não mais se encontram aqui para enamorar-se inocentemente, apenas um casal se encontra, e as coisas mais nefastas ocorrem.
- Verdade! Dante finalmente disse algo que preste! - E da água fez-se vinho, pois os tons de voz, antes símbolos da aversão do casal, agora mostravam o laço que os manteve unidos por tanto tempo, talvez a única coisa que soubessem realmente fazer juntos, fofocar. - Mais de uma vez nós vimos a mulher do prefeito da cidade aqui. Isso sim. Ela se encontra com o jardineiro do parque para manchar o casamento sagrado, e que festa fazem!
O homem franziu a testa com o que ouvia, uma brisa gélida cortava suas faces e o casal à sua frente lhe contava tudo o que vira naquele local, uma conversa no mínimo interessante.
- Não posso crer, a mulher do prefeito é uma mulher de fina estampa o que quereria com um simples homem como o jardineiro do parque, que me permito dizer que conheço como se fosse eu mesmo e também não é dado a sair com a mulher dos outros. – O rosto de Lúcio agora mostrava uma expressão atônita que brilhava ao luar.
- Sim. E uma vez eles até nos pegaram bisbilhotando-os em suas peripécias.
- E para se vingar o jardineiro nos procurou depois carregando uma grande lata de tinta e jogou o líquido nos nossos olhos. Que barbárie! Desde então não enxergo mais nada, nem meu Dante enxerga, apenas pode agora ouvir os rapazes falando sobre o que leem. – Dona Vanusa completou para seu marido.
- Oras! Mas eu devia prestar contas com esse cafajeste agora mesmo. – O ouvinte demonstrava irritação pelos maus tratos aos amigos. Cerrou os punhos enquanto as nuvens encobriam a luz da Lua e a escuridão rapidamente tomava conta do parque por completo.
- Oi, Amor! Você está aí. – Uma voz surgi vinda de alguma distância atrás de Lúcio, uma voz conhecida, motivo de sua presença ali a tal hora, uma voz de mulher, doce e charmosa.
- Oh! Fagundes, é a mulher do prefeito! Você é apenas um faxineiro, ninguém sabe o que ela e o maldito do jardineiro podem fazer com você, veja só o que fizeram conosco. – Disse a Madame assustada.
Lúcio riu, baixo, mas o suficiente para que seu divertimento sádico fosse notado, na verdade, toda sua postura mudou de repente, como um ator saindo de uma atuação.
- Então esse tempo todo vocês achavam que eu era o faxineiro. Fiz bem em cegá-los. Ah! E essa friagem quando ataca meus pulmões deixa-me rouco como o velho, mas logo, logo isso passa. – Um sorriso maroto surge no rosto do agora reconhecido agressor do casal, o jardineiro do parque, seu Lúcio. Logo ele se vira e vê uma forma ainda irreconhecível, graças à escuridão, encostada numa árvore. – Quem é?
- Ora! No escuro podemos ser quem quisermos. Eu, por exemplo, sou uma moça solitária e aflita buscando alguém que possa amenizar seus sofrimentos e satisfazer seus desejos. Oh! – Dramática, sedutora, a bela amante do jardineiro o laçava com sua voz feminina.
- Então quem sabe eu não possa ser o amante que lhe trará tudo o que deseja. – O homem caminhava a passos lentos, na direção da voz que o possuía.
- Hum! Achei que preferisse passar a noite falando com as estátuas. – Ela torceu o nariz ao desdenhar das obras com as quais o jardineiro tinha falado esse tempo todo. – Sempre achei esse seu hábito estranho, ainda mais com réplicas tão clichés. Essa Vênus de Milo é a pior réplica que eu já vi em toda a minha vida e esse Davi está em proporções tão menores ao original, que o que Michelangelo havia feito pequeno agora nem mais existe. – Soltou uma risada pomposa.
- Posso te mostrar uma obra em que existe, e em proporções bem maiores. – A malícia dominou a voz do jardineiro enquanto ele aos poucos se aproximava da dama, já com as mãos trêmulas para apalpá-la.
- Há! Olha como fala, sou uma dama. – Ela se fez de difícil enquanto empinava seu nariz. – E, pelo que soube, parece que algum pervertido anda depredando as "obras" do parque, eu se fosse você tomava cuidado.
- As estátuas sempre nos observando, não pude conter-me e joguei tinta em seus olhos. É estranho eu sei, mas esperava que ao menos alguém as tirasse daqui, do nosso ninho secreto. – O jardineiro rústico envolve a mulher com os braços, passando os lábios por seu pescoço enquanto descrevia suas ações. – Mas ninguém as tirou. – Sua voz um sussurro, como de galanteios. – Talvez nós devamos fazê-lo, com muita emoção.
- Sim. Vamos quebrar as duas, até que restem pedacinhos. – A fala, também sussurrante, era interrompida por leves gemidos. – E faremos isso do jeito mais divertido, nos deleitaremos de nossos corpos em cima dos cacos dessas monstruosidades de arte, purificaremos as obras nefastas com o nosso pecado.
- E ninguém saberá que estivemos aqui. – Completou o jardineiro. – Pelo menos até que a pedra rude e mal trabalhada que é o prefeito também esteja feita em cacos.
- Ah! Suas maquinações são tão tentadoras quanto o que esconde abaixo da fivela do cinto. Pervertido! Que a luz do luar nos banhe e que o prazer de nossos atos valha a luxúria de nossos segredos. – Sua prece de amante acaba e a Lua volta a banhá-los, como respondendo ao momento. Os olhos da amante fixados nos do jardineiro. – Essa noite teremos a paixão das estátuas.
E o parque iluminou-se prateado, brevemente confundindo os amantes com uma escultura, a escultura da noite, Eros e Psique em seu beijo apaixonado congelado. Porém, o movimento retornou, com ele o caos dos sexos e ambas estátuas do parque caíam quando par de corpos esbarrava nelas em sua paixão ensandecida. Apenas cacos prateados ao chão e o pecado vívido ao ar.


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