domingo, 25 de outubro de 2015

A oitava criança

‒ Ainda bem que eu te encontrei! ‒ Disse Paul colocando os pulmões para fora. Ele mal conseguia se manter em pé. Alguma coisa muito errada tinha acontecido.
‒ Calma! Beba um copo de água. Mantenha a calma, antes de me dizer. Respire fundo. Agora sim: o que houve? ‒ Eu disse, fingindo uma calma que nunca se passou pela minha cabeça. Eu sabia que ela tinha ido com ele a algum lugar. Se Paul tinha voltado correndo, algo de errado tinha acontecido. Alguma coisa com ela.
‒ É a Nadia. Alguma coisa aconteceu com ela e eu acho que ela está morta.
‒ Onde ela está?

Corremos ainda mais rápido. Coloquei meus fracos pulmões para fora de meu corpo. Se eu pudesse, cortava meus braços e jogava o estômago para fora. Qualquer coisa que diminuísse o peso e que me deixasse mais rápido. Mais rápido para alcançar Nadia. Quando cheguei, eu vi a cena que me deixou mais apavorado do que nunca estive. O amor da minha vida deitado aos pés de um arvoredo ancestral. Tive medo de perguntar o que aconteceu.

‒ A gente estava... Você sabe...
‒ Transando? Vocês estavam transando debaixo de um arvoredo encantado? Que merda de oferenda é essa? ‒ Gritei com Paul.
‒ George, calma. Você sabe como é, ela estava comigo. Achei que tivéssemos superado isso. A gente transa em vários lugares.
‒ Tudo bem, mas não debaixo de uma árvore ancestral. Essa árvore é um deus aprisionado. Você conhece a história. O deus das orgias que imacula uma virgem humana e então é punido para ficar longe dos prazeres da carne. Faz parte da reclusão dele. Vocês podiam ter se pegado em qualquer lugar, menos aqui.
‒ Desculpa, mas não deu pra segurar.

Eu queria responder que minha raiva também não dava para segurar. Queria socar a cara dele e oferecer seus órgãos como uma oferenda para o deus aprisionado. No entanto, cabia a mim segurar a onda e manter a calma. Se eu surtasse também, então a mulher que eu amo estaria condenada.
Aproximei-me de Nadia e repousei minha mão em sua barriga. Esperei por algum tempo para que os deuses me entregassem a resposta certa. Eu precisava entender o que estava acontecendo. Não seria o deus da orgia quem me daria essa resposta. Ignorei a árvore atrás de mim. Eis que como um sussurro, recebo a benção do deus que tinha colocado aquela maldição. Somente aquele que prendeu o deus em uma árvore saberia me contar o que havia acontecido com ela. O deus das sansões.

‒ Ela concebeu um filho. Vocês dois conceberam um filho aqui. ‒ Disse para Paul. ‒ Essa criança irá nascer completamente saudável. Mas quando completar um ano da data de hoje, Nadia vai morrer. A menos que um sacrifício seja pago.
‒ Que sacrifício?‒ Ele me perguntou.
‒ Nove crianças.
‒ O que tem elas?
‒ A gente precisa sacrificar nove crianças. Durante os nove meses desta gravidez, uma criança deverá morrer, para que Nadia possa sobreviver.
‒ Então, não podemos fazer nada? Nadia não aceitaria que matássemos nove crianças.
‒ Eu não ligo para o que ela aceitaria. ‒ Respondi. ‒ Eu não posso aceitar que Nadia morra. Eu vou matar nove crianças e mataria até doze se fosse necessário. Eu vou pagar esse sacrifício.

Estive sozinho durante os primeiros sete meses. Cacei as crianças mais desesperadas. Me escondi nas sombras oferecendo a paz eterna. Uma a uma, sete crianças deixaram a vida escapar pelos olhos. A cada uma que morria, eu me sentia menos preparado para aquela missão. Sentia que não era adulto o suficiente para tomar decisões lógicas. Sentia que Nadia era só um brinquedo que eu não podia ter e que eu era uma criança mimada, que gostava de quebrar os brinquedos dos outros só para me sentir superior.

Sete meses sem que eu visse Nadia. Sete meses que Paul havia a trancado em um hospital, cheio de homens incapazes de salvar meu amor. Todos aceitavam que ela havia tido uma overdose ou coisa assim e que ressonava em um coma profundo. Nenhum deles entendia como a criança ainda estava viva. Existia uma explicação, mas era mágica e eles nunca entenderiam. Eu fui proibido de entrar no hospital.

No oitavo mês, Paul veio me procurar. Já não acreditava mais que os médicos pudessem curá-la. Eu nunca tinha acreditado. Ele me olhou e pediu para que eu a ajudasse e eu disse que já estava ajudando. Não foi difícil contar das sete crianças que eu já havia matado. Eu mesmo sentia doer cada uma delas.

‒ Faltam duas. Então Nadia estará salva. Eu preciso de você, Paul. ‒ Eu disse.
‒ O que você quer que eu faça?
‒ Eu vou matar a oitava criança hoje mesmo. Você matará a nona.
‒ Por que eu?
‒ Porque seu filho deve morrer nas suas mãos.
‒ Meu filho?
‒ Você não acha mesmo que é seguro manter uma criança que nasceu amaldiçoada, né? Além do mais, nove crianças morreram para salvar o amor das nossas vidas. Você não fez nenhum sacrifício até agora. Como espera que ela volte pra você?
‒ Que sacrifícios você fez?‒ Ele me perguntou
‒ Além de matar sete crianças? Eu matarei a oitava. Meu sacrifício maior.
‒ Quem será essa oitava?
‒ Eu mesmo. Não há outro sacrifício que eu possa fazer para salvar Nadia. Eu sempre me comportei como uma criança. Eu nunca quis crescer. E a Nadia, ela é um amor que carrego desde que eu era pequeno. Tecnicamente, eu não cresci.
‒ Quando Nadia acordar, eu conto para ela o sacrifício que você fez.
‒ Não. Para ela carregar a culpa nos ombros dela? De jeito nenhum. Conte que você matou nove crianças.  Diga a ela que você se torturou para salvá-la. Eu amo a Nadia demais para que ela sofra por minha causa. Eu não posso deixar que ela se sinta culpada por eu me sacrificar por ela. Só me prometa que vai continuar cuidando dela, senão o próximo a sofrer uma maldição será você.


E foi assim que eu matei a oitava criança. Esperei que Paul entregasse a nona. Esperei que as coisas dessem certo e que Nadia acordasse. Ela provavelmente não saberia do que eu fiz por ela, mas isso não me importa. Ela nunca soube mesmo o quanto eu a amava de verdade.


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