‒ Ainda bem que eu te
encontrei! ‒ Disse Paul colocando os pulmões para fora. Ele mal conseguia se
manter em pé. Alguma coisa muito errada tinha acontecido.
‒ Calma! Beba um copo
de água. Mantenha a calma, antes de me dizer. Respire fundo. Agora sim: o que
houve? ‒ Eu disse, fingindo uma calma que nunca se passou pela minha cabeça. Eu
sabia que ela tinha ido com ele a algum lugar. Se Paul tinha voltado correndo,
algo de errado tinha acontecido. Alguma coisa com ela.
‒ É a Nadia. Alguma
coisa aconteceu com ela e eu acho que ela está morta.
‒ Onde ela está?
Corremos ainda mais
rápido. Coloquei meus fracos pulmões para fora de meu corpo. Se eu pudesse,
cortava meus braços e jogava o estômago para fora. Qualquer coisa que
diminuísse o peso e que me deixasse mais rápido. Mais rápido para alcançar
Nadia. Quando cheguei, eu vi a cena que me deixou mais apavorado do que nunca
estive. O amor da minha vida deitado aos pés de um arvoredo ancestral. Tive
medo de perguntar o que aconteceu.
‒ A gente estava...
Você sabe...
‒ Transando? Vocês
estavam transando debaixo de um arvoredo encantado? Que merda de oferenda é
essa? ‒ Gritei com Paul.
‒ George, calma. Você
sabe como é, ela estava comigo. Achei que tivéssemos superado isso. A gente
transa em vários lugares.
‒ Tudo bem, mas não
debaixo de uma árvore ancestral. Essa árvore é um deus aprisionado. Você
conhece a história. O deus das orgias que imacula uma virgem humana e então é
punido para ficar longe dos prazeres da carne. Faz parte da reclusão dele.
Vocês podiam ter se pegado em qualquer lugar, menos aqui.
‒ Desculpa, mas não deu
pra segurar.
Eu queria responder que
minha raiva também não dava para segurar. Queria socar a cara dele e oferecer
seus órgãos como uma oferenda para o deus aprisionado. No entanto, cabia a mim
segurar a onda e manter a calma. Se eu surtasse também, então a mulher que eu
amo estaria condenada.
Aproximei-me de Nadia e
repousei minha mão em sua barriga. Esperei por algum tempo para que os deuses
me entregassem a resposta certa. Eu precisava entender o que estava
acontecendo. Não seria o deus da orgia quem me daria essa resposta. Ignorei a
árvore atrás de mim. Eis que como um sussurro, recebo a benção do deus que
tinha colocado aquela maldição. Somente aquele que prendeu o deus em uma árvore
saberia me contar o que havia acontecido com ela. O deus das sansões.
‒ Ela concebeu um
filho. Vocês dois conceberam um filho aqui. ‒ Disse para Paul. ‒ Essa criança
irá nascer completamente saudável. Mas quando completar um ano da data de hoje,
Nadia vai morrer. A menos que um sacrifício seja pago.
‒ Que sacrifício?‒ Ele
me perguntou.
‒ Nove crianças.
‒ O que tem elas?
‒ A gente precisa
sacrificar nove crianças. Durante os nove meses desta gravidez, uma criança
deverá morrer, para que Nadia possa sobreviver.
‒ Então, não podemos
fazer nada? Nadia não aceitaria que matássemos nove crianças.
‒ Eu não ligo para o
que ela aceitaria. ‒ Respondi. ‒ Eu não posso aceitar que Nadia morra. Eu vou
matar nove crianças e mataria até doze se fosse necessário. Eu vou pagar esse
sacrifício.
Estive sozinho durante
os primeiros sete meses. Cacei as crianças mais desesperadas. Me escondi nas
sombras oferecendo a paz eterna. Uma a uma, sete crianças deixaram a vida
escapar pelos olhos. A cada uma que morria, eu me sentia menos preparado para
aquela missão. Sentia que não era adulto o suficiente para tomar decisões
lógicas. Sentia que Nadia era só um brinquedo que eu não podia ter e que eu era
uma criança mimada, que gostava de quebrar os brinquedos dos outros só para me
sentir superior.
Sete meses sem que eu
visse Nadia. Sete meses que Paul havia a trancado em um hospital, cheio de
homens incapazes de salvar meu amor. Todos aceitavam que ela havia tido uma
overdose ou coisa assim e que ressonava em um coma profundo. Nenhum deles entendia
como a criança ainda estava viva. Existia uma explicação, mas era mágica e eles
nunca entenderiam. Eu fui proibido de entrar no hospital.
No oitavo mês, Paul
veio me procurar. Já não acreditava mais que os médicos pudessem curá-la. Eu
nunca tinha acreditado. Ele me olhou e pediu para que eu a ajudasse e eu disse
que já estava ajudando. Não foi difícil contar das sete crianças que eu já
havia matado. Eu mesmo sentia doer cada uma delas.
‒ Faltam duas. Então
Nadia estará salva. Eu preciso de você, Paul. ‒ Eu disse.
‒ O que você quer que
eu faça?
‒ Eu vou matar a oitava
criança hoje mesmo. Você matará a nona.
‒ Por que eu?
‒ Porque seu filho deve
morrer nas suas mãos.
‒ Meu filho?
‒ Você não acha mesmo
que é seguro manter uma criança que nasceu amaldiçoada, né? Além do mais, nove
crianças morreram para salvar o amor das nossas vidas. Você não fez nenhum
sacrifício até agora. Como espera que ela volte pra você?
‒ Que sacrifícios você
fez?‒ Ele me perguntou
‒ Além de matar sete
crianças? Eu matarei a oitava. Meu sacrifício maior.
‒ Quem será essa
oitava?
‒ Eu mesmo. Não há
outro sacrifício que eu possa fazer para salvar Nadia. Eu sempre me comportei
como uma criança. Eu nunca quis crescer. E a Nadia, ela é um amor que carrego
desde que eu era pequeno. Tecnicamente, eu não cresci.
‒ Quando Nadia acordar,
eu conto para ela o sacrifício que você fez.
‒ Não. Para ela
carregar a culpa nos ombros dela? De jeito nenhum. Conte que você matou nove
crianças. Diga a ela que você se
torturou para salvá-la. Eu amo a Nadia demais para que ela sofra por minha
causa. Eu não posso deixar que ela se sinta culpada por eu me sacrificar por
ela. Só me prometa que vai continuar cuidando dela, senão o próximo a sofrer
uma maldição será você.
E foi assim que eu
matei a oitava criança. Esperei que Paul entregasse a nona. Esperei que as
coisas dessem certo e que Nadia acordasse. Ela provavelmente não saberia do que
eu fiz por ela, mas isso não me importa. Ela nunca soube mesmo o quanto eu a
amava de verdade.

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