Outro dia de chuva. O quinto seguido. O quinto que eu não vou sair de casa. O quinto que eu não vejo o Miguel e a Jéssica. O que será que aconteceu com eles? Ultimamente ele nem tem me ligado. Me afasto da janela com o temor de que as gotas de chuva respinguem em mim mesmo que a janela esteja fechada. Me molhar não é uma experiência muito saudável para mim. Pra dizer a verdade, quase nenhuma experiência pode ser considerada saudável pra mim.
Nesses momentos, enquanto eu me conformo com a minha vida sentado na velha e confortável poltrona no canto da sala, eu desejo que a minha vida volte a ser normal. Na verdade eu nunca pude chamá-la de normal, ou pelo menos o normal de qualquer outra pessoa. Aposto que ninguém além de mim pode fazer origami com os dedos...
Ligo a televisão pra tentar me distrair, mas é difícil encontrar algo interessante, ainda mais com tão pouca variedade de canais com boa recepção nessa casa do interior. Mas parece que tem um funcionando razoavelmente bem. Tem mais uma daquelas reportagens em telejornais aleatórios falando sobre uma lenda urbana que causou um alvoroço alguns anos atrás. Algumas pessoas testemunharam o nascimento de um bebê vivo feito completamente de papel. E apesar de parecer impossível, inacreditável, uma história de conto de fadas, aqui estou eu, o "Homem de Papel". Vivo, pensando, me movendo e vendo TV.
Deve ser engraçado pra quem participa dessas matérias. Pra mim não é. Mas até que já me acostumei com a TV revirando os boatos e com gente ainda tentando me encontrar pra me jogar numa cela e me testar num laboratório, ou coisa parecida. O que me chateia mesmo é ver as pessoas falando "Aposto que ele tem tatuagens feitas de canetinha", "Será que ele voa com o vento?", "Não existe essa coisa de 'Homem de Papel'. E se existir, com certeza não é coisa de Deus!"... Existo sim, eu to aqui! Eu vejo e sinto tanto quanto você! Como essas pessoas podem ser tão... Tão... Eu nem sei o que são. Como o jornalismo chegou nesse ponto de fazer matérias desse tipo?
- Sabe que não faz bem pra você ficar vendo esses programas. – disse meu pai chegando à sala, quase que sentindo minha angústia
- Eu tava entediado e achei que fosse uma boa ver algum programa. Foi uma péssima ideia na verdade. – respondi desligando a TV
Desde que eu me lembro temos sido só eu e meu pai aqui em casa. Quando eu nasci foi um escândalo no hospital. Segundo ele a minha mãe pirou quase que instantaneamente e me rejeitou. E antes que fizessem uma declaração oficial do nascimento da aberração que eu sou. Ele fugiu comigo com a ajuda do médico que fez o meu parto. Eu nunca conheci a minha mãe, mas acho que ela não ia querer me conhecer mesmo. E meu pai tem cuidado de mim e me protegido como se fosse dois, não vou reclamar. Ele me trouxe imediatamente pra essa cidade no interior e essa casa antiga dos pais enfiada no meio do mato. Nunca mais meus pais se viram. De vez em quando ele conta alguma história de quando estavam juntos, mas segundo ele eu precisava mais de ajuda do que ela. E a minha mãe tinha quem zelasse por ela.
Ele sentou na outra poltrona mais surrada do meu lado com seu prato de sopa de ervilha e me oferece por educação como sempre fez. Eu nunca precisei me alimentar como outras pessoas. Uma vez ou duas por dia eu como alguma porção de papel ou revista antiga. Foi difícil pro meu pai conseguir entender como meu corpo funcionava, e até hoje ele não entende muito bem. Acho que nem eu, mas estamos acostumados. Pelo menos, seguindo essa dieta, eu posso conseguir me regenerar de qualquer eventual acidente que me rasgue ou despedace e ainda me deixa um pouco mais resistente.
O silêncio instaurado pela TV desligada e pela refeição discreta não durou muito tempo. Meu pai queria dizer alguma coisa. Ele parecia triste de alguma forma. Não o interrompi.
- Acho que cometi um erro. Já faz um tempo que olho pra você e vejo esse olhar melancólico. Eu tenho me perguntado se eu errei na sua criação. Às vezes eu acho que te protegi demais… Eu sei que eu tinha uma razão pra isso, mas eu sinto que isso pode não ter sido a melhor escolha. Você deixou de ter tanta coisa…
- Não é culpa sua, pai. - Cortei antes que ele seguisse um raciocínio que ferisse sua moral - As pessoas lá fora… Elas não estão prontas pra mim. Eu não estou pronto pra elas. Mas desde que eu conheci o Miguel e a Jéssica, eu pude sentir que meu universo se expandiu.
- Entendo. Vocês se conhecerem foi uma bênção, eu devo dizer. Eles são uma grande companhia e quebram alguns galhos pra gente, mas… Será que só isso é suficiente pra sua vida? Viver em reclusão não faz bem a ninguém. Talvez as pessoas nunca estejam prontas pra você. Mas… Será que seria diferente se você ficasse pronto pra elas? - Ele silenciou novamente por alguns instantes, mas depois mudou de assunto, como se saísse de um devaneio - Bem, eu vou deitar um pouco. Meu velho joelho já está latejando novamente. Se sentir vontade de "comer", tem um catálogo em cima da mesa da cozinha.
Fui pro meu quarto descansar depois daquela breve conversa. Eu tentei dormir, mas não consegui. As palavras do meu pai ficaram ecoando na minha cabeça. Eu nunca antes me permiti dar espaço pra esses pensamentos. Sempre achei que o que meu pai fazia por mim era a única forma correta para que eu vivesse em paz, mas se ele mesmo começa a questionar isso… Será que… Ah! Agora que notei, a chuva finalmente parou. Parece até que o tempo vai abrir de vez.
Ouço uma batida na porta e vou imediatamente ver quem é. Tomara que sejam… Sim! Abro a porta e dou um grande abraço nos meus melhores amigos.
- Miguel! Jéssica! Já estava ficando preocupado. Vocês não dão notícias já faz algum tempo…
Eles explicaram que a chuva que começou alguns dias atrás fez com que o rio que passa pelo bairro deles transbordasse, então a passagem por ele se tornou impossível. Apenas hoje de manhã com a chuva começando a diminuir a situação foi melhorando e eles decidiram fazer uma visita.
Eu os conheci alguns anos atrás quando eles ainda estavam no colégio. Parece que eles decidiram se aventurar pela cidade e acabaram encontrando a minha casa. Num dia em que eu decidi sair para o jardim para brincar. Eles acabaram me descobrindo e mais tarde viramos amigos. Meu pai não gostou nada disso no início, mas com o tempo os dois ganharam a confiança dele. Inclusive de vez em quando eles ajudam em algumas tarefas aqui em casa. Ninguém além dos dois sabe da minha existência.
Hoje eles pareciam um pouco mais felizes do que o normal. E ultimamente eles tem parecido estar muito chegados. Queria poder passar mais tempo com o Miguel do jeito que a Jéssica passa. É normal eu sentir ciúmes dele? Será que eu estou… Não. Deixa pra lá. Forramos um plástico no gramado e nos sentamos ali no jardim e conversamos sob a luz do luar. As nuvens já tinham se dissipado do céu. Não iria chover por um bom tempo. Ficamos ali conversando por horas.
- Eu tive um sonho essa noite. - Começou Jéssica com suas conversas sobre temas astrais - Nós éramos os reis e rainhas e eles leram os nossos nomes. Todas as pessoas pra quem já tivemos que provar alguma coisa. Eles descobriam que eramos realeza a partir de algum documento e passavam a nos respeitar. Não tínhamos que sentir vergonha nem nos preocupar com mais nada. Qualquer gosto, decisão ou vontade era respeitada e ninguém ousava nos dizer não. Isso seria incrível não acham? Ninguém ia te julgar por ser feito de papel. Ninguém ia me forçar a seguir uma carreira que não quero. Ninguém ia poder impedir o Miguel de viajar pelo mundo por causa de compromissos nessa cidade. Seriamos livres de verdade.
- É seria incrível, Jéssica. - Continuou Miguel - Mas não fica sonhando muito, porque essa sua realidade aí tá bem distante. É melhor nos contentarmos com o que temos aqui e agora. A vida não vai ficar muito diferente disso. As pessoas tentam mudar, mas no fim continuam sendo a mesma coisa. É assim com todo mundo...
- Ah, para com essa conversa chata. - Jéssica interrompeu quando começou a ficar entediada - Nem parece você. Acho que temos que continuar tentando conseguir o melhor pra nós. Independente do desafio. Buscar nossos sonhos. E se der errado… Bem, nós tentamos, e saberemos que demos nosso melhor. Mesmo que isso leve ao nosso fim. Arruinar-se pela poesia é uma honra. Existe algo mais poético do que seguir nossas maiores ambições e desejos?
Eles dois só voltaram pra casa de madrugada. Eu fiquei mais um tempo acordado dentro de casa, só perambulando. Eu tentei, mas não consegui dormir direito essa noite. Tinha muita coisa surgindo na minha cabeça ao mesmo tempo. Eu não sabia o que fazer e o que não fazer. Estava tudo muito confuso. Quando meu pai acordou fui conversar com ele pedindo algum conselho. Esperava que ele tivesse a resposta certa para mim. Não. Na verdade não é isso o que esperava dele. O que esperava dele era confiança na minha decisão, que eu já havia tomado.
- Imaginei que essa conversa fosse chegar logo, ainda mais depois do que te disse ontem. - começou ele - É uma grande decisão a ser feita. Você quer sair e viver, mas não sabe se está pronto e não tem como saber o que vem logo depois, digo, qual será a reação das pessoas. Essa sensação de incerteza me lembra da sua mãe. Antes dela surtar no seu parto, era uma pessoa bem corajosa. A maior aventura é não saber o que pode acontecer, ela dizia. Pena que ela esqueceu disso. Seja qual for a sua decisão eu vou aceitar e apoiar. Acho que eu já controlei a sua vida por tempo demais. É sua vez de tomar as rédeas agora. Eu estarei aqui quando precisar.
Então é isso. Chega de ter medo. Liguei pro Miguel e Jéssica. Hoje eles vão me acompanhar numa volta pela cidade. Saio pela porta da frente. E pela primeira vez vou ver de verdade o que tem além dessa velha do interior. Eu parei de sofrer pelo que eu não conheço. Se foi ou não uma boa decisão, eu descubro depois.


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