Eu devia ter deixado
você morrer quando tive a chance. Já estava tudo pronto para você ir embora,
mas eu lutei bravo e sozinho pela sua vida. Tudo teria sido tão mais fácil se
você tivesse morrido naquele dia. Ora, não me condene. Sua vida é uma ameaça constante
a minha. No final das contas, você sabe muito bem que eu seria mais feliz se
você morresse.
Deveria ser eu, aquele
a lhe cravar uma adaga no peito e gritar pela vitória. Deveria ser eu a
matar-te. Você olharia para mim com seus olhos ensanguentados e choraria e eu
responderia com um sorriso sarcástico de eu
venci e você me deixaria de uma vez por todas, livre e são.
Talvez eu tenha te
poupado para fazer algo ainda mais cruel. Talvez a minha alma precise ser
ameaçada pela sua vida. Talvez eu tenha deixado para te matar quando você
estiver mais feliz. Quando você sorrir e me procurar com um buquê de flores,
talvez aí eu te mate. E pode ter certeza, não será um punhalzinho qualquer ou
uma faquinha afiada. Será uma morte dolorosa e lenta, um ritual completo, um
anseio para que você morra e seu corpo seja bem enterrado.
Quem sabe eu não uso
uma corda? Uma linha de nylon nem muito fina, nem muito grossa. Perigosa o suficiente para envolver seu
pescoço de uma só vez. Com esse abraço, em volta do seu lindo pescocinho, sua
vida se despediria da minha, por um fio. Talvez tenha algum sangue. Talvez
nenhuma gota escorra. A graça é justamente o mistério que tudo isso iria
envolver. Só mais um mistério, somado a todos os outros mistérios que você
trouxe para a minha vida. Quem lhe disse que eu gostava de tanta dor?
Enquanto você
agonizaria, eu iria lhe contar toda a história de como eu enlouqueci. De como o
paraíso da minha vida se tornou um inferno com você ao meu lado. A gente ia
rir. Eu vejo a gente rindo. É lindo rir da tragédia não é? Você riria. E eu
soltaria uma gargalhada que ecoaria e talvez te deixasse com uma leve dose de
surdez.
Ora, vamos lá, seria
divertido. Um joguinho a mais. Uma provinha de confiança. Será que eu teria paciência
para te esperar morrer? Será que você conseguiria me convencer a te matar mais
rápido? Quem não gosta de um bom joguinho? Um ilusionismo. Um teatrinho. UM
SHOW DE MÁGICA! Nada nesta manga. Nem nesta. Mas espere um momento! O que é
isso saindo da sua boca? Seria mais uma mentira? Mais uma enganação? Ou seria
um pedaço bem generoso da sua língua? Escolha: A, B ou C?
Tudo é uma questão de
escolha. Você pode escolher. Eu não sou tão mau. Entenda, eu não quero matar
você. Eu me contento em te machucar bastante e bem devagar. A morte é uma
opção sua. Só uma pequenininha parte do meu espetáculo. Abracadabra! Alacazan!
Uma risadinha, as luzes se apagam e o show termina.
Venha, meu amor, venha
cumprir sua parte no espetáculo. Venha conhecer minha assistente de palco.
Venha para os braços...
...da morte.

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