segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Para o próximo número, preciso de um voluntário

Eu devia ter deixado você morrer quando tive a chance. Já estava tudo pronto para você ir embora, mas eu lutei bravo e sozinho pela sua vida. Tudo teria sido tão mais fácil se você tivesse morrido naquele dia. Ora, não me condene. Sua vida é uma ameaça constante a minha. No final das contas, você sabe muito bem que eu seria mais feliz se você morresse.

Deveria ser eu, aquele a lhe cravar uma adaga no peito e gritar pela vitória. Deveria ser eu a matar-te. Você olharia para mim com seus olhos ensanguentados e choraria e eu responderia com um sorriso sarcástico de eu venci e você me deixaria de uma vez por todas, livre e são.

Talvez eu tenha te poupado para fazer algo ainda mais cruel. Talvez a minha alma precise ser ameaçada pela sua vida. Talvez eu tenha deixado para te matar quando você estiver mais feliz. Quando você sorrir e me procurar com um buquê de flores, talvez aí eu te mate. E pode ter certeza, não será um punhalzinho qualquer ou uma faquinha afiada. Será uma morte dolorosa e lenta, um ritual completo, um anseio para que você morra e seu corpo seja bem enterrado.

Quem sabe eu não uso uma corda? Uma linha de nylon nem muito fina, nem muito grossa.  Perigosa o suficiente para envolver seu pescoço de uma só vez. Com esse abraço, em volta do seu lindo pescocinho, sua vida se despediria da minha, por um fio. Talvez tenha algum sangue. Talvez nenhuma gota escorra. A graça é justamente o mistério que tudo isso iria envolver. Só mais um mistério, somado a todos os outros mistérios que você trouxe para a minha vida. Quem lhe disse que eu gostava de tanta dor?

Enquanto você agonizaria, eu iria lhe contar toda a história de como eu enlouqueci. De como o paraíso da minha vida se tornou um inferno com você ao meu lado. A gente ia rir. Eu vejo a gente rindo. É lindo rir da tragédia não é? Você riria. E eu soltaria uma gargalhada que ecoaria e talvez te deixasse com uma leve dose de surdez.

Ora, vamos lá, seria divertido. Um joguinho a mais. Uma provinha de confiança. Será que eu teria paciência para te esperar morrer? Será que você conseguiria me convencer a te matar mais rápido? Quem não gosta de um bom joguinho? Um ilusionismo. Um teatrinho. UM SHOW DE MÁGICA! Nada nesta manga. Nem nesta. Mas espere um momento! O que é isso saindo da sua boca? Seria mais uma mentira? Mais uma enganação? Ou seria um pedaço bem generoso da sua língua? Escolha: A, B ou C?

Tudo é uma questão de escolha. Você pode escolher. Eu não sou tão mau. Entenda, eu não quero matar você. Eu me contento em te machucar bastante e bem devagar. A morte é uma opção sua. Só uma pequenininha parte do meu espetáculo. Abracadabra! Alacazan! Uma risadinha, as luzes se apagam e o show termina.

Venha, meu amor, venha cumprir sua parte no espetáculo. Venha conhecer minha assistente de palco.

Venha para os braços...


...da morte.


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