Aquela foi a primeira vez que eu e minha mãe fomos juntas ao circo, depois de eu insistir por semanas. Isso foi pouco depois do meu aniversário de quinze anos, quando ela me contou que meu pai havia nos abandonado pra tentar a sorte como trapezista. O sonho de infância dele era fazer parte de alguma das grandes companhias de circo, como o Cirque du Soleil. Ele nunca mais apareceu ou mando notícias, nem pra minha mãe nem pra própria família dele. Nem um cartão postal. Uma mensagem de aniversário. Uma foto. Nada.
Era tudo muito mágico e envolvente, o que me fez questionar se era isso o que meu pai sentia com aquilo tudo também. Se a sensação de estar ali, do outro lado, mantendo acesa alguma esperança ou conforto no coração de pessoas como eles era mais valioso do que nós duas. Não tenho vontade de saber onde ele está, o que está fazendo ou se realizou seu sonho. Eu só gostaria de saber se era aquilo diante de mim que encantava a ele.
Eis que vejo então, escondido por detrás de um pano, um jovem charmoso. O mágico, deduzi pela roupa. Estava muito jovem para ser um daqueles grandes mágicos de circo, mas resolvi dar uma chance ao seu espetáculo.
Observei atentamente quando pôs a cartola furada em cima da mesa também furada e puxou um coelho de pelúcia todo encardido e mostrou para a plateia. Ou quando ele trouxe uma mulher embriagada com seus 45 anos e a deitou sobre uma caixa, pedindo-a para empurrar pernas de plástico no fundo da caixa para que a "serrasse", deixando cair no chão as pernas que obviamente não eram dela, já que ela era parda e as pernas no chão eram absurdamente pálidas.
Já final do show pedi a minha mãe para "ir banheiro". Disse "ir ao banheiro" pois se dissesse a ela que queria dar uma espiadinha no camarim, ela provavelmente não deixaria. Corri até a porta do mágico e me deparei com ele.
Após um pequeno papo, descobri que seu nome era Francisco e que ele era apenas dois anos mais velho do que eu. Trocamos número para o whatsapp e passamos a nos falar.
Agradeci a minha mãe pelo passeio milhares de hoje, acho que até a hoje ela acha que foi por causa do show de décima quinta categoria, e ela nem fazia ideia do real motivo.
Após vários encontros calorosos com Francisco, ele me pediu para seguir viagem com o circo. Afinal, o tempo deles ali estava acabado. Ele me contou que as pessoas do circo moravam todas juntas e que de tempos em tempos eles voltavam para o local de estadia, visitar os mais velhos que não podiam mais seguir em turnê.
O circo então estava indo para uma cidade no Sul antes de voltar ao Nordeste. Na calada da noite, peguei algumas roupas e saí sem falar com minha mãe. Um desejo enorme dentro de mim me dizia que eu jamais conseguiria explicar para ela a minha paixão pelo circo, assim como meu pai.
Ficamos alguns meses rodando por cidades no Sul até que Francisco me falou que o circo ia dar um tempo nas turnês para visitar os mais velhos. Ele estava ansioso em me apresentar ao pai, e eu também não via a hora de contar ao meu sogro sobre o bebê circense que eu carregava na barriga.
Assim que botei os pés na pequena casa de meu sogro e olhei para as fotos na estante dianteira, percebi os milhares semelhanças do homem com sua cria. Fiquei completamente sem chão.



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