O homem na foto
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or onde passávamos,
todos olhavam. Não é algo muito comum observar a guarda real acompanhando dois
desajustados em roupas usuais. Apesar da nossa insistência para prosseguirmos
sozinhos, a guarda seguia para todos os cantos. Eu estava mais incomodado com a
presença constante daqueles homens do que Sherlock. O detetive mais parecia
seguir em seu mundo particular, atrás de pistas que apontassem para o
desaparecimento de seu irmão.
Seguimos o endereço que
constava na ficha de Allan Winston Jones. Até onde Sherlock teve a paciência de
explicar, Mycroft guardava registros de todos aqueles que trabalhavam nas
Embaixadas de Londres. Allan, ao que parecia, era um executivo britânico que
gerenciava um dos setores de comunicação internacional. Um sujeito com uma
ocupação tão expositiva e tão conhecida. Por que alguém como ele roubaria uma
simples foto de um registro particular?
Caminhamos até o
apartamento de Allan. Segundo Sherlock, o homem estaria em casa com certeza.
Não imaginei o que lhe transmitia tanta segurança, mas o segui fielmente. Assim
que chegamos a uma casa discreta, Holmes parou e fez sinal para a guarda ficar
montada nos acessos da casa. O detetive bateu na porta com o nó dos dedos e uma
lustrosa mulher atendeu.
‒ Senhora, precisamos
fazer uma varredura na sua casa, se nos permite. ‒ Declamou Sherlock. A senhora,
assustada, permitiu nossa entrada e fechou a porta logo atrás de mim. Observei
pelos cantos. A mulher não usava aliança. Seria mãe de Allan ou apenas uma
funcionária da sua casa?
Sherlock pediu por um
copo de água e sentou-se em uma poltrona em frente à lareira. Sentei-me à sua
frente e esperei por algum sinal de que começaríamos a vasculhar. A mulher
trouxe o copo de água e Sherlock serviu-se de imediato. Ao terminar,
levantou-se, olhou nos olhos da mulher apavorada e prosseguiu:
‒ Com licença, como posso
chamá-la?
‒ Edengard. Virginia
Edengard. ‒ Suas mãos tremiam apavoradas com uma simples pergunta de Sherlock.
‒ A sua casa... A
senhora mora sozinha, Sra. Edengard?
‒ Não, não. Eu alugo o
quarto lá de cima para um rapaz. Walt-Walter
Olsen.
‒ Walter Olsen?‒ Perguntou Sherlock. ‒ Não o conheço.
Sabe-me dizer qual seu ofício?
‒ Ele trabalha no
jornal. É só o que sei. Por favor, não me levem.
‒ Acalme-se, Sra.
Edengard. Não há nada que prossiga contra a senhora. Estamos procurando um de
seus visinhos: Allan Winston Jones. Tudo o que precisamos é usar a sua porta
dos fundos, se nos permite.
A senhora nos guiou por
um corredor e saímos da casa pelos fundos. Sherlock usou uma lata de lixo como
apoio e pulou a mureta que separava os dois terrenos. Segui seus movimentos e
finalmente cruzamos para a outra casa. A apavorada Sra. Edengard correu
desesperada para dentro da sua moradia.
‒ Qual o sentido de
tudo isso, Sherlock?‒ Perguntei desentendido.
‒ Ora, Watson, não
podíamos chamar tanta atenção. Aqueles guardas parados na entrada da casa? Não.
Somos detetives particulares. Isso significa que não podemos chamar tanta
atenção. Venha, esta é a casa de Allan Winston Jones.
Com um movimento
furtivo, Sherlock destrancou a porta dos fundos da casa e entramos. Apesar de uma
aura bastante silenciosa, não parecia que a casa estava desocupada. Ele parecia
ter certeza disto. O detetive apanhou uma cenoura em uma sacola de compras que
avistou e a escondeu no bolso interno do casaco.
Eu o segui por um
corredor pouco iluminado até a sala de estar. Havia um homem na casa. O homem,
de no máximo uns 35 anos, fumava um cachimbo em frente a lareira enquanto
parecia ler algo. Sherlock aproximou-se lentamente e parou a uma distância
segura do homem.
‒ Allan Winston Jones?
Allan pulou da poltrona
com uma tremenda voracidade. Assim que ele olhou para Sherlock, ajoelhou-se no
chão e começou a rezar enquanto pedia em voz alta para não ser morto. Percebi
que o Sr. Holmes apontava-lhe a cenoura por debaixo do sobretudo. Uma
brincadeira de muito mal gosto por sinal.
‒ Fique calmo, Sr.
Jones. Não estamos aqui para matá-lo. Contanto que nos indique por onde anda
Mycroft Holmes. ‒ Anunciou Sherlock com a voz mais segura de si que eu já tinha
o visto fazer em todos estes anos de serviço.
‒ Por favor! Eu não
sei! Não faço a menor ideia de onde esteja Mycroft. Eu o vi pela última vez há
dois dias. Ele veio me procurar para falar sobre a foto do meu registro. Por
favor, não atire!‒ Gritou o homem em completo desespero. Em todos estes anos,
já vi Sherlock fazer muitas coisas, e sempre o vi fazer a coisa certa, mas não
pude deixar de ter pena do pobre homem atirado no chão, morto de pavor.
‒ Sim, a foto. O que há
com ela? Por que Mycroft queria que você o dissesse algo?
‒ Havia um homem. Eu
nunca o vi passar, não sei quem é, mas sei que Mycroft procurava pelo homem que
aparecia na foto.
‒ O que ele fazia nesta
foto? Por que ela é tão importante?
‒ Eu não sei! Por
favor. Eu não sei. Não fazia nada que eu pudesse enxergar. Mycroft sabia. Ele é
quem queria saber. ‒ O homem chorava de se debater no chão. Tive muita pena do
sofrimento vão do coitado. Toquei no ombro de Sherlock e pedi para ele acabar
com o interrogatório. Ele obedeceu e jogou a cenoura aos pés de Allan. O pobre
homem se atirou no chão e começou a rezar em voz alta.
Deixamos a casa pela
porta da frente e fizemos sinal para a guarda real que saiu correndo em nossa
direção sem entender. Expliquei que precisávamos de descrição e que não
estávamos conseguindo fazer o nosso trabalho com a presença da guarda no nosso
encalço. Disseram-nos que estariam liberados de suas funções até que o Inspetor
Lestrade nos alcançasse. Seria ele o homem que nos acompanharia na
investigação.
Sherlock explicou que
Allan Winston Jones era inocente, mas que imaginava que o homem não seria
direto em seu depoimento e ameaçou-o para ver se conseguia cumprir seu objetivo
mais rapidamente.
‒ Watson, agora temos
um caso!


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