O desaparecimento de Mycroft Holmes
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ra mais uma manhã
nublada no 221B da Rua Baker, fui fazer uma visita rotineira ao meu velho amigo
Sherlock Holmes. Nossas visitas haviam se tornado uma raridade após meu
casamento, mas eu havia prometido que continuaria passando por lá, ao menos
duas vezes por semana. Alguém precisa lembrar ao incrível Detetive Holmes que
as louças não se lavam nem se recolhem sozinhas. Aprendi depois de todos esses
anos que as mentes mais brilhantes também são as mais difíceis de lidar.
‒ Watson, meu amigo,
acho que perdi o arco do meu violino outra vez.‒ Disse-me o brilhante Sherlock
Holmes. Quando diz que perdeu alguma coisa, raramente é verdade. Geralmente,
ele quer que eu procure e, quando eu achar, provavelmente estará próximo a
algum bilhete ou carta de algum cliente. Nunca descobri por que ele nunca me
disse diretamente. De toda forma, fiz o que todo mundo faz quando se procura
por um objeto perdido.
‒ Lembra-se de quando o
viu pela última vez?‒ Pergunta mais idiota a se fazer para Sherlock Holmes. Era
claro que ele se lembrava. Ele sempre lembra.
‒ Eu compunha mais uma
de minhas canções, quando de repente o telefone tocou. Pensei que pudesse ser
você, meu velho amigo, mas, curiosamente, era a voz de uma mulher. Que mulher?
Você me pergunta. Mary? Ora, claro que não. Sra. Mary Watson não faz uma
ligação para a Rua Baker desde o dia em que você se mudou. Sra Hudson, talvez?
Não, a voz era jovial demais. Minha mente logo voou para Irene Adler, mas
recordei-me de seu falecimento há anos atrás. Quem poderia? Uma voz nova, com
certeza...
‒ Sherlock, direto ao
ponto!
Ele me olhou como se eu
tivesse tirado toda a sua diversão. Sua história sem pé nem cabeça era apenas a
sua forma de me contar sobre o seu mais novo caso. Ele sabia onde estava o arco
do violino. Lógico que sabia. Com um pequeno gesto, ele olhou para a lareira e
pude perceber o arco deixado indevidamente frente ao fogo aceso. Sherlock se
levantou, ajeitou o sobretudo e apanhou um cachimbo em um dos bolsos.
‒ A ligação era da
Companhia da Rainha. Mycroft está desaparecido. Temos vinte e quatro horas para
encontrá-lo, antes que a Inglaterra tenha uma crise.
‒ Mycroft? Mycroft
Holmes? Seu irmão? Sherlock, isto é muito sério. Por que você acha que haverá
uma crise?‒ Perguntei um tanto atordoado.
‒ Porque a Rainha não
consegue limpar as próprias nádegas sem Mycroft para sentir o odor.
*
* *
Rapidamente, fomos
escoltados para os aposentos de Mycroft Holmes, a terceira mente mais brilhante
que eu já havia conhecido. Sherlock era a primeira, naturalmente. A segunda era
uma velha nêmesis do meu amigo que fora derrotada há algum tempo, chamada James
Moriarty. Eu ainda tenho minhas dúvidas quanto à derrota do Professor Moriarty,
mas Sherlock parece ter certeza absoluta. Às vezes também erra.
Guardas cercavam o
local a todo custo. Imaginei se esperavam pelo retorno de Mycroft. Todos por
ali andavam com muita elegância, muita pompa. Sherlock vasculhou com seu olhar
pelos cantos do quarto. Atrás da porta,
a cartola habitual de Mycroft faltava. Também seu anteparo (talvez seria
educado não chamar de bengala) não parecia estar em lugar algum.
‒ Definitivamente, meu
irmão saiu com a intenção de encontrar-se com alguém. Devemos procurar por
algum objeto que ele não levaria normalmente. ‒ Manifestou-se Sherlock.
Abri o armário. Um
guarda gemeu atrás de mim, mas pareceu ter sido repreendido por alguém.
Continuei buscando. Ao contrário de Sherlock, Mycroft era pura elegância,
sofisticação e uma pessoa muito ordenada. Suas gavetas todas tinham
identificação. “Roupas debaixo”, “Meias”, “Abotoaduras”, “Gravatas”. Uma caixa
parecia ter sido revirada dentro do armário. Retirei a caixa com cuidado e
coloquei em cima da cama. Sherlock percebeu meu movimento e foi até minha
posição.
‒ Brilhante, Dr.
Watson!
‒ Encontrei no armário
do seu irmão. Para alguém organizado ao extremo, esta bagunça não parece ter
sido feita por ele.
‒ Você iria se
surpreender com as coisas que meu irmão pode fazer, Watson. No entanto, você
está coberto de razão. Não é do feitio de Mycroft desarrumar seu formigueiro. A
menos que...
‒ A menos que não tenha
sido ele!‒ Gritei minha descoberta magnífica. Os guardas cochichavam perto da
porta. Pareciam discutir a falha na segurança recentemente descoberta.
‒ Sua mente limitada me
surpreende, meu amigo. Pense melhor. Que situação faria uma pessoa organizada
descuidar-se com seus pertences?
Pensei por uns
instantes. Nada. Só me enfurecia com o habitual destrato que eu acabava de
sofrer.
‒ Pressa. Na certa,
Mycroft notou a ausência de algum pertence e voou para encontrá-lo. Ele sabia o
que estava faltando e quem possuiria o objeto.‒ Discursou Sherlock.
‒ Como tem certeza que
ninguém invadiu o quarto?
‒ Primeiro, a segurança
daqui pode não ser das melhores, mas duvido que alguém ousaria invadir uma
instalação de renome como esta. Segundo, quem seria descuidado o suficiente
para deixar uma bagunça? Um rastro de sua passagem por aqui? Isso é obra de um
compulsivo por arrumação que se descuidou porque tinha pressa para retomar um
objeto perdido. Agora, que objeto seria esse?
Sherlock abriu a caixa
sobre a cama e observou seu conteúdo. Papéis. Vários papéis. Documentos do
Parlamento real, fotos, arquivos. A caixa guardava informações confidenciais a
cerca de algumas pessoas cujos nomes eu nunca havia ouvido em qualquer
circunstância. Todos os arquivos continham informações detalhadas a cerca de
cara indivíduo fichado. Junto à ficha, uma foto vinha guardada presa a um clipe
de papel.
O Detetive Holmes pegou
uma das fichas e observou atentamente. Procurei descobrir entre os papéis quem
eram os indivíduos fichados e por que Mycroft teria tantos registros assim
dentro de sua própria casa.
‒ Nosso trabalho está
feito, Dr. Watson. Já sabemos por o que procuramos.
‒ E o que é que foi
levado?
‒ Uma foto. A foto do
registro de Allan Winston Jones.


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