sábado, 15 de agosto de 2015

Holmes: Capítulo 1


O desaparecimento de Mycroft Holmes    

E
ra mais uma manhã nublada no 221B da Rua Baker, fui fazer uma visita rotineira ao meu velho amigo Sherlock Holmes. Nossas visitas haviam se tornado uma raridade após meu casamento, mas eu havia prometido que continuaria passando por lá, ao menos duas vezes por semana. Alguém precisa lembrar ao incrível Detetive Holmes que as louças não se lavam nem se recolhem sozinhas. Aprendi depois de todos esses anos que as mentes mais brilhantes também são as mais difíceis de lidar.
‒ Watson, meu amigo, acho que perdi o arco do meu violino outra vez.‒ Disse-me o brilhante Sherlock Holmes. Quando diz que perdeu alguma coisa, raramente é verdade. Geralmente, ele quer que eu procure e, quando eu achar, provavelmente estará próximo a algum bilhete ou carta de algum cliente. Nunca descobri por que ele nunca me disse diretamente. De toda forma, fiz o que todo mundo faz quando se procura por um objeto perdido.
‒ Lembra-se de quando o viu pela última vez?‒ Pergunta mais idiota a se fazer para Sherlock Holmes. Era claro que ele se lembrava. Ele sempre lembra.
‒ Eu compunha mais uma de minhas canções, quando de repente o telefone tocou. Pensei que pudesse ser você, meu velho amigo, mas, curiosamente, era a voz de uma mulher. Que mulher? Você me pergunta. Mary? Ora, claro que não. Sra. Mary Watson não faz uma ligação para a Rua Baker desde o dia em que você se mudou. Sra Hudson, talvez? Não, a voz era jovial demais. Minha mente logo voou para Irene Adler, mas recordei-me de seu falecimento há anos atrás. Quem poderia? Uma voz nova, com certeza...
‒ Sherlock, direto ao ponto!
Ele me olhou como se eu tivesse tirado toda a sua diversão. Sua história sem pé nem cabeça era apenas a sua forma de me contar sobre o seu mais novo caso. Ele sabia onde estava o arco do violino. Lógico que sabia. Com um pequeno gesto, ele olhou para a lareira e pude perceber o arco deixado indevidamente frente ao fogo aceso. Sherlock se levantou, ajeitou o sobretudo e apanhou um cachimbo em um dos bolsos.
‒ A ligação era da Companhia da Rainha. Mycroft está desaparecido. Temos vinte e quatro horas para encontrá-lo, antes que a Inglaterra tenha uma crise.
‒ Mycroft? Mycroft Holmes? Seu irmão? Sherlock, isto é muito sério. Por que você acha que haverá uma crise?‒ Perguntei um tanto atordoado.
‒ Porque a Rainha não consegue limpar as próprias nádegas sem Mycroft para sentir o odor.
* * *
Rapidamente, fomos escoltados para os aposentos de Mycroft Holmes, a terceira mente mais brilhante que eu já havia conhecido. Sherlock era a primeira, naturalmente. A segunda era uma velha nêmesis do meu amigo que fora derrotada há algum tempo, chamada James Moriarty. Eu ainda tenho minhas dúvidas quanto à derrota do Professor Moriarty, mas Sherlock parece ter certeza absoluta. Às vezes também erra.
Guardas cercavam o local a todo custo. Imaginei se esperavam pelo retorno de Mycroft. Todos por ali andavam com muita elegância, muita pompa. Sherlock vasculhou com seu olhar pelos cantos do quarto.  Atrás da porta, a cartola habitual de Mycroft faltava. Também seu anteparo (talvez seria educado não chamar de bengala) não parecia estar em lugar algum.
‒ Definitivamente, meu irmão saiu com a intenção de encontrar-se com alguém. Devemos procurar por algum objeto que ele não levaria normalmente. ‒ Manifestou-se Sherlock.
Abri o armário. Um guarda gemeu atrás de mim, mas pareceu ter sido repreendido por alguém. Continuei buscando. Ao contrário de Sherlock, Mycroft era pura elegância, sofisticação e uma pessoa muito ordenada. Suas gavetas todas tinham identificação. “Roupas debaixo”, “Meias”, “Abotoaduras”, “Gravatas”. Uma caixa parecia ter sido revirada dentro do armário. Retirei a caixa com cuidado e coloquei em cima da cama. Sherlock percebeu meu movimento e foi até minha posição.
‒ Brilhante, Dr. Watson!
‒ Encontrei no armário do seu irmão. Para alguém organizado ao extremo, esta bagunça não parece ter sido feita por ele.
‒ Você iria se surpreender com as coisas que meu irmão pode fazer, Watson. No entanto, você está coberto de razão. Não é do feitio de Mycroft desarrumar seu formigueiro. A menos que...
‒ A menos que não tenha sido ele!‒ Gritei minha descoberta magnífica. Os guardas cochichavam perto da porta. Pareciam discutir a falha na segurança recentemente descoberta.
‒ Sua mente limitada me surpreende, meu amigo. Pense melhor. Que situação faria uma pessoa organizada descuidar-se com seus pertences?
Pensei por uns instantes. Nada. Só me enfurecia com o habitual destrato que eu acabava de sofrer.
‒ Pressa. Na certa, Mycroft notou a ausência de algum pertence e voou para encontrá-lo. Ele sabia o que estava faltando e quem possuiria o objeto.‒ Discursou Sherlock.
‒ Como tem certeza que ninguém invadiu o quarto?
‒ Primeiro, a segurança daqui pode não ser das melhores, mas duvido que alguém ousaria invadir uma instalação de renome como esta. Segundo, quem seria descuidado o suficiente para deixar uma bagunça? Um rastro de sua passagem por aqui? Isso é obra de um compulsivo por arrumação que se descuidou porque tinha pressa para retomar um objeto perdido. Agora, que objeto seria esse?
Sherlock abriu a caixa sobre a cama e observou seu conteúdo. Papéis. Vários papéis. Documentos do Parlamento real, fotos, arquivos. A caixa guardava informações confidenciais a cerca de algumas pessoas cujos nomes eu nunca havia ouvido em qualquer circunstância. Todos os arquivos continham informações detalhadas a cerca de cara indivíduo fichado. Junto à ficha, uma foto vinha guardada presa a um clipe de papel.
O Detetive Holmes pegou uma das fichas e observou atentamente. Procurei descobrir entre os papéis quem eram os indivíduos fichados e por que Mycroft teria tantos registros assim dentro de sua própria casa.
‒ Nosso trabalho está feito, Dr. Watson. Já sabemos por o que procuramos.
‒ E o que é que foi levado?
‒ Uma foto. A foto do registro de Allan Winston Jones.


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