sexta-feira, 17 de julho de 2015

Os cegos do castelo


Há muito tempo eu habito uma existência que eu escolhi. Sim, é verdade, eu escolhi estar aqui. Você realmente acha que ninguém sofre porque quer? Nós queremos sim. Nós habitamos uma existência cega a qual chamamos vulgarmente de “Castelo”. Poderia ser o que quiséssemos chamar, mas optamos por chamar de Castelo. É onde nos reunimos para chorar as mágoas de amor. “O amor é cego”. Sim, ele é. Todos somos. Todos somos cegos do Castelo. Vivemos neste mundinho recluso chorando as dores que guardamos do amor. Afinal, isso é amar. Se ninguém sofrer, não haverá amor. O amor é essencialmente o sofrimento que nos segue.
Mas hoje eu acordei diferente. Acordei sem querer vestir o sofrimento de sempre, sem querer sentir os espinhos das flores e sem enxergar o caos que costumava me hipnotizar. O que eu estou fazendo aqui? Será o Castelo o meu lugar? Por muito tempo eu pensei que fosse. Por que eu estou sorrindo? Não há motivo para sorrir. O amor não pode ser feito de sorrisos. Quero entender o porquê de tudo isso. Minhas bochechas doloridas e rosadas me dizem que eu passei a enxergar. Não estou mais cego? O que houve com o amor que me cegava? Será que isso é realmente amor? Não pode ser. Amor é dor. Foi o que eu aprendi no Castelo. Maldito Castelo, parece muito mais com um casebre. O que eu estou fazendo aqui? Não sou um cego do Castelo, sou?
Despeço-me dos cegos do Castelo. Eu vou. Vou encontrar um lugar para mim. Um lugar onde eu terei tudo o que procuro. Onde o sofrimento não terá espaço. Um lugar onde o amor é mais deste jeito que agora eu vejo. Eu vejo tudo. Eu não quero mais uma mentira. Eu quero ver as coisas da forma como elas são. Eu quero me esbanjar no amor que eu descobri, na felicidade que eu encontrei. Do lado de fora do Castelo, o sol me parece muito mais bonito e a morte me parece uma opção muito pouco aconselhada. Que razões eu teria para desejar a morte? Eu quero o amor. E só o amor.
Agora, do lado de fora, eu vejo como os cegos do Castelo estavam perdidos. O amor deles é barato, é fútil. Eles aceitaram a dor do amor simplesmente porque não conseguem pensar em algo melhor. Eu consegui. Se eles ao menos pudessem ver o mundo... Se viessem para o lado de fora, veriam que o mundo é muito mais colorido do que cinza.
Depois de sair do Castelo, finalmente pude ver a felicidade. Não àquela felicidade da qual os cegos falavam. Encontrei uma felicidade só minha. Uma jardineira. A mulher de dedos finos e pele delicada acariciava suas flores murchas. Ela conhece o Castelo. Me falava de um lugar que todos diziam ser bom. Então eu contei a ela. Eu disse tudo o que eu sabia. O Castelo não é o melhor lugar do mundo. Não há beleza no sofrimento dos cegos. Toda a beleza que eu já tinha visto estava bem ali, entrelaçada nos dedos da jardineira.
Sentei-me a mesa e não tirei os olhos da moça. Ela rebolava de um lado para o outro e cada movimento seu era mais suave e mais belo. Agradeci por poder ver tudo aquilo. Tentei me perguntar se valeria a pena levá-la até o Castelo, para os outros verem também. Mas esta beleza é só minha. Mais vale a pena ficar e ajudá-la com o jardim. Eu lhe pedi para me ensinar e ela ensinou. Contou-me tudo o que sabia. Eu fiquei e ajudei com o jardim, eu ajudei com o jantar, eu encontrei um lar junto a ela. E ali ficamos.

Eu estava certo quando deixei o Castelo. Eu não sou um cego do Castelo.  Eu vejo mais do que um cego. O amor não é cego. Ele enxerga muito bem e não se enclausuraria em um Castelo imundo e silencioso. Eu colho amor no jardim todos os dias. Junto a jardineira eu sinto que tudo é possível. Juntos somos mais que cegos num castelo, somos amantes num jardim.


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