- Então, é esse o
problema?
- O senhor acha pouco?!
- De maneira alguma. Eu
não acho nada.
-Mas as pessoas acham.
Elas não param de falar de mim pelas costas...
- Será que elas estão
realmente falando?
- O que mais poderia ser?!
- Mania de perseguição.
Desde a primeira vez que veio aqui, você me contou que sua mãe era muito
desconfiada.
- Sim. Ela não me deixava
ter amigos, dizia que ninguém prestava.
- E então...
- Então apareceu aquele
amigo que eu mencionei. Ele me fez acreditar que eu podia confiar nele, até
vazar minha foto pra turma inteira.
- Então você acha que
está ficando desconfiada?! Igual a sua mãe?
- Não sei. Estou?
- Você disse que as
pessoas falavam da sua mãe... Diziam que ela tinha um...
- Um teto de vidro. Pra
poder ver o mundo enquanto estava indefesa dentro de casa.
- E você também tem esse
teto?
- Todos nós temos. –
solta uma gargalhada – Eu quero ver quem é capaz de fechar os olhos e descansar
em paz.
- Bem, você pode estar
certa até.
- Claro que estou. Eu me
lembro da vez em que vim para cá. Andei
por tantas ruas e lugares, passei observando quase tudo.Mudei, o mundo gira num segundo, e as pessoas
continuam lá, falando de mim. Se preparando para dar o bote.
- E o que exatamente elas estão esperando para... Dar o bote?
- Elas estão esperando que eu reforme meu lar. Que eu pinte meu teto de
preto. E elas nem desconfiam que eu sei que elas também desconfiam de mim.
- Então você supõe que todos desconfiam de todos?
- Claro. E quem não tem teto de vidro, que atire a primeira pedra.
- Você desconfia de você?
- De mim?! Claro que não.
- Então quem é você.
- Ora, eu sou eu.
- E por que está tentando se sabotar?
- Mas eu não estou...
- Então por que não aceita que você espalhou fotos do seu colega no
colégio?!
- Porque... Porque eu me arrependo.
- E a senhora desconfia de mim?
- De você?! Por quê? Eu deveria?
- Quem sou eu?
- Você é o Doutor. Minha mãe me recomendou que eu viesse l
- Não. Isso não é uma visita. E ela não é sua mãe.
- Então que é ela? Por que eu desconfio de todo mundo.
A porta abre novamente. O homem de preto chama.
- Srta. Priscilla?! Está na hora de voltarmos a seu quarto. – e levou a
mulher, novamente amarrada na camisa branca.

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