Poucas coisas são certeza neste mundo. Sabemos que vamos morrer, mas não sabemos quando. Sabemos das coisas que aconteceram, mas nem temos certeza se nossas memórias são a verdade. Tudo é muito escorregadio. É pedir demais ter uma certeza nesta vida? O mundo vai acabar. Isso é certo agora. Restam apenas dezoito horas de humanidade. Depois disso, incerteza novamente. Dezoito horas me separam da morte certa.
Finalmente números para eu trabalhar. Não dá para viver com tanta incerteza. Viver com probabilidades. A possibilidade de encontrar um amor, a perspectiva de um emprego decente, a esperança de conhecer o mundo... Nada disso. O mundo nos deu uma oportunidade. A chance de juntarmos o resto de coragem que ainda temos e viver as melhores dezoito horas das nossas vidas.
Se o mundo vai acabar de fato, não há necessidade de objetos. Eu não preciso de uma casa e de um celular, de carro, de milhares de roupas sapatos e tudo mais... Então vendo tudo para quem ainda quer comprar e com o dinheiro compro minha liberdade. Uma passagem só de ida para um lugar bem distante, no meio do nada. Talvez uma casa de madeira abandonada em uma floresta. Ouvi dizer que na Rússia existem algumas dessas.
Quero ouvir a madeira ranger sob meus pés enquanto eu estiver dançando. A dança da morte. Não quero morrer cercada de pessoas que vão sumir. Não quero ouvir os gritos desesperados daqueles que tem medo. A vida nos presenteou com a certeza de que iremos morrer muito em breve, então, é bom aproveitar. Imagine só como seria lindo estar no meio de uma floresta, sentindo o cheiro das árvores inundando a casa. E então, se eu desejasse, eu poderia colocar fogo na casa e tomar uma dose de veneno. Assim, meu mundo acabaria bem antes e eu seria a primeira a descobrir como é.
O fim do mundo não é um sofrimento, é liberdade. Não é medo, é coragem. É uma razão para fazermos tudo aquilo que está preso em nós. Quer beber até se afogar? Beba. Quer se jogar nos braços de um amor? Se jogue. Quer correr pelado com tudo balançando? Corra. Só... Não na minha frente por favor. A menos que seja alguém que valha a pena, aí podemos negociar. Qual o problema se eu me matar antes do mundo todo? Eu estarei morta ao fim das dezoito horas. A única diferença é ter escolhido a morte. Prefiro isso. Prefiro me recolher em uma casa de madeira e escolher a hora exata da minha morte. Quero ter o controle da minha vida por alguns segundos e escolher o que será de mim. Eu poderia viver o máximo possível, remoendo todas as coisas que eu não fiz, como a maioria do planeta, ou eu poderia cravar uma faca no meu peito e esquecer tudo o que eu fiz. Reset. Game Over. Fim do Jogo. A escolha é minha no fim das contas.
Que venha o fim do mundo. Que venha a destruição. Até porque, no fim do mundo, de que importa quem eu fui antes disso? A morte é imparcial. A morte é a única justiça.
Então será que não seria justo eu fazer o que quiser com minhas últimas horas?

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