sábado, 30 de maio de 2015

Se eu soubesse

-Sinto muito, senhor, mas não podemos fazer mais nada. - essas foram as palavras que destruíram minha vida.
Me deram três meses. Três meses para sobreviver , porém após esse período , minha vida terminaria.
Após essas palavras, peguei tudo meu e passei a viajar pelo mundo, gastando o que tinha e o que não tinha para conseguir fazer esses últimos dias , especiais.
-Está pronto ? - Rebeca apareceu na minha porta com um longo vestido vermelho tomara que caia brilhoso.
- Só mais uns instantes , meu bem. - disse ajeitando a gravata borboleta.
Rebeca era uma loira que conhecera em Paris e me acompanhara até aqui. Estávamos nos aprontando para um espetáculo circense que teria onde normalmente é o campo de futebol. Como estávamos nos Alpes da Suíça , o frio era intenso , porém uma técnica avançada mantinha o frio afastando , nos dando a possibilidade de andarmos sem roupas quentes. Me levantei da cadeira onde me arrumava encarando o espelho. Ainda não estava preparado para a morte certa, mas se era isso que estava destinado a mim, que pelo menos esses últimos momentos fossem... Marcantes. Ao sair do quarto a procura de Rebeca um calafrio me subiu a espinha, como se a morte estivesse perto, mas tenho a impressão de que era apenas o frio. Respirei fundo e fui para o saguão. Nathalie aguardava ansiosamente a sua amiga , porém também não a encontrava em lugar nenhum.
-Nathalie, oú est Rebeca? - apesar de ser amiga de Rebeca , Nathalie não falava minha língua.
Ela me respondeu sem ter a mínima ideia de onde sua amiga estava e se retirou.
Ajeitei o meu paletó e saí do saguão mergulhando no frio intenso devido à altitude. Alguns minutos não fariam mal a ninguém , principalmente a quem já estava prestes a mergulhar em um sono profundo. A zona na qual ficávamos aquecidos já havia terminado e o frio já me fazia tremer. Ao longe vi uma pessoa ajoelhada no chão um vestido brilhoso que logo reconheci. Era o vestido vermelho de Rebeca, e o ser ajoelhado era a própria. Ela detinha alguns papéis na mão e chorava desesperadamente . O vento cortante mexia seus cabelos. Ela me olhou com duas listras pretas escorrendo dos olhos por conta do choro.
-Como pode fazer isso comigo, sir? Os momentos que passamos, as noites que bailamos... Tudo para agora... -ela enxugou os olhos.
-Está muito frio aqui , Rebeca , por que não entramos e conversamos melhor? - olhei para sua outra mão que estava vermelha.
-No, sir. Não valerá a pena a vida sem você... Chega... - ela falou em um suspiro e deitou-se no chão.
Me ajoelhei ao seu lado vendo que o vermelho em sua mão era seu próprio sangue que saía de seu abdômen .
-Assim , após a morte ainda podemos nos ver... - foram suas últimas palavras.

Comecei a gritar por ajuda, mas já era tarde demais . Rebeca se matara com sucesso, e não mais me alegraria com seus sorrisos e piadas. O frio foi me invadindo aos poucos e fui deitando ao seu lado. A neve caía em meu rosto e ao longe podia ver a lua e as estrelas como um borrão. Se soubesse que hoje seria meu último dia... Se soubesse teria feito tudo diferente. Teria enfrentado todos os medos impostos a mim , daria flores a Rebeca , que sempre me pedira, mas nunca dera. Ao invés de ter feito um almoço no quarto junto a ela, teria ido ao melhor restaurante com a mais bela vista. Teria feito o tour tão desejado por ela. Se soubesse eu...


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