As lágrimas corriam por minhas
bochechas, enquanto meus dedos passeavam pelas fotos do álbum. Tantas
memórias... Eu tive uma vida ótima e sabia reconhecer isso. Não estava pronta
para (ou não queria) dizer adeus a ela, esse era o problema.
Eu não tinha medo da morte, até
descobrir que tinha pouco tempo de vida. Um vírus desconhecido estava
alcançando meu coração. Os médicos deram uma semana, no máximo, para que meus
órgãos falhassem e eu morresse. Eles queriam que eu ficasse lá para que eles me
estudassem e descobrissem o que estava em meu organismo. Pode ser até egoísta,
mas, acho que, já que eu vou morrer, poderia escolher o que fazer, que, no
caso, era: engordar quilos com junk foods,
acabar de ver todas as minhas séries favoritas e ficar em paz comigo mesma.
Então, como meu último desejo, os
médicos me deram alta e fui, com meu melhor amigo, para a casa de praia da
minha família, em uma ilha ao sul do estado. Esse, com certeza, era o lugar que
eu mais amava, na face da Terra!
Andei com certa dificuldade até
um balanço na varanda dos fundos, onde Daniel estava com duas canecas de
chocolate quente.
–Saindo dois chocolates quentes com
chantilly e canela. –Ele disse como quando brincávamos de lanchonete (ele
sempre era o garçom e eu a gerente ou uma cliente famosa). Me sentei/joguei no
balanço, fazendo com que o mesmo sacudisse um bocado. –Seu preferido.
–Obrigada, Dani. Você sabe que
não precisa fazer tudo isso, não é? Já basta estar aqui, comigo.
–Eu sei -ele disse, pondo um dos
braços em volta do meus ombros. – Mas, como eu sou “o melhor amigo do mundo”,
eu faço tudo isso e mais, se preciso.
Apoiei a cabeça em seu ombro, as
mãos apertando a caneca com força, para que os dedos não ficassem roxos com o
frio (que, aliás, não tinha nada a ver com a temperatura ambiente e sim com a
febre cada vez mais alta). Olhei para minha frente, para o penhasco.
–Lembra, daquele verão, quando
todos pulamos dali? – Ele riu, certamente relembrando outras travessuras do
último verão antes da faculdade, “onde tudo era fresco como o límpido céu azul”.
–Lembro – respondi, em um suspiro
doloroso.
–Você está bem? – Ele parecia
muito preocupado. o que eu não queria!
–Sabendo que tenho poucas horas
de vida? Nem um pouco! – Dei uma pausa e respirei fundo, deixando minha cabeça
cair novamente em seu ombro. – Mas estou feliz por ter tido chance de me
despedir e por poder ficar no lugar que eu mais amo no mundo, com meu melhor
amigo. - Ele me abraçou e eu fechei os olhos, aproveitando o Tudo momento.
De repente, uma dor começou a
subir por meu peito. Pontadas. Facas perfurando meu coração. Eu não podia
deixar que Daniel percebesse o quanto eu estava sofrendo. Não, não faria ele
sofrer por mim. Ele já sofreria bastante com minha morte.
–Tudo bem, Tatá. – Ouvi-lo me
chamando por meu apelido me fez querer chorar. O abracei mais forte e inspirei
o máximo possível, para não esquecer o perfume de baunilha dele. Essas simples
ações tiraram, quase que completamente, minhas forças.
A caneca, que eu ainda segurava, caiu no chão.
Lembro de lutar para que (o barulho do vidro quebrando e o cheiro da canela e
do chocolate), não me distraíssem da sensação única de estar nos braços de
Daniel.
Senti algo me puxando para baixo,
cada vez mais fundo. Estava escuro, frio e eu sentia medo. Tentei respirar,
lutar, mas não deu em nada. Então, em um último suspiro, eu disse adeus àquele
que eu mais amava.

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