sábado, 27 de junho de 2015

Os últimos pensamentos de um jovem moribundo

           Aaahhrrrg... Eu acordo imediatamente depois que o barulho desgraçado do meu despertador toca. Meu sono pesado passa e a dor de cabeça vem à tona. Um vento infeliz sopra pela abertura da minha janela levantando a cortina e fazendo com que o sol da manhã batesse direto nos meus olhos. E esse sol da manhã é uma das coisas que eu mais odeio nessa vida, o pôr do sol é muito mais agradável. Naquele momento eu preferia não ter olhos. – Mas que mer... Droga! – Gritei cobrindo os olhos com o travesseiro. Prometi à minha avó que não ia usar essas “palavras feias”, ou então ela mesma ia me matar mais cedo.  Ela sempre foi um pouco exagerada.
           
- Que horas são? – Peguei meu celular, acho que são seis e quarenta e sete da matina... Tá tudo embaçado e girando demais pra que eu seja exato. Começo a rir sozinho. Essa com certeza foi a ressaca que mais valeu a pena na minha vida. Nunca fui um cara de muitos amigos, mas os que eu fiz são incríveis.
           
Depois de gastarmos os pés numa trilha de alguns quilômetros, tirarmos algumas fotos pra registrar essa última reunião, partimos de carro pra praia com as ondas mais lindas que conhecemos do Rio de Janeiro e finalizamos a noite no nosso clássico bar. Bebida, conversa, zoação, mais bebida e eu estava feito. Foi um dia maravilhoso e eu agradeço demais aqueles quatro por me proporcionarem tudo isso. É uma pena que não consigo me lembrar de tudo daquela noite. Nem sei como cheguei em casa e na minha cama sem ter vomitado. Bem, parando e pensando melhor, acho que é melhor não saber mesmo de algumas coisas, incluindo porque eu estou vestido de bailarina.
           
Tentando não pensar nada sobre esse fato bizarro, busco pela lista no meu celular. Tentei organizar uns últimos desejos pra realizar antes que chegasse... O fim da minha história. Já consegui riscar uns oitenta por cento. Saltei de pára-quedas, mandei algumas pessoas pra lugares ruins (desculpa pela linguagem, vó), consegui concluir vários projetos pessoais meus, fiz um mochilão por vários lugares do mundo... Eu com certeza aproveitei mais a vida nesses últimos quatro anos do que nos primeiros dezoito. E hoje, é o último dia de validade que eu tenho, segundo os médicos, pra evitar ter qualquer arrependimento.
           
Eu tinha vinte e um anos quando fui ao hospital pra descobrir o porquê de algumas fortes e insistentes dores na cabeça. Exames aqui e ali. E o diagnóstico? Câncer. Já tinham alguns tumores escondidos a um tempo, e se espalhavam furtivamente pelo resto do meu corpo. Mesmo com poucas chances de funcionar, fiz quimioterapia por meses. Tranquei a faculdade pra me dedicar ao tratamento. Perdi a conta da variedade de remédios que eu tomei, e nem lembro mais pra que era a maioria deles. Eu passava os dias dormindo, e quando não estava dormindo estava dopado. Tentaram me curar de tudo quanto foi jeito, mas os resultados nunca foram esperançosos. Um dia eu conversei com a família e decidi parar de tentar. E só curtir o que me restava. A minha família toda desde o início ficou arrasada com a notícia, mas acho que nós todos conseguimos superar esse medo juntos. Eu acho que já me acostumei tanto com a ideia de morrer, que se por algum milagre eu fosse curado, aí eu ficaria desesperado.
           
Hoje, a dor já espalhou praticamente por todo meu corpo. Mas chega de reclamar, nunca fui disso, e não vai ser agora que vou começar. A dor da ressaca até que me faz abstrair ela. Nunca achei que fosse agradecer por ficar bêbado. Eu consigo aguentar até o fim. Eu tenho que aguentar até o fim. Checo o próximo item da lista no meu celular, e o que temos para agora é... Uma visita ao cemitério. Oba.
           
Pego a roupa mais próxima no meu apartamento quase vazio. Doei a maior parte dos meus móveis, deixando só essencial. Me visto, pego o carro e não demoro muito pra chegar lá. São sete e cinquenta e oito agora. Até que apesar de ser um forte símbolo de melancolia, tristeza, saudade, entre outros muitos sentimentos negativos, eu consigo ver alguma beleza aqui. Aqui é feito todo um tipo de ritual de passagem, para que possamos iniciar nosso processo de desapego. E mesmo que não mais pertençam a nossa rotina, eles estão aqui, de certa forma, como símbolos, e sempre conosco em nossas memórias se assim quisermos.
           
Vou até o mausoléu da minha família. Têm alguns ali dentro que eu nem mesmo cheguei a conhecer, só ouvi histórias. Não sei exatamente porque estou aqui, eu só jogo umas palavras ao vento. Não procuro nada, nem espero nenhuma resposta, acho que talvez tenha vindo mais pra tentar imaginar em qual buraco vão colocar meu corpo... Acho que estou um pouco ansioso.
           
Mas valeu de alguma coisa, sim, ter vindo aqui. Quando avistei o caixão de minha mãe, várias ótimas lembranças preencheram minha mente. Ela nos deixou cedo demais. Porém, acho que logo vamos nos reencontrar. Eu choraria agora, mas já chorei demais e me lamentei por muito tempo. Agora, eu não tenho mais tempo pra perder com isso.
           
Bem, acho que já deu. Próxima parada... Um shopping a alguns quilômetros do cemitério. Encontrar e almoçar com o meu pai. Infelizmente não sinto que tenhamos sido muito próximos. Quase sempre tivemos opiniões e gostos diferentes. Seguimos caminhos e profissões bem distintas. Mas apesar de tudo, ele sempre deu seu melhor pra não deixar que essas diferenças nos afastassem.
           
Quando minha mãe morreu, ele segurou a barra. Cuidou de mim e da minha irmã e ainda conseguiu manter vários trabalhos. Ele sempre foi metido em vários meios, mas agora acredito que ele tem se mantido só como escritor já tem uns anos. Ele é um cara perseverante e fiel aos seus valores apesar de seus defeitos. Eu respeito muito ele por isso.
           
São onze e vinte e dois. Encontro ele na entrada do shopping como o combinado. Fico surpreso por ele estar lá na hora. Ser pontual não é uma característica dele, diferente de mim. Assim como ele raramente planeja algo a fundo e eu sigo a risca minhas agendas cuidadosamente preparadas. Logo depois de um caloroso abraço e algumas perguntas sobre como eu estava e como foram os últimos dias, contei tudo pra ele. E como não poderia deixar de ser, ele riu bastante quando contei da roupa de bailarina e expliquei que não tiraria meus óculos escuros nem dentro do shopping devido a minha foto-sensibilidade proveniente da minha ressaca.
           
Outra surpresa foi ver que ele preparou um programa pra gente. Vamos jogar uma partida de boliche. Uma dos nossos poucos gostos em comum. O dia está começando a ficar bom. Na pista de boliche que ele reservou, somos servidos com pizzas, hambúrgueres e batatas fritas. A essa altura, eu to pouco ligando pro que é ou não saudável.
           
Acho que está sendo uma das partidas de boliche mais difíceis que já joguei. Não sei se são as dores que o câncer ta me causando, ou se meu pai tem pegado leve comigo nesses últimos anos e agora decidiu me dar um desafio maior na minha última partida. Na última jogada, ganho com um strike contra um spare dele. É bom vencer um oponente à altura. Estamos pra nos despedir. Ele me pergunta qual meu próximo item, dou uma olhada na lista para confirmar, vou encontrar com a minha irmã... E a minha ex.
           
A gente conversa um pouco. Não demoramos muito pra nos despedirmos. Ele acaba chorando, e não o culpo, é difícil perder um filho. Uns dois minutos depois ele se recompõe. Eu entrego as chaves do meu apartamento, ele tinha se comprometido a cuidar dos meus últimos pertences e preparar o velório. Ele insistiu, então não neguei.
           
São duas e treze da tarde. Acabo de chegar à igreja da minha irmã. Diferente de mim, ela é bem espiritualizada. Eu não sou ateu, mas não consigo gostar da estrutura de várias religiões e das suas restrições. Gosto de estar livre, e sem ninguém pegando no meu pé, por ações menos ou mais gloriosas.
           
Avisto-a na entrada. “Arthur!” ela me chama e vem correndo na minha direção. Nunca me senti muito confortável com esse nome. Parece grandioso demais pra mim. Não tem nenhuma espada mágica na minha vida, e muito menos sou relevante na sociedade em que vivo. Sou pacato, sou simples. De qualquer forma é só um nome. Já me conformei.
           
Minha irmã, Alice, eu acho que ela tem o abraço mais caloroso que alguém já me deu. É tão tranquilizante quanto o da minha mãe era e tão alegre quanto o de meu pai. Ela é uma pessoa incrível. Conversamos um pouco sobre o que tenho feito nestes últimos dias em que não a tinha visto. Praticamente repito todas as respostas que dei ao meu pai. Então ela me guia pra dentro da igreja. O culto já estava para começar. Estou mais nisso por ela do que por mim. Ela pediu pessoalmente ao padre para que fizesse uma oração especialmente para mim. Não gosto desse tipo de atenção, mas mais uma vez, é por ela.
           
Três e cinquenta e oito. A missa terminou agora. Que missa chata. Acho que esse foi o maior motivo pra que eu parasse de frequentar a igreja. É chato. Bem, ao menos eu acho. Foi ainda pior quando o padre apontou pra mim e pediu para que todos ali presentes orassem por mim em conjunto depois de contar minha situação. Foram tantos olhares de pena me cercando que eu quase me joguei por um daqueles vitrais pra fugir. Talvez fosse exagerado demais. Mas meu pai iria rir.
           
Depois de cruzar as portas da igreja, encontramos com o quarto item da minha lista pra resolver hoje. Minha ex-namorada. Despeço-me de minha irmã. Ela começa a lacrimejar, naturalmente, mas ela é forte e está tentando superar a ideia da minha partida. Antes que fosse, ela pergunta pra onde eu iria depois. É evidente que eu tinha tudo planejado. Irei para a casa de campo de nossa família. É um local bem tranquilo. E quero dar lá meus últimos suspiros. Amanhã meu pai deve acionar uma funerária e irão recolher meu corpo. Sim, acho que vai ser uma situação bem incomum. Mas consegui trespassar a estranheza que isso causou nele, alegando que era meu último desejo. E de certa forma, é. Não quero morrer numa cama, cercado de familiares chorando. Acredito que sozinho estarei melhor.
           
Minha irmã, partiu, dando privacidade para sua melhor amiga, minha ex-namorada, e para mim. Ela se chama Gabriela, e não foi a minha primeira namorada, e nem foi a última mulher com quem tive relações. Conheci muita gente em minhas viagens. Mas com certeza foi a última com quem tive um relacionamento sério e tão duradouro.
           
Quando fiquei sabendo do câncer, quis encerrar nosso namoro assim como fiz com a minha faculdade. Não queria vê-la se desgastar me vendo ser tratado e se preocupando comigo. Ela insistiu em continuar ao meu lado. Acho que ela me amava. Não sei agora, se não amar, eu não a culpo. Chegou um momento, em que eu não tinha mais esperança alguma, e isso me deixou no fundo do poço. Eu não era capaz, naquele momento, de ter qualquer felicidade. Brigamos e nos separamos. Apesar disso, eu tenho a certeza de que sempre a amei. Brega, bobo, clichê, mas verdade.
           
Ela não parece desconcertada em me ver, e sim, continua com sua característica expressão serena. Acho que eu estou suando. Me arrependo da última conversa que nós tivemos. Nossa conversa começa meio devagar. Conto das minhas últimas “aventuras”.  Fico sabendo que ela sempre perguntava sobre mim à minha irmã. Talvez ela ainda goste de mim.
           
“Eu senti sua falta durante esses anos em que não te vi. E acho que agora vou sentir mais ainda por saber que você não vai mais estar aqui. Sabe... Eu nunca deixei de te amar.” Ela disse pra mim. Eu estou meio sem palavras, então só balbucio em resposta. Antes que eu conseguisse formular uma frase completa na minha mente, ela me dá um beijo. Com aqueles lábios vermelhos e adocicados. Um beijo delicado, como sempre foi. O dia ficou oficialmente bom. Na verdade, ficou ótimo.
           
Nós conversamos bastante depois disso. Passeamos também. Foi um último encontro, e não poderia ter sido melhor. Até que meu peito começa a doer. Acho que o improvisado efeito anestésico da ressaca chegou ao fim. Uma dor forte e profunda. Sinto algum sangue chegando a minha garganta, mas seguro pra não cuspir e não apavorá-la. Acho que meu tempo está bem próximo do fim. Me despeço de Gabriela. São quatro e trinta e oito da tarde. Não sei quanto tempo mais eu vou durar e levo uma hora pra chegar à casa de campo.
           
Afundo meu pé no acelerador. Fico imensamente feliz por não ter muitos carros na estrada. Os oitenta quilômetros de distância parecem estar tranquilos. Já cheguei à cidade, só falta passar pelo seu portal e atravessar algumas ruas... Escuro! Está ficando tudo escuro! Eu... Eu não consigo ver! Não! Agora não! Aqui não!
           
...
           
Acordo pendurado de cabeça para baixo, pendurado pelo cinto de segurança. Meu carro saiu da estrada e capotou. Não sei se tenho sorte de ter sobrevivido ao acidente ou azar de ter que morrer com essa dor insuportável em todo meu corpo. Uma voz à alguns metros de mim grita “Ei! Você está bem? Precisa de ajuda? Eu chamei uma ambulância!” Um motorista bem intencionado apareceu. Felizmente consegui sobreviver com alguns cortes, e acho que desloquei meu ombro esquerdo. Nada com que eu deva me preocupar agora. Ainda estou bem o suficiente para sair do carro. O motorista pede pra que eu não me mova, repete que já chamou a ambulância, mas eu respondo que não preciso. Não vou morrer num hospital.
           
Faço algum esforço para pegar meu celular. Cinco e cinquenta e dois da tarde. Está começando a anoitecer. Olho ao redor procurando algum ponto de referência e encontro a direção que devo seguir. O acidente acabou me lançando na direção de um dos portais da cidade, que não era acessível no caminho que estava seguindo. Estou sendo muito otimista agora.
           
Eu corro... Eu tento correr, atravesso ruas sem olhar para os sinais, esbarro nas pessoas. A essa altura não me incomodo com mais nada. Acho que vou acabar virando notícia no jornalzinho local. “Jovem moribundo espanta a cidade”. Posso até ver.

Finalmente! Avistei a casa. Pulo sua cerca, pois a chave do portão deve ter ficado no carro. Depois de alguns passos dentro do terreno, caio na grama, viro meu peito pra cima e todo meu corpo grita ainda mais de dor. Não vou mais conseguir sair do lugar. Usei todas as minhas últimas energias pra chegar até aqui.

É isso. Acabou aqui. Sozinho. Num palco sem público, bem como eu queria. Estou começando a deixar de sentir alguns membros. Devo estar sangrando demais. Tanto faz. Agora é só relaxar. Aproveitar a paz e o silêncio. Não tem nada mais que eu possa querer. Eu vivi como pude. Não fui perfeito, longe disso. Eu fui fiel ao que acreditava. Talvez eu esteja alucinando agora, mas eu olho pro céu e sua vastidão e me lembro do quão insignificante eu sou pra... Todo o resto do mundo. Do universo. O Arthur sem espada mágica e sem reino. Acho... Acho que não importa. Não importa o que eu sou pro resto desse colossal universo. Acho que não é pra importar. Não é pra ninguém se preocupar com o nosso tamanho. É só pra viver. E eu vivi da forma que quis e posso dizer agora que fui feliz, acima de tudo. O sol está terminando de se esconder atrás do horizonte. Eu definitivamente prefiro o pôr do sol.

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