Quando nasci, ganhei uma casa de músculo. Nela não cabe uma só pessoa, mas cabem sentimentos de um mundo inteiro. Vermelhinha que só. Assim que ganhei, não tinha dimensão da grandeza do fardo que trazia em meu peito, nem pouco sabia de suas responsabilidade. A minha casinha de carne, assim como eu, cresceu. Vermelhinha que só. Aí que fui me dar por conta da merda que é administrar essa coisa vermelha que cabe o mundo. Primeiro, tive que lhe dar com diversos sentimentos alheios às minhas vontades, depois lidar com amores não correspondidos, com as crises existenciais, as vontades loucas, os não entendimento de ter uma casa como aquela.
Nesse tempo, a casa vermelha foi crescendo, ficando esgarçada como uma camisa velha que eu vestia todos os dias, um rasgado aqui, outro remendo lá, manchada e russa. Isso se dava porque assim como eu ia descobrindo as funções dela, eu também fui percebendo que nem todos os sentimentos que lá habitavam eram necessariamente bons. Posso dizer que alguns deles não eram os mais sociáveis: batem portas, quebram vidros, gritam, não dão descarga. Mas só de vez em quando que eles arranjão tamanho escarcéu, na maioria das vezes eles estão trancados no quarto, bufando e gritando no travesseiro. Dificilmente eu os alimentos.
Dos males, eles são os menores. E sabe o porquê? Porque aprendi para que essa casa continue exercendo sua função de modo satisfatório é preciso de um elemento, uma coluna de sustentação, que sem ela a casa não poderia existir: o perdão. Esse, recolhe os cacos dos vidros quebrados, abre portas e janelas, realiza uma verdadeira limpeza e, claro, como um bom cidadão dá descarga. É um verdadeiro anjo, que após toda a limpeza, que após esfriar os ânimos, vai descansar, hibernar como um urso, e como um urso, acorda apenas quando as coisas esquentam de novo.
Essa minha rubra casinha, por vezes pega fogo e arde sem cessar. E após consumir tudo o que era dispensável na casa: os quadros pregados nas paredes, os sofás já marcados, os CDs já arranhados de tanto escutar e o armário com as roupas velhas. Sobrando apenas a fundação, as paredes, o teto e a casa toda para remodelar. O que era a sala vira o quarto, o banheiro vira a cozinha e porta… Continua no mesmo lugar. A entrada da minha casa nunca vai mudar.
E com todas essas mudanças, é logico que os sentimentos também iriam mudar. Nessa reforma, o que era raiva torna-se em paixão, o contentamento vira tristeza e a preguiça em nada muda, pois não gosta de mudanças. E por fim sempre percebo, que mesmo com todos os problemas, todas essas mudanças, adoramos essa sensação de antagonismo, que os nossos sentimentos trazem para o nosso coração. E do mesmo modo que isso é cíclico, também é vital para que continuemos a viver com vontade.

Nenhum comentário:
Postar um comentário