- Se quisesse realmente
me ajudar, teria me deixado cheirar a coca até morrer de vez!- Disse Leonardo,
com toda a raiva que lhe cabia.
- Ah, não se preocupe,
você vai morrer sim. Receio que não por sua doença, não posso mais esperar você
desfalecer. – Respondeu Mário.
O “assistente” puxou um
revólver da bainha da calça e apontou para o homem doente, ainda em choque pela
surpreendente virada de mesa. Elizete lixava as unhas despreocupada, como se
lhe fizesse bem a ideia de ver Leonardo sob a mira de um revólver.
- Dois meses atrás,
você fez um exame de sangue. Ou pelo menos acha que fez. – Começou Mário. – Na
verdade, tudo o que foi feito foi a injeção de boa parte do sangue de Amanda.
Eu tive que sacrificar a saúde dela, mas isso não faria mal, seria uma espécie
de punição a Clara, também. ‒ Ele ri. ‒ O que, afinal, ela viu em você? Um
homem fraco. Um viciado. Alguém que sempre exigiu que ela sorrisse o tempo
todo. E quando ela viu o que você se tornou, quando ela chorava mais do que
sorria... Foi aí que você desistiu. Mas ela encontrou alguém que respeitava o
choro dela. E até, veja só, chorava com ela.
Leonardo recordou sua
história com Clara. Os lindos momentos em que passaram juntos. Por mais
estúpidas que fossem as palavras de Mário, ele tinha toda a razão. O empresário
sempre ligou para aparências. “Sorrisos acima de tudo”, dizia ele. “A alegria é
o maior dom de Deus”. E então vieram as tentações: cocaína, fama, sucesso,
dinheiro aos montes...
Toda vez que Clara
chorava, o insensível Leonardo a reprimia. Gritava. Berrava. “Mas o que é que
há de errado com você?” O errado era ele, no fim das contas.
‒ Perceba, que eu não
faço isso por amor a Clara. Ela nunca me amou. E eu? Só encontrei alguém que me
daria o que eu quero. Poder.‒ Continuou Mário ‒ Parece que para eu ter esse
poder, eu só preciso do seu dinheiro. Eu vou matar você e dar à minha mãe a
vida de rainha que ela merece. ‒ Elizete sorriu.
‒ Vai em frente. Já
ouviu dizer que o tesouro de um dragão é amaldiçoado? Pois o meu... O meu é bem
mais perigoso. Não importa com quantos tiros você me mate. Eu ainda o verei
sufocar com cada moeda dos meus cofres.
Ouviu-se um tiro.
Leonardo jazia no chão.
Não há nada mais
irônico do que ouvir um eletrocardiograma. Passamos a vida inteira ouvindo dos
outros para “ouvir o seu coração”, mas duvido que alguém realmente queira ouvir
os bips que seu coração faz. Uma bala alojada entre as costelas XI e XII, não
letal, mas bem doloroso.
Leonardo sentiu uma mão
tocando sua mão esquerda. Não precisava abrir os olhos para saber de quem era.
Ele reconhecia esse toque como se nunca tivesse deixado de senti-lo. Clara
chorava do seu lado, apavorada de olhos fechados.
‒ Se estiver chorando
por mim, eu estou vivo. ‒ anunciou Leonardo.
‒ Eu sabia que você ia
conseguir. ‒ Respondeu ela.
‒ Mário...
‒ Fugiu. Daniel
declarou a falência da sua empresa hoje cedo. Não temos notícias de Mário ou de
Elizete.
‒ Quem diabos é Daniel?
E o que houve com Amanda?
‒ Pois é. Daniel é meu
cunhado, advogado, noivo de Amanda. Ele resolveu prestar socorro a sua empresa
após você ter ajudado na recuperação dela.
Leonardo guardou seus
comentários. Na sua cabeça, não podia deixar de pensar na célebre e também
clichê frase: “Deus escreve certo com linhas tortas”. Ajudar Amanda nunca foi
sua intenção. No entanto, ali estava ele, recebendo préstimos de um
desconhecido.
‒ O médico disse que
você...
‒ Esquece o que disse o
médico. Eu não quero saber.
Leonardo rendeu-se ao
choro que estava preso em sua garganta. As lágrimas saíram com tanta
dificuldade que pareciam secar antes de atingir seu queixo.
‒ Mas o que há de
errado com você?‒ Perguntou Clara ‒ Sorrisos acima de tudo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário