sábado, 23 de maio de 2015

Pulso Fatal: Capítulo 8



- Se quisesse realmente me ajudar, teria me deixado cheirar a coca até morrer de vez!- Disse Leonardo, com toda a raiva que lhe cabia.
- Ah, não se preocupe, você vai morrer sim. Receio que não por sua doença, não posso mais esperar você desfalecer. – Respondeu Mário.
O “assistente” puxou um revólver da bainha da calça e apontou para o homem doente, ainda em choque pela surpreendente virada de mesa. Elizete lixava as unhas despreocupada, como se lhe fizesse bem a ideia de ver Leonardo sob a mira de um revólver.
- Dois meses atrás, você fez um exame de sangue. Ou pelo menos acha que fez. – Começou Mário. – Na verdade, tudo o que foi feito foi a injeção de boa parte do sangue de Amanda. Eu tive que sacrificar a saúde dela, mas isso não faria mal, seria uma espécie de punição a Clara, também. ‒ Ele ri. ‒ O que, afinal, ela viu em você? Um homem fraco. Um viciado. Alguém que sempre exigiu que ela sorrisse o tempo todo. E quando ela viu o que você se tornou, quando ela chorava mais do que sorria... Foi aí que você desistiu. Mas ela encontrou alguém que respeitava o choro dela. E até, veja só, chorava com ela.
Leonardo recordou sua história com Clara. Os lindos momentos em que passaram juntos. Por mais estúpidas que fossem as palavras de Mário, ele tinha toda a razão. O empresário sempre ligou para aparências. “Sorrisos acima de tudo”, dizia ele. “A alegria é o maior dom de Deus”. E então vieram as tentações: cocaína, fama, sucesso, dinheiro aos montes...
Toda vez que Clara chorava, o insensível Leonardo a reprimia. Gritava. Berrava. “Mas o que é que há de errado com você?” O errado era ele, no fim das contas.
‒ Perceba, que eu não faço isso por amor a Clara. Ela nunca me amou. E eu? Só encontrei alguém que me daria o que eu quero. Poder.‒ Continuou Mário ‒ Parece que para eu ter esse poder, eu só preciso do seu dinheiro. Eu vou matar você e dar à minha mãe a vida de rainha que ela merece. ‒ Elizete sorriu.
‒ Vai em frente. Já ouviu dizer que o tesouro de um dragão é amaldiçoado? Pois o meu... O meu é bem mais perigoso. Não importa com quantos tiros você me mate. Eu ainda o verei sufocar com cada moeda dos meus cofres.
Ouviu-se um tiro. Leonardo jazia no chão. 
Não há nada mais irônico do que ouvir um eletrocardiograma. Passamos a vida inteira ouvindo dos outros para “ouvir o seu coração”, mas duvido que alguém realmente queira ouvir os bips que seu coração faz. Uma bala alojada entre as costelas XI e XII, não letal, mas bem doloroso.
Leonardo sentiu uma mão tocando sua mão esquerda. Não precisava abrir os olhos para saber de quem era. Ele reconhecia esse toque como se nunca tivesse deixado de senti-lo. Clara chorava do seu lado, apavorada de olhos fechados.
‒ Se estiver chorando por mim, eu estou vivo. ‒ anunciou Leonardo.
‒ Eu sabia que você ia conseguir. ‒ Respondeu ela.
‒ Mário...
‒ Fugiu. Daniel declarou a falência da sua empresa hoje cedo. Não temos notícias de Mário ou de Elizete.
‒ Quem diabos é Daniel? E o que houve com Amanda?
‒ Pois é. Daniel é meu cunhado, advogado, noivo de Amanda. Ele resolveu prestar socorro a sua empresa após você ter ajudado na recuperação dela.
Leonardo guardou seus comentários. Na sua cabeça, não podia deixar de pensar na célebre e também clichê frase: “Deus escreve certo com linhas tortas”. Ajudar Amanda nunca foi sua intenção. No entanto, ali estava ele, recebendo préstimos de um desconhecido.
‒ O médico disse que você...
‒ Esquece o que disse o médico. Eu não quero saber.
Leonardo rendeu-se ao choro que estava preso em sua garganta. As lágrimas saíram com tanta dificuldade que pareciam secar antes de atingir seu queixo.
‒ Mas o que há de errado com você?‒ Perguntou Clara ‒ Sorrisos acima de tudo.

‒ Posso chorar no seu ombro?‒ Ele perguntou.

FIM

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