sábado, 23 de maio de 2015

Esse lixo no meu peito

Posso jogar meu coração fora? Já não o quero. Não me serve. Se é para doer assim, que doa no peito de outra pessoa, o meu já não suporta. Para que guardar uma bomba relógio dentro de si? Está pronta para explodir a qualquer instante. Basta um simples momento de solidão ou descontentamento para doer tudo de novo. Garanto que há alguém que o queira. Mas eu não, eu não suporto mais.

Sinto a dor queimando por dentro. Corroendo toda a base forte que eu preparei. Eu quis ser forte, eu quis resistir, mas a dor está aqui. Tudo dentro de mim parece tão ácido, tão rascante, tão dolorido. Eu já estou despedaçado. Um coração é tudo o que eu não preciso. Vai me matar? Provavelmente, mas já estou morto no fim das contas.

Quando meus olhos te encontraram, enxerguei uma promessa de um amor revigorante. Enxerguei toda a paz do mundo em seus olhos. A liberdade era iminente e me comovia. Por que você mentiu? Desde aquele momento, você nunca foi paz e liberdade. Agora, quando eu tenho vislumbres da sua ausência, é a dor quem ocupa o seu lugar. É a dor quem está livre e em paz. Eu estou em guerra. Numa guerra fria contra meu próprio peito inflamado. Quero arrancá-lo a mordidas e jogar meu coração para uma multidão de cachorros ferozes. Deixe que as feras me devorem por inteiro. Deixe que eu me entregue a mais pura dor para que, quem sabe a dor da sua ausência não me doa tão profundamente. Deixe que me rasguem por inteiro e me diluam em ácido sulfúrico. Deixe que me matem e revivam só para eu sentir a dor da morte por um segundo. Deixe que me destruam e remontem e destruam e remontem...

Aí quando já tiver doído tudo o que me possa doer, você pode esmagar meu coração com suas mãos. Não me importa. Eu já estou vivendo assim desde o primeiro momento em que me apaixonei. Meu coração já não era mais meu. Ele era seu há bastante tempo. Mesmo assim, o fato de ser seu não o impedia de doer no meu peito. Acho até que assim é melhor. Não desejo essa dor para você. Fique bem, resista. Não deixe nunca que seu coração doa assim. Se tiver algum problema, arranque-o também. Eu posso levá-lo para um lugar seguro. Eu o colocaria num jarro e o protegeria com a minha vida. Enquanto restasse um fiapo de luz no meu rosto, eu o defenderia, até que a morte me alcançasse. Neste caso, eu estaria livre, livre de toda a dor ou, quem sabe, a dor seria ainda mais intensa. Como poderia haver um céu, um paraíso, sem você?


De fato, minha única alternativa é viver. Viver sem um coração.


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