Posso jogar meu coração
fora? Já não o quero. Não me serve. Se é para doer assim, que doa no peito de
outra pessoa, o meu já não suporta. Para que guardar uma bomba relógio dentro
de si? Está pronta para explodir a qualquer instante. Basta um simples momento
de solidão ou descontentamento para doer tudo de novo. Garanto que há alguém
que o queira. Mas eu não, eu não suporto mais.
Sinto a dor queimando
por dentro. Corroendo toda a base forte que eu preparei. Eu quis ser forte, eu
quis resistir, mas a dor está aqui. Tudo dentro de mim parece tão ácido, tão
rascante, tão dolorido. Eu já estou despedaçado. Um coração é tudo o que eu não
preciso. Vai me matar? Provavelmente, mas já estou morto no fim das contas.
Quando meus olhos te
encontraram, enxerguei uma promessa de um amor revigorante. Enxerguei toda a
paz do mundo em seus olhos. A liberdade era iminente e me comovia. Por que você
mentiu? Desde aquele momento, você nunca foi paz e liberdade. Agora, quando eu
tenho vislumbres da sua ausência, é a dor quem ocupa o seu lugar. É a dor quem
está livre e em paz. Eu estou em guerra. Numa guerra fria contra meu próprio
peito inflamado. Quero arrancá-lo a mordidas e jogar meu coração para uma
multidão de cachorros ferozes. Deixe que as feras me devorem por inteiro. Deixe
que eu me entregue a mais pura dor para que, quem sabe a dor da sua ausência
não me doa tão profundamente. Deixe que me rasguem por inteiro e me diluam em
ácido sulfúrico. Deixe que me matem e revivam só para eu sentir a dor da morte
por um segundo. Deixe que me destruam e remontem e destruam e remontem...
Aí quando já tiver
doído tudo o que me possa doer, você pode esmagar meu coração com suas mãos.
Não me importa. Eu já estou vivendo assim desde o primeiro momento em que me
apaixonei. Meu coração já não era mais meu. Ele era seu há bastante tempo.
Mesmo assim, o fato de ser seu não o impedia de doer no meu peito. Acho até que
assim é melhor. Não desejo essa dor para você. Fique bem, resista. Não deixe
nunca que seu coração doa assim. Se tiver algum problema, arranque-o também. Eu
posso levá-lo para um lugar seguro. Eu o colocaria num jarro e o protegeria com
a minha vida. Enquanto restasse um fiapo de luz no meu rosto, eu o defenderia,
até que a morte me alcançasse. Neste caso, eu estaria livre, livre de toda a
dor ou, quem sabe, a dor seria ainda mais intensa. Como poderia haver um céu,
um paraíso, sem você?
De fato, minha única
alternativa é viver. Viver sem um coração.

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