Já anoitecia e eu ainda não tinha
conseguido me livrar das algemas. Uma dupla de policiais me interrogava fazia
horas. Fazendo com que eu repetisse as mesmas coisas várias e várias vezes.
Eles queriam que eu admitisse algo que eu não fiz. Eles apontavam dedos,
gritavam e ameaçavam. Eu representava parte da escória da humanidade para eles.
Estava sendo acusado pelo desaparecimento e possível assassinato de oito
pessoas. E repito pra mim mesmo e pra eles: Não fui eu.
Não
poderia ter sido eu. Eu jamais machucaria aquelas pessoas. Eram meus amigos.
Admito que não eram em todas as situações que nos entendíamos, mas não existia motivo
para que eu fizesse algo nessas dimensões. Eu seria incapaz de matar qualquer
um que fosse. Parece loucura, mas mesmo
que tudo direcione a culpa para mim, eu tenho certeza... Eu tenho certeza de
que foi aquela maldita cidade de pedra.
A
pedido das autoridades, e sem ter outra escolha, eu repeti mais uma vez minha
história. Eu faço parte de um grupo formado por amigos e alguns de seus filhos
mais velhos. Uma vez por mês marcamos de acampar em algum parque, obviamente
com autorização das autoridades. Gostávamos de entrar em contato com a natureza
e fugir um pouco da rotina caótica da cidade. Ontem entramos no parque nacional
assim como sempre fizemos, mas enquanto montávamos as barracas notamos que
faltava um dos garotos conosco. Ele provavelmente havia se perdido e todos
ficamos preocupados com isso. Rapidamente nos juntamos e partimos mata adentro
procurando pelo menino.
Não
demorou muito para que o encontrássemos, mas é nesse momento que a história
começa a ficar estranha. Nós nos deparamos com um tipo de lago extremamente enevoado
bem a nossa frente. E no meio dele, no topo de uma pedra pontuda estava o
garoto perdido. Ele gritava desesperadamente por ajuda. Aparentemente não se
lembrava de como havia chegado ali e não fazia ideia de como sair.
Continuamos
nossa tentativa de resgate cautelosamente. Pulamos de pedra em pedra até tentar
alcançá-lo, mas quanto mais nos afastávamos da beirada, mais ficou visível a
verdadeira forma do lugar onde estávamos. A pouca água que a neblina baixa nos
permitia ver eram apenas grandes poças não muito profundas. As pedras em que
pisávamos faziam parte do topo de construções antigas, e incrivelmente bem preservadas,
localizadas metros abaixo de nossos pés naquele local.
Eu...
Eu realmente não consigo me lembrar do que aconteceu em seguida. Acho que
conseguimos pegar o garoto em segurança... Mas, algo aconteceu depois. Quando
voltei a mim, estava estirado no chão na entrada do parque. Cheio de hematomas
e cortes. As roupas estavam encharcadas de sangue que não poderia ser meu. E
minha memória me permitia lembrar de menos coisas do que agora.
Algo
aconteceu naquela cidade de pedra. Algo horrível e... Improvável. Os policiais
fazem diversas perguntas que praticamente me forçam a admitir o crime. Ninguém
é capaz de acreditar em mim. Só talvez alguém que visse o que eu vi. Ou o que
eu penso que vi. Nem eu mesmo consigo acreditar mais em mim. O desespero que
havia dado uma folga para que eu pudesse dar o depoimento em minha defesa,
voltou com todas as forças e me pôs a chorar. Eu matei oito pessoas. Eu matei
oito amigos, e aparentemente sem piedade. Nunca desejaria voltar para a prisão,
mas meu arrependimento é tão grande que eu não poderia me deixar sair ileso.
Não depois de todo o mal que causei. Eu mereço esse destino.
...
A
escória da humanidade. Mais um desgraçado qualquer matando outras pessoas sem
qualquer justificativa. Aquele desgraçado tem que apodrecer na cadeia como milhares
de outros espalhados pelo mundo. O safado já tinha sido fichado alguns anos
atrás por assalto a mão armada e porte ilegal de arma. Acabou saindo mais cedo
da prisão por bom comportamento, mas acho que ele não conseguiu seguir a vida
dele numa boa. Não, ele tinha que se envolver de novo nesse mundo. O que ele
ganharia com isso? Nenhum dos homens desaparecidos era rico e em nossa
investigação as famílias das vítimas confirmaram a que o nosso suspeito era um
antigo amigo e a existência do grupo para acampamentos. Então, mais uma vez eu
me pergunto: Por quê? A única resposta que me vem à mente é “Loucura”.
Não tem
ninguém que eu conheça que não tenha um pouco de loucura. Mas pra chegar a esse
ponto... Algo tem que perturbar essa pessoa profundamente. Mas mesmo que aquele
homem seja louco, eu não sinto pena dele. A loucura não tira a culpa dele.
Porque eu sei que foi ele. Só pode ter sido. Não existe nada nesse parque que
possa matar uma pessoa, a não ser elas mesmas. E mesmo tendo certeza de que depois de todo
esse tempo nenhum deles poderia ter sobrevivido, eu e meu parceiro estamos aqui
no parque. Seguindo o caminho que o suspeito disse ter feito e procurando por
algum sobrevivente. Enquanto isso meus superiores definem se o trancam numa
prisão comum ou o tacam num hospício.
Nós conseguimos seguir o caminho que ele nos
contou sem nenhum problema. Parecia que tudo que ele disse estava correto. Até
mesmo encontramos o lago coberto de neblina. Imaginei que inconscientemente ele
teria jogado os corpos no lago para que não fossem descobertos. Mas assim que entrei
na água um calafrio subiu minha espinha e me imobilizou. Tinha algo de muito
estranho naquele lugar.
Para
o nosso terror, logo descobrimos que o homem louco talvez não estivesse tão
fora de si quanto eu pensava. Aquilo não era um lago, tão pouco um rio. Havia
uma margem com água, mas ela era represada logo depois de alguns por várias
pedras. E assim que cruzamos esta linha, a neblina nos permitiu ver a verdade.
Uma antiga cidade feita completamente de pedra, assim como o nosso suspeito
descreveu. Me pergunto como ninguém no parque, visitante ou trabalhador, algum
dia descobriu isso até os desaparecimentos que investigamos. Ou será que alguém
já descobriu isso antes... E teve um destino parecido com as vítimas desse
caso?
Contrariando
minha intuição, que dizia que nada de bom poderia sair desse lugar, eu desci
sozinho. Não poderia arriscar a vida de mais ninguém. Desci uma torre do que
parecia ser uma igreja com bastante cuidado até enfim chegar ao chão. E quando
dentro da cidade pude confirmar que ela estava deserta. Mas além de todas as
bizarrices já contidas naquele espaço, surgiu mais uma. Apesar de a cidade ser
visivelmente deserta e esquecida por décadas (no mínimo), eu pude sentir a
presença de alguém ou alguma coisa. Ouvi passos e vozes cada vez mais próximas,
como se tentassem me cercar.
Quão
assustadora fosse essa presença, ela não possui armas que possam me ferir. Eu,
pelo contrário estou muito bem armado. Assim que meus dedos tocam o revólver
preso ao meu cinto, as vozes e passos cessam. E então usam contra mim uma arma
que eu acreditaria impossível de existir. A voz de minha falecida esposa sussurrou
em meus ouvidos. Suas palavras calmas e adocicadas me levaram a soltar minha
arma no chão e me virar. Era impossível, mas ali estava ela em carne e osso.
Linda como sempre fora. Como eu queria que fosse verdade. Tinha que ser.
Com
toda sua delicadeza, ela segurou minha mão e levou cidade adentro. A cada passo
que eu dava, mais a cidade se enchia de vida. Ouvia pessoas nas ruas e através
de vultos eu as enxergava. Todas boas e com sorrisos estampados em seus rostos.
As construções perdiam seu tom acinzentado das pedras para dar lugar a belas e
variadas cores. Minha esposa me contou que nesta cidade não havia crime,
injustiça, corrupção ou tristeza. Ali todos viviam plenamente. Neste lugar, com
ela, eu teria vida com que sempre sonhei. Poderíamos ter os filhos que nunca tivemos.
A casa que sempre desejamos. Eu sentia meu corpo tão leve. Eu flutuava com as
promessas que a cidade me fazia. Mas estas sensações tomaram conta de mim
apenas por um breve momento. Das nuvens dos meus mais vastos sonhos, eu caí.
Meu rosto foi de encontro com o chão duro e frio da realidade.
A
cidade nunca fora aquele paraíso. Era tudo uma ilusão para me atrair tempo o
suficiente para que eu me tornasse no que me fez tropeçar: um corpo humano
morto completamente transformado em pedra esboçando uma expressão de pavor. Com
uma olhada rápida reconheci o corpo como um dos jovens recém desaparecidos. E
assim soube que não poderia ficar mais um segundo sequer ali. Fiz o caminho de
volta fugindo de minha mulher, ou seja lá o que aquilo fosse, sem ter coragem de
olhar para trás. Mas antes que eu atingisse a metade do caminho comecei a ouvir
passos pesados vindo atrás de mim. Batidas fortes criando estrondos que ecoavam
por toda a cidade e faziam sua estrutura tremer. Comecei a ouvir súplicas de
minha mulher para que voltasse. Porém isso jamais funcionaria novamente.
Quando
pensei que havia chegado à igreja em que havia descido para chegar até o chão,
uma parede de pedra se formou em minha frente, me obrigando a seguir por becos
e pular muros. A cidade inteira estava se movendo, tentando me prender. Eu
rezava e corria com todas as forças para sair daquele pesadelo. Foi nesse
momento que no topo de uma das torres da entrada da cidade, avistei meu
parceiro. Gritei por socorro e ele salvou minha vida descarregando sua arma em
seja lá o que estivesse atrás de mim. Consegui tempo o suficiente para escalar
a construção mais próxima e de seu topo me dirigir de volta à margem do suposto
lago.
Depois
de digerir toda aquela situação, conversamos e chegamos a um acordo. Toda essa
história morreria conosco. Não possuímos forças para lidar com... Aquilo. Nossos
superiores no governo nos afastariam por invalidez devido a insanidade. Pessoas
próximas a nós se afastariam. Se viesse a público, curiosos seriam vítimas e a
sociedade enlouqueceria com algo tão absurdo e improvável. Algo tão entranhado
em nossa sociedade que poderia ser apenas mais um. Deixaremos que um homem
sofra as consequências e crie mais um alicerce para impedir nossa sociedade de
ruir. Só espero, e rezo todos os dias para que não sejam feitas mais vítimas,
apesar de saber que está além do meu alcance impedir isso.
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