sábado, 25 de abril de 2015

Meu casal, meu amor

Abro os olhos. Pela janela do quarto é possível ver uma casa velha e abandonada. Ali viveu um casal jovem, que enquanto ali habitaram deram vida aquela casa muito simpática à vista de quem conhecera na época deles. A casa é simples, démodé, dessas que em cima, na faixada, está escrito: “Aqui é um lar”. A moça podava as folhes e toda a manhã perfumava com lavanda a varanda e o jardim. O rapaz cuidava dos reparos daquela casa, naturalmente pela idade daquela já senhora arquitetura, além de sempre que lhe era oportuno. Fiquei feliz em relembrar essa história de amor.

Fecho os olhos para buscar na memória qualquer reminiscencia dos meus ex-vizinhos. O que encontro são as cenas dos amantes sentados à beira da rua, contemplavam o vai-e-vem dos andarilhos como se a rua fosse uma grande passarela da vida. Se bem, que eu achava que eles eram uma vitrine, onde podíamos contemplar o amor – assim como as moças contemplam um vestido na loja. Por entre um olhar daqui, um comentário de lá, entreolhavam-se, beijavam-se, de vez em quando rolava uma mão mais boba, um prazer mais nítido, um viver mais puro.

Num flash, remonto o rosto dela e o sorriso dele. Só Deus sabe o quanto eu admirei aqueles namorados, quem sabe eu os amasse também? (pausa para eu refletir)
Pouco-a-pouco as imagens se desfasem e tudo o que é possível ver é aquela casa baldia. Escorrem agora lágrimas em meus olhos. Não sei o porquê. Não sei pra quê. É que talvez eu sentisse tanta saudade e não quisesse ver a casa ao relento.

Sentei no meio-fio daquela rua que já era apenas uma rua. E vi, como há alguns meses atrás, o casal de pouca idade deixando aquela casa. Os dois saíram juntos, com uma bagagem enorme cada um. De mãos dadas se olharam não mais como amantes, juntos jogaram a cópia das chaves no jardim do lado de dentro. Abraçaram-se. E depois cada um foi para um lado da rua, um caminho diferente. Depois daquele dia nenhum dos dois foram vistos naquela casa, na verdade, eles não foram vistos em lugar nenhum.

Hoje faz um ano e meio que presenciei o derradeiro encontro. Por impulso, pulei o portãozinho de ferro e nos matagais já crescidos procurei como um pirata procura seu tesouro uma das cópias das chaves. Na caixinha dos correios tinha uma cópia das chaves, adentrei a casa na esperança que pudesse encontrar alguma coisa daquele amor. Virei a chave na fechadura e me deparei com a casa do mesmo jeito que eles deixaram, na mesa redonda que estava no canto da sala tinha uma espécie de baú.

Dentro um bilhete: “Amores serão sempre amáveis, futuros amantes, quiçá, se amaram sem saber com o nosso amor”.

Peguei a aquele baú como um gesto concreto de palpar aquele amor, levei-o para casa. Cuidei daquele amor, como eu amei aquele casal.

... (Reticências) – Porque nunca se sabe o que a vida nos reserva para amanhã! 





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