quinta-feira, 5 de março de 2015

Filho de Março


Há quem olhe para mim e veja algo além de pó. Mas a verdade é que só me restam cacos, poeira e fuligem. Sou filho de Marte, filho da guerra, de uma guerra que até então travei comigo mesmo. Fui eu quem deu o primeiro tiro e também o último. O sangue que escorre nos campos de batalha, fui eu quem plantou. Existe um ponto na vida, onde todas as coisas que importam somem, onde só o desespero habita, e daí surge a nossa guerra interior.

Devemos estar abertos para o mundo. Manter a porta fechada é fechar-se para novas oportunidades. Eu me tranquei num quarto escuro e lá fiquei. Amei os meus demônios por mais tempo do que deveria e então vivi o ódio que me estava destinado. Espalhei todo o caos que havia dentro de mim nas vidas daqueles que me importavam. E tudo isso por quê?

Fui criado para amar e me destruir. Afiei a faca que dilacera meu busto. Amei e amei como fui criado para amar. Um amor de guerra, de luta e de desespero. Um amor moldado para ser urgente, para ser vivo, para ser insano. E então quando os homens declarassem paz, eu seria um cão sem dono, um lobo faminto desesperado em um mundo vazio.


Mês a mês minha insignificância suplica. Anseia por um amor que enfim seja real. E que se demore mais do que um campo de batalha e que resista às frontes e aos tanques. Nasci da guerra para ver tribos perecerem, mas não o amor, porque este nada mata.


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