sábado, 7 de março de 2015

Era Outra Vez: A Bela e a Fera

Os dois vinham em direções opostas no corredor. Ela era a garota mais popular do colégio. Qualquer um, com exceção dos populares, que dirigisse a palavra a ela se arrependeria pelo resto da vida. Ele era um nerd quieto e tímido que nutria - contra a própria vontade - uma paixão secreta por ela. Ela não o viu. Ele já a havia visto desde quando ela virou o corredor. Isso não impediu o que aconteceu em seguida.
 Distraído, ele admirava o cabelo ondulado dela, seu sorriso, seu andar e outras coisas do tipo. Por conta disso, ele não viu por onde andava e acabou tropeçando. Como se isso não bastasse, ele derrubou os livros dela no chão. Ela lhe dirigiu um olhar de repulsa.
 -Olha por onde anda, otário! – disse, enquanto uma das “amigas”, que mais parecia uma subordinada, pegava seus livros e os carregava.
 -D-Desculpa, – gaguejou, quando elas já estavam longe o suficiente para não ouvir. E completou baixinho: -Jasmim.
 Ele ficou por um momento lá. Caído no chão. Até que notou uma agenda de capa lilás caída no chão. Ele a pegou. Devia ser de Jasmim. Ele entregaria mais tarde.
***
Jasmim era a garota mais popular do colégio. Todos faziam o que ela pedia, ou mandava. Alguns por bajulação, outros por ameaça. Ela era bonita, feliz e tinha a vida perfeita. Bem, todos sabemos que isso é mentira, né? Rafael era secretamente apaixonado por Jasmim. Não era feio, mas o fato de ser nerd o impedia de ter qualquer chance com uma garota. Ele escrevia cartas que nunca entregaria, poemas que nunca seriam lidos, etc.
 Mas, desde aquele dia, tudo mudou. Rafael veria a verdadeira Jasmim. Aquela que nem os amigos mais próximos conheciam. Aquela que era verdadeiramente humana.
***
Na hora da saída, Rafael se sentou no pátio dos fundos do colégio onde sabia que encontraria Jasmim. Ele abriu a agenda em uma folha qualquer e imediatamente se arrependeu. Jasmim e suas amigas vinham em sua direção com uma expressão feroz que parecia dizer “você vai pagar por isso, seu perdedor”. Não parou por aí. Rômulo, o namorado de Jasmim, vinha logo atrás.
 -Você quer morrer, não é? –disse uma garota que estava perto de Rafael e saiu correndo.
 Jasmim parou na frente dele e o olhou como se estivesse pensando que tipo de tortura faria. Seu namorado estalava os dedos de forma ameaçadora. As meninas o fuzilavam com os olhos. Por fim, Jasmim disse:
 -Devolva.
 -C-Como?-gaguejou.
Droga! Porque tinha que ser sempre assim?
 -Vamos lá - falou uma das garotas.
–Todos sabem que você pegou o diário da J.
 -É –continuou outra. – aquilo no corredor foi só encenação para pegar o diário.
 -Ahm... Não foi bem isso...  – disse Rafael.- Ele caiu, mas quando eu vi vocês já tinham ido embora. Guardei para devolver.
 Jasmim o olhou desconfiada.
 -E por que você o abriu? –perguntou sem parecer estar tão brava.
 -Certo. Eu não devia ter feito isso. Desculpa. – Rafael olhou para ela esperando aprovação. Ela suspirou e sua expressão se tornou calma. Em seguida, Jasmim falou com ele como se ele fosse uma criança.
 -Tudo bem. –E pegou o diário. –Só... não repita mais seus erros, ok?
 -Ok.
***
 Naquela noite, Rafael não dormiu. Ele não contou a ninguém, mas – sem querer querendo - leu um trecho do diário de Jasmim. E, o que viu, mudou quase completamente a imagem que ele tinha sobre ela.
 Jasmim também mudou sua imagem sobre ele. Quer dizer, ele podia ter espalhado para todo o colégio tudo que tinha lido no diário e, com isso, teria feito justiça com as próprias mãos por tudo que ela já havia feito contra ele e outros. Mas não. Mesmo que tenha lido algo, ele guardou para si mesmo.
 Eles ainda não sabiam, mas tinham muito em comum. Só tinham que “escavar” mais.
***
Sentindo pena de Rafael, Jasmim o convidou para assistir a um filme na casa dela. Era o mínimo que podia fazer após ter feito tanto mal a alguém. Quando as amigas perguntaram o motivo, ela disse:
 -Ele não tem nenhum amigo. Senti pena. Estou caridosa hoje.
 -Deve ser TPM – disse Ashley, sua melhor amiga, e todas riram. Jasmim teve vontade de dizer: “Não, Ash. Ele é um ser humano como nós e merece ser feliz
 É óbvio que Rafael disse que sim. Seria burrice sua não aceitar um convite da garota pela qual está apaixonado. Ele decidiu que não comentaria nada sobre o que leu no diário, mas quando chegou lá, não foi bem assim.
 -Eu li o seu diário – disparou assim que ela fechou a porta da frente.
 -E...
 -Sobre aquilo.
-Olha... Qual é mesmo seu nome? - Rafael arqueou uma sobrancelha.
-Rafael.
-Isso! Rafael – repetiu ela como quem decora algo. – Eu não estou muito a fim de falar sobre isso. Então...
-Só quero que você saiba que não é a única que passa por isso, tá? - ele a interrompeu. – Eu sei como é quando as pessoas olham pra você como se fosse radioativo. – Jasmim o encarava com um olhar que parecia pedir um abraço.
-Não precisa ser desse jeito. Você não precisa descontar a raiva em quem não tem nada a ver com isso.
 -Como você sabe? – falou ela com a voz trêmula. – Como eu me sinto, digo. Você também...
 -Não. Minha irmã – ele falou num sussurro. – Ela se matou, pois não aguentava mais. Quando descobriram que ela tinha AIDS todos começaram a evitá-la. Como se fosse contagioso... – brincou de forma irônica. – O que eu tô tentando dizer é que todos temos uma forma de escape para os nossos problemas. O dela foi dormir para sempre. O seu é ser popular e ter poder, mas isso causa dor a muitas pessoas e não melhora a sua.
 -Me desculpa – disse Jasmim abraçando-o. – Por tudo o que fiz.

 -Olha, eu tenho que te confessar uma coisa – ele falou segurando suas mãos. – Desde o quinto ano eu tenho um baita queda por você e agora essa “queda” virou amor. Por ver que a menina de quem eu gostava também é frágil e precisa de amor e carinho assim como eu.
***
Naquela noite, Rafael e Jasmim assistiram a A Bela e a Fera, comeram pipoca juntos e se beijaram pela primeira vez. Então, eles perceberam que, assim como em A Bela e a Fera, o amor deles era tão sincero que podia enfrentar tudo. Eles descobriram que não importa quem você é, o que faz ou o que sente, você pode ser verdadeiramente amado.
FIM


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