Os
dois vinham em direções opostas no corredor. Ela era a garota mais popular do colégio. Qualquer um, com
exceção dos populares, que dirigisse a palavra a ela se arrependeria pelo resto
da vida. Ele era um nerd quieto e
tímido que nutria - contra a própria vontade - uma paixão secreta por ela. Ela
não o viu. Ele já a havia visto desde quando ela virou o corredor. Isso não
impediu o que aconteceu em seguida.
Distraído, ele admirava o cabelo ondulado
dela, seu sorriso, seu andar e outras coisas do tipo. Por conta disso, ele não
viu por onde andava e acabou tropeçando. Como se isso não bastasse, ele
derrubou os livros dela no chão. Ela lhe dirigiu um olhar de repulsa.
-Olha por onde anda, otário! – disse, enquanto
uma das “amigas”, que mais parecia uma subordinada, pegava seus livros e os
carregava.
-D-Desculpa, – gaguejou, quando elas já
estavam longe o suficiente para não ouvir. E completou baixinho: -Jasmim.
Ele ficou por um momento lá. Caído no chão.
Até que notou uma agenda de capa lilás caída no chão. Ele a pegou. Devia ser de
Jasmim. Ele entregaria mais tarde.
***
Jasmim
era
a garota mais popular do colégio. Todos faziam o que ela pedia, ou mandava.
Alguns por bajulação, outros por ameaça. Ela era bonita, feliz e tinha a vida
perfeita. Bem, todos sabemos que isso é mentira, né? Rafael era secretamente apaixonado por Jasmim. Não era feio, mas o fato de ser nerd o impedia de ter qualquer chance
com uma garota. Ele escrevia cartas que nunca entregaria, poemas que nunca
seriam lidos, etc.
Mas, desde aquele dia, tudo mudou. Rafael
veria a verdadeira Jasmim. Aquela que nem os amigos mais próximos conheciam.
Aquela que era verdadeiramente humana.
***
Na
hora da saída, Rafael se sentou no pátio dos fundos do
colégio onde sabia que encontraria Jasmim. Ele abriu a agenda em uma folha
qualquer e imediatamente se arrependeu. Jasmim e suas amigas vinham em sua
direção com uma expressão feroz que parecia dizer “você vai pagar por isso, seu
perdedor”. Não parou por aí. Rômulo, o namorado de Jasmim, vinha logo atrás.
-Você quer morrer, não é? –disse uma garota
que estava perto de Rafael e saiu correndo.
Jasmim parou na frente dele e o olhou como se
estivesse pensando que tipo de tortura faria. Seu namorado estalava os dedos de
forma ameaçadora. As meninas o fuzilavam com os olhos. Por fim, Jasmim disse:
-Devolva.
-C-Como?-gaguejou.
Droga!
Porque tinha que ser sempre assim?
-Vamos lá - falou uma das garotas.
–Todos sabem que você
pegou o diário da J.
-É –continuou outra. – aquilo no corredor foi
só encenação para pegar o diário.
-Ahm... Não foi bem isso... – disse Rafael.- Ele caiu, mas quando eu vi
vocês já tinham ido embora. Guardei para devolver.
Jasmim o olhou desconfiada.
-E por que você o abriu? –perguntou sem parecer
estar tão brava.
-Certo. Eu não devia ter feito isso. Desculpa.
– Rafael olhou para ela esperando aprovação. Ela suspirou e sua expressão se
tornou calma. Em seguida, Jasmim falou com ele como se ele fosse uma criança.
-Tudo bem. –E pegou o diário. –Só... não
repita mais seus erros, ok?
-Ok.
***
Naquela
noite, Rafael não dormiu. Ele não contou a ninguém, mas – sem querer
querendo - leu um trecho do diário de Jasmim. E, o que viu, mudou quase
completamente a imagem que ele tinha sobre ela.
Jasmim também mudou sua imagem sobre ele. Quer
dizer, ele podia ter espalhado para todo o colégio tudo que tinha lido no
diário e, com isso, teria feito justiça com as próprias mãos por tudo que ela
já havia feito contra ele e outros. Mas não. Mesmo que tenha lido algo, ele
guardou para si mesmo.
Eles ainda não sabiam, mas tinham muito em
comum. Só tinham que “escavar” mais.
***
Sentindo
pena de Rafael, Jasmim o convidou para assistir a um
filme na casa dela. Era o mínimo que podia fazer após ter feito tanto mal a
alguém. Quando as amigas perguntaram o motivo, ela disse:
-Ele não tem nenhum amigo. Senti pena. Estou
caridosa hoje.
-Deve ser TPM – disse Ashley, sua melhor
amiga, e todas riram. Jasmim teve vontade de dizer: “Não, Ash. Ele é um ser humano como nós e merece ser feliz”
É óbvio que Rafael disse que sim. Seria
burrice sua não aceitar um convite da garota pela qual está apaixonado. Ele
decidiu que não comentaria nada sobre o que leu no diário, mas quando chegou
lá, não foi bem assim.
-Eu li o seu diário – disparou assim que ela
fechou a porta da frente.
-E...
-Sobre aquilo.
-Olha... Qual é mesmo
seu nome? - Rafael arqueou uma sobrancelha.
-Rafael.
-Isso! Rafael – repetiu
ela como quem decora algo. – Eu não estou muito a fim de falar sobre isso.
Então...
-Só quero que você
saiba que não é a única que passa por isso, tá? - ele a interrompeu. – Eu sei
como é quando as pessoas olham pra você como se fosse radioativo. – Jasmim o
encarava com um olhar que parecia pedir um abraço.
-Não precisa ser desse
jeito. Você não precisa descontar a raiva em quem não tem nada a ver com isso.
-Como você sabe? – falou ela com a voz
trêmula. – Como eu me sinto, digo. Você também...
-Não. Minha irmã – ele falou num sussurro. –
Ela se matou, pois não aguentava mais. Quando descobriram que ela tinha AIDS todos
começaram a evitá-la. Como se fosse contagioso... – brincou de forma irônica. –
O que eu tô tentando dizer é que todos temos uma forma de escape para os nossos
problemas. O dela foi dormir para sempre. O seu é ser popular e ter poder, mas
isso causa dor a muitas pessoas e não melhora a sua.
-Me desculpa – disse Jasmim abraçando-o. – Por
tudo o que fiz.
-Olha, eu tenho que te confessar uma coisa –
ele falou segurando suas mãos. – Desde o quinto ano eu tenho um baita queda por
você e agora essa “queda” virou amor. Por ver que a menina de quem eu gostava
também é frágil e precisa de amor e carinho assim como eu.
***
Naquela noite,
Rafael e Jasmim assistiram a A Bela e a
Fera, comeram pipoca juntos e se beijaram pela primeira vez. Então, eles
perceberam que, assim como em A Bela e a
Fera, o amor deles era tão sincero que podia enfrentar tudo. Eles
descobriram que não importa quem você é, o que faz ou o que sente, você pode
ser verdadeiramente amado.
FIM
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