quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O Clube dos Assassinos

- Meus queridos Assassinos... Todos sabem por que chamei especialmente só vocês aqui?

Era obviamente uma pergunta retórica, eu não ia arriscar responder o chefe.

- Preciso de uma prova de fidelidade de vocês. Todos que estão aqui tem uma coisa em comum. Vocês são casados.

Infelizmente sim.

- Eu preciso que vocês mostrem o amor pela nossa academia milenar. Desejo que vocês matem suas esposas!

Esposas?! Eu acho que ele ainda não olhou minha vida direito. Eu não era casado com uma mulher.

- Ou Maridos...

Enquanto ele olhava para as assassinas, ele passou um leve olhar por mim, eu tenho certeza.

- Quem o fizer receberá uma quantia alta! Bem alta. Do nível blocos de ouro.

Isso era absurdo! Eu não ia matar o homem que eu amo pra ficar rico. Me levantei para ir embora. Ninguém mais estava de pé para se habilitar ao serviço. Exceto um. O meu marido.

Me perguntei se ele também estava indo embora ou se estava disposto a me matar.

Mas, de repente, a cena mudou completamente. O chão, literalmente, se abriu abaixo de mim e foi como se eu fosse sugado por um buraco negro. O grito parecia entalado em minha garganta e a escuridão total era angustiante.

E, então, foi como se eu estivesse caindo de uma altura absurda. Minha audição começou a voltar e pude ouvir os sons ao redor - buzinas de carro, barulhos do dia a dia de uma cidade grande. Só então percebi que estava de olhos fechados e os abri, logo desejando não o ter feito. Desesperei-me novamente ao ver o asfalto se aproximar rapidamente, mas quando meu corpo se chocou contra ele, não senti nada. 

Fiquei de pé em um salto. Tinha uma arma em uma das mãos. Mas por que uma arma? Ah, certo. Eu fazia parte de um Clube de Assassinos. Ou quase; precisava matar o meu marido para provar minha fidelidade e me tornar um membro oficial do clube - algo que eu não estava disposto a fazer, já que o amava.

Espere! Isso não faz sentido algum...

O sinal se fechou para os pedestres e voltei a caminhar sobre a faixa branca. Olhei para a frente e vi a realidade começar a desbotar. Sim, desbotar. Pessoas, cachorros, casas, carros... Tudo parecia se tornar preto e branco aos poucos. Menos os olhos das pessoas. Esses, eu observei, se tornavam vermelhos e robóticos. Suas passadas se tornaram uma marcha. Eles nem me notavam ao passar ao meu lado.

Não sabia o que estava fazendo.

-- ¥ --

Fechei a porta do estabelecimento com força e me recostei sobre ela tentando diminuir o ritmo da respiração. Estava correndo há três quadras de dois cães-robôs raivosos, com dentes de metal super afiados. Hidrantes nas extremidades das calças explodiam enquanto eu passava, inundando a rua.

Quando me acalmei, percebi que atrás do balcão havia uma senhora a cantarolar. Por precaução, andei até a mulher com a arma em posição, erguida.

- Ah, calma, senhor! - ela disse ao se virar e dar de cara com a arma apontada em sua direção. Ela riu um pouco, em vez de se assustar.

Seus olhos não estavam vermelhos. Baixei a arma.

- Em vez de apontar armas por aí, por que não compra algo da minha loja?

Permiti-me respirar fundo por um momento e olhei a minha volta para ver se tinha algo de útil... Mas as prateleiras haviam sumido, deixando um grande vazio. Virei-me de volta para a senhora com uma expressão confusa, mas não a encontrei. Em vez disso, dei de cara com meu marido dentro das roupas da velha mulher e com olhos vermelhos brilhantes.

Eu gostaria de saber como abrir um buraco negro no meio do chão novamente.

Rapidamente ergui a arma em sua direção e já me preparei para atirar. Ele estava sob minha mira e nada fazia para sair dela. Eu estava estranhamente calmo e levava toda a situação com uma frieza incomum de minha parte. O instinto de sobrevivência e a aceitação em um grupo - o Clube de Assassinos - havia me transformado em outra pessoa.

Não ouve som de disparo.

Depois que atirei, a arma se desfaz em pó entre minhas mãos, e o homem a minha frente explodiu em corvos agitados e barulhentos. Eles voaram todos ao mesmo tempo em minha direção.

E eu não saí do lugar.

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- Ei, tá louco?! Dormindo no trabalho? - ouvi o colega da mesa ao lado chamar.

Olhei bem para ele, procurando por algum indício de olhos vermelhos. Depois, sacudi a cabeça, dizendo a mim mesmo que estava louca.

Não. Louco foi o sonho que tive.

Clube de Assassinos? Pessoas em preto e branco com olhos vermelho de robô? Hidrantes que explodem? E o mais estranho de todos... O meu chefe era meu marido que queria me matar???

Precisava descobrir o que estavam colocando no café do escritório.


 
 

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