quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A herdeira do mago

Era uma vez um mago poderoso que conseguiu a incrível tarefa de encontrar a pedra filosofal. O homem ambicioso se encantou pelo mineral e com ele encantou um macaco de realejo. O pequeno animal, sempre que aliciado, liberava pela uretra um líquido espesso e amarelo, ouro líquido. Assim sendo, o homem enriquecia a cada vez mais. A cada vez que o macaco se animava, o mago tornava-se um homem mais poderoso e mais respeitado. Quanto a pedra, vendo que não precisaria tão cedo de seus poderes, guardou-a em um lugar muito bem escondido para que ninguém a encontrasse.
Com o passar dos anos, o mago tivera uma filha, com uma camponesa que ele havia amado e levado para a cama. A pequena Lilian era uma menina linda e preciosa, com cabelos lindos, ondulados e loiros, e toda vez que sorria o mundo se tornava um lugar mais valioso de se viver. Quando o pai tornou-se desaparecido ‒ alguns hão de afirmar sua morte certa ‒ a filha herdou o macaco, que veio a falecer perto dela completar dezessete anos. Assombrada pelo terror da pobreza, a jovem partiu em uma busca pela perdida pedra filosofal, a mesma que seu pai encontrara há tanto tempo.
No percorrer do caminho, a pequena encontrou um rapaz já adulto, mas pela casa dos vinte e um anos, que bradava uma espada curva e muitíssimo afiada pelo caminho.
‒ Ora, mais que faz uma jovem tão linda assim nesta mata? ‒ Perguntou o bom-moço gabando-se de sua espada voraz.
‒ Procuro pela pedra filosofal e não há nada que ninguém possa fazer para me impedir de encontrá-la.
Acontece que o garoto era de origem muito pobre. Tornou-se ladrão por acaso e constituiu uma fama ousada e bem reconhecida por todos. Gilbert também buscava a pedra, mas não somente para seu uso, como também para provar-se o maior dos ladrões, podendo gabar-se todas as noites de conquistar carregamentos de ouro sem que precisasse tomar qualquer tipo de esforço ou correr qualquer perigo.
Os dois bem que tentaram se enfrentar, mas logo ficou claro que a determinação dos dois era forte e que nenhum cederia à força do outro. Viram-se obrigados a colaborar nesta jornada até que, por fim, pudessem decidir o que fazer com a pedra.
O percurso era longo e muitos tentaram se interpor no caminho. Gilbert era habilidoso o suficiente para afastar os perigos do caminho, mas quando alguma coisa mágica ‒ o que quer que seja ‒ aparecia, Lilian jorrava confiança e usava de tudo o que tinha aprendido com seu pai. Pouco a pouco, o caminho foi se encurtando e, seguindo as pistas que ambos possuíam, deviam estar perto do provável esconderijo da pedra filosofal.
A entrada era guardada por um feitiço. Uma prova de que somente o mago entraria naqueles portões. O ouro dourado que o macaco jorrava quando aliciado. Lilian quase se arrependeu de não ter trazido nenhuma gota de ouro. Quando clareou seus pensamentos, percebeu que o homem que a acompanhava podia ser de grande valia.
‒ Pensas que a magia é árdua? Muitas vezes as respostas são as mais simples. É algo encantado o que ele quer? É um líquido espesso? Que assim o seja.
O homem acalentou-se e jorrou algum líquido em uma vasilha de barro. A mulher cortou seus cabelos ‒ que eram encantados pelo pai ‒ e salpicou sobre o líquido masculino. Com um galho, misturou e quando a mistura brilhou, soube que estava pronta para ser usada. A porta se abriu enganada pelo feitiço e os dois jovens entraram sem dificuldade.
A pedra filosofal encontrava-se bem ali em frente. Guardada por um casal, um homem e uma mulher, ou, pelo menos, o que um dia fora um homem e uma mulher. O mago e sua esposa tinham se transformado naqueles. Com o tempo, sua humanidade já se esvaíra e restara apenas um receptáculo humanoide incrustados de ouro. O que um dia fora o amor de dois mortais agora era apenas um desejo forte de manter para si o poder e a riqueza. As duas aberrações em dourado, já quase deformadas, lutavam para proteger a pedra filosofal. Gilbert e Lilian lutavam desordenadamente para tentar resgatar o mineral. Sem se lembrar de sua vitoriosa parceria, os dois lutavam independentes pela pedra.

A derrota tornava-se clara e forte. Quando uma das atrocidades douradas derrubou Gilbert no chão e cortou-lhe o braço fora, o rapaz viu formarem-se gordas lágrimas nos olhos de Lilian, que avançou com sua fúria para cima dos cadáveres reluzentes de seus pais. O quadro se inverteu e a menina tomou a pedra para si. A riqueza material já não mais interessava. Seu amado companheiro jazia perdendo muito sangue. Ela então tomou a pedra e, sem pensar, uniu o braço arrancado ao corpo de Gilbert, usando a magia da pedra para transformar o membro em uma coisa dourada e una, um braço novo e reluzente. Como vingança, os pais voltaram a ser carne, mas como restava muito pouco, desfaleceram e não restou mais nada. Gilbert e Lilian casaram-se e destruíram a pedra. Nenhum ser humano jamais encontraria um meio de transformar algo em ouro, contudo afirmo que os dois amantes descobriram como transformar a vida em algo muito mais precioso, e, amando-se, os dois viveram felizes para sempre.


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