Era uma vez um mago
poderoso que conseguiu a incrível tarefa de encontrar a pedra filosofal. O
homem ambicioso se encantou pelo mineral e com ele encantou um macaco de
realejo. O pequeno animal, sempre que aliciado, liberava pela uretra um líquido
espesso e amarelo, ouro líquido. Assim sendo, o homem enriquecia a cada vez
mais. A cada vez que o macaco se animava, o mago tornava-se um homem mais
poderoso e mais respeitado. Quanto a pedra, vendo que não precisaria tão cedo
de seus poderes, guardou-a em um lugar muito bem escondido para que ninguém a
encontrasse.
Com o passar dos anos,
o mago tivera uma filha, com uma camponesa que ele havia amado e levado para a
cama. A pequena Lilian era uma menina linda e preciosa, com cabelos lindos,
ondulados e loiros, e toda vez que sorria o mundo se tornava um lugar mais
valioso de se viver. Quando o pai tornou-se desaparecido ‒ alguns hão de
afirmar sua morte certa ‒ a filha herdou o macaco, que veio a falecer perto
dela completar dezessete anos. Assombrada pelo terror da pobreza, a jovem
partiu em uma busca pela perdida pedra filosofal, a mesma que seu pai
encontrara há tanto tempo.
No percorrer do
caminho, a pequena encontrou um rapaz já adulto, mas pela casa dos vinte e um
anos, que bradava uma espada curva e muitíssimo afiada pelo caminho.
‒ Ora, mais que faz uma
jovem tão linda assim nesta mata? ‒ Perguntou o bom-moço gabando-se de sua
espada voraz.
‒ Procuro pela pedra filosofal e não há nada que
ninguém possa fazer para me impedir de encontrá-la.
Acontece que o garoto
era de origem muito pobre. Tornou-se ladrão por acaso e constituiu uma fama
ousada e bem reconhecida por todos. Gilbert também buscava a pedra, mas não
somente para seu uso, como também para provar-se o maior dos ladrões, podendo
gabar-se todas as noites de conquistar carregamentos de ouro sem que precisasse
tomar qualquer tipo de esforço ou correr qualquer perigo.
Os dois bem que
tentaram se enfrentar, mas logo ficou claro que a determinação dos dois era
forte e que nenhum cederia à força do outro. Viram-se obrigados a colaborar
nesta jornada até que, por fim, pudessem decidir o que fazer com a pedra.
O percurso era longo e
muitos tentaram se interpor no caminho. Gilbert era habilidoso o suficiente
para afastar os perigos do caminho, mas quando alguma coisa mágica ‒ o que quer
que seja ‒ aparecia, Lilian jorrava confiança e usava de tudo o que tinha
aprendido com seu pai. Pouco a pouco, o caminho foi se encurtando e, seguindo
as pistas que ambos possuíam, deviam estar perto do provável esconderijo da pedra
filosofal.
A entrada era guardada
por um feitiço. Uma prova de que somente o mago entraria naqueles portões. O
ouro dourado que o macaco jorrava quando aliciado. Lilian quase se arrependeu
de não ter trazido nenhuma gota de ouro. Quando clareou seus pensamentos,
percebeu que o homem que a acompanhava podia ser de grande valia.
‒ Pensas que a magia é
árdua? Muitas vezes as respostas são as mais simples. É algo encantado o que
ele quer? É um líquido espesso? Que assim o seja.
O homem acalentou-se e
jorrou algum líquido em uma vasilha de barro. A mulher cortou seus cabelos ‒
que eram encantados pelo pai ‒ e salpicou sobre o líquido masculino. Com um
galho, misturou e quando a mistura brilhou, soube que estava pronta para ser
usada. A porta se abriu enganada pelo feitiço e os dois jovens entraram sem
dificuldade.
A pedra filosofal encontrava-se
bem ali em frente. Guardada por um casal, um homem e uma mulher, ou, pelo
menos, o que um dia fora um homem e uma mulher. O mago e sua esposa tinham se
transformado naqueles. Com o tempo, sua humanidade já se esvaíra e restara
apenas um receptáculo humanoide incrustados de ouro. O que um dia fora o amor
de dois mortais agora era apenas um desejo forte de manter para si o poder e a
riqueza. As duas aberrações em dourado, já quase deformadas, lutavam para
proteger a pedra filosofal. Gilbert e Lilian lutavam desordenadamente para
tentar resgatar o mineral. Sem se lembrar de sua vitoriosa parceria, os dois
lutavam independentes pela pedra.
A derrota tornava-se
clara e forte. Quando uma das atrocidades douradas derrubou Gilbert no chão e
cortou-lhe o braço fora, o rapaz viu formarem-se gordas lágrimas nos olhos de
Lilian, que avançou com sua fúria para cima dos cadáveres reluzentes de seus
pais. O quadro se inverteu e a menina tomou a pedra para si. A riqueza material
já não mais interessava. Seu amado companheiro jazia perdendo muito sangue. Ela
então tomou a pedra e, sem pensar, uniu o braço arrancado ao corpo de Gilbert,
usando a magia da pedra para transformar o membro em uma coisa dourada e una,
um braço novo e reluzente. Como vingança, os pais voltaram a ser carne, mas
como restava muito pouco, desfaleceram e não restou mais nada. Gilbert e Lilian
casaram-se e destruíram a pedra. Nenhum ser humano jamais encontraria um meio de
transformar algo em ouro, contudo afirmo que os dois amantes descobriram como
transformar a vida em algo muito mais precioso, e, amando-se, os dois viveram
felizes para sempre.

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